
O que seria mais uma noite de trabalho terminou em uma cena de extrema violência na madrugada dessa sexta-feira (7/8), na Comercial da 314 Norte, Bloco A. Durante o plantão noturno, o zelador Vanderlei Souza Lima, 53 anos, foi brutalmente espancado após um desentendimento com um homem em situação de rua, por volta das 3h30. Segundo a Polícia Militar (PMDF), o agressor deixou o local após a discussão, retornou com um pedaço de madeira e atingiu a vítima com golpes na cabeça. O homem foi socorrido em estado gravíssimo, encaminhado ao Hospital de Base, onde permanecia entubado até ontem.
O médico responsável informou aos policiais que a vítima deu entrada convulsionando, com traumatismo cranioencefálico (TCE), graves contusões na cabeça e precisou ser entubada. Conforme a avaliação médica, as lesões são compatíveis com uma paulada. O caso é investigado como tentativa de homicídio pela 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). O autor das agressões seguia foragido.
Funcionária de um estabelecimento comercial da quadra, Maria Aparecida de Jesus, 50 anos, afirmou que o local tem se tornado cada vez mais perigoso. "Nos últimos meses, o sentimento é de muito medo mesmo. Agora, com esse caso próximo daqui, ficamos mais inseguros ainda", acrescentou.
Apesar da convivência diária com pessoas em situação de rua, ela diz que nunca teve problemas com aqueles que costumam permanecer no local. "Pelas imagens não conhecemos o agressor. Os que ficam aqui no prédio não mexem com a gente. Mas, de toda forma, ficamos à mercê", disse Maria Aparecida.
Fragilidade
O especialista internacional em segurança Leonardo Sant'Anna afirmou que o DF vive uma situação que expõe a fragilidade do sistema diante de crimes tratados como de menor potencial ofensivo. "Estamos passando por uma ilustração perfeita da falência do sistema que foi apresentado diante desses crimes tratados como de menor potencial ofensivo. E os verdadeiros criminosos já se infiltraram nessa vulnerabilidade para cometer violência com a certeza de uma impunidade", disse.
Segundo ele, o Anuário de Segurança Pública do Distrito Federal também mostra que é preciso diferenciar a população em situação de rua dos criminosos que se aproveitam dessa realidade. "Mais de 3,5 mil pessoas efetivamente em situação de rua se diferem do verdadeiro agressor. Este não é o necessitado; é o bandido que se esconde nessas estatísticas sociais", declarou.
Para o especialista, a falta de atualização das leis diante das novas dinâmicas sociais contribui para a sensação de impunidade. "Quando a gente não tem uma lei adaptada diante das novas dinâmicas sociais para punir rigorosamente quem vai se aproveitando desse caos urbano, a gente tem um desequilíbrio, e o infrator vai ter convicção de que ele não sofrerá nenhuma consequência para os seus atos", enfatizou.
Diante desse cenário, Sant'Anna defende que Brasília precisa adotar medidas mais rigorosas contra os responsáveis por agressões. "A gente continua com leis que não foram adaptadas. E essa não adaptação cria a frouxidade. As normas já têm sido vistas por alguns como frouxas demais", acrescentou. Ao mesmo tempo, ele ressalta a necessidade de garantir atendimento à população vulnerável. "E a gente também não pode esquecer que é fundamental separar e oferecer a assistência integral às mais de 3 mil pessoas em real situação de desabrigo", disse.
Na avaliação de Leonardo Santana, o DF precisa combinar assistência social com punição efetiva para combater a violência: "Trazer a punição efetiva para o criminoso disfarçado, eliminando aquela impunidade que alimenta a escalada de agressões contra trabalhadores e cidadãos de bem".
O crime
Moradores da área relatam que a possível motivação estaria relacionada a uma vingança, uma vez que o zelador repreendia as pessoas em situação de rua no local e demandava que se retirassem de lá em razão do barulho que causavam.
Um segurança da área comercial informou que o autor dos fatos estava armado com uma faca, que não teria sido usada no crime; tinha aproximadamente 1,70m de altura, pele parda, trajava jaqueta camuflada do Exército, calça jeans e sandália. Ele disse que tentou perseguir o agressor, mas não conseguiu alcançá-lo. Até o momento, ele ainda não foi identificado.
Esperança
Abalado, o cunhado de Vanderlei, Jônatas dos Santos Reis, 48, confeiteiro, contou que a família foi informada sobre a gravidade do quadro, mas também recebeu esperança dos profissionais que acompanham o caso. "É grave, mas não é um caso para morte. Eles nos deram bastante esperança", disse.
Segundo o parente do zelador, a família ainda não conseguiu conversar diretamente com a equipe médica, mas recebeu informações iniciais na unidade hospitalar. "Com o médico a gente não conversou ainda, mas eles falaram que o estado é grave. Vai fazer uma cirurgia para limpeza do crânio por conta do traumatismo e ele está entubado também", acrescentou.
Jônatas foi até o condomínio onde a vítima trabalha para buscar os documentos e o celular do cunhado, a pedido da esposa da vítima. Segundo ele, a PMDF conseguiu avisar um dos irmãos de Vanderlei sobre a ocorrência. "Quando a gente ficou sabendo, eu trouxe a esposa dele, que é minha irmã. Ela está bem abalada psicologicamente", disse. O familiar revelou que conhece o zelador há muitos anos, desde quando os dois moravam em Serra do Ramalho, na Bahia. "Ele é uma pessoa tranquila e dedicada à família. Tem três filhos, uma menina e dois meninos", acrescentou.
O familiar também comentou sobre a sensação de insegurança diante de casos de violência registrados na região. "Sabemos da situação aqui no DF. A gente tem medo. À noite é bem complicado andar aqui nessa área", afirmou.
Segundo a porta-voz da Polícia Militar do DF, major Talita, imagens de câmeras de segurança já foram distribuídas para as equipes da Polícia Militar, que realizam buscas pelo suspeito. "Com base nas imagens, fizemos a divulgação para as equipes que estão de serviço aqui na Asa Norte. Também estamos com equipes especializadas trabalhando para tentar localizar esse autor", ressaltou.
A major ainda destacou que a investigação sobre a motivação do crime ficará sob responsabilidade da Polícia Civil. "O relato que recebemos foi de que havia episódios anteriores envolvendo a dificuldade de convivência com pessoas ocupando as imediações do prédio. Agora cabe à Polícia Civil apurar os fatos", disse a major.
*Estagiário sob a supervisão de Tharsila Prates

Cidades DF
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