Podcast do Correio

Cientista política defende condições para mulheres na disputa por espaço

A advogada e cientista política Gabriela Rollemberg fala dos gargalos para uma maior representatividade feminina nas eleições

"As mulheres não querem mais só ser candidatas, querem ser eleitas" - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Com mais de 20 anos de atuação na Justiça Eleitoral, a advogada e cientista política Gabriela Rollemberg vê com desânimo o avanço de mulheres no cenário político. À frente do projeto Quero Você Eleita, que busca instigar e formar redes de apoio e aprendizagem contínua na área, ela conversou com as jornalistas Adriana Bernardes e Ana Raquel no Podcast do Correio, onde discorreu sobre os progressos, impasses e projetos de incentivo à presença feminina nas cadeiras dos Poderes.

Segundo a especialista, o problema não está mais apenas em convencer mulheres a se candidatarem, mas em garantir que elas tenham condições reais de disputar eleições. "Os partidos políticos querem mulheres candidatas, mas as mulheres não querem mais só ser candidatas, elas querem ser eleitas. Querem a caneta na mão", resume.

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Entre as principais medidas adotadas para tentar corrigir a desigualdade estão a reserva de 30% das candidaturas para mulheres e a destinação mínima de 30% dos recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral às candidaturas femininas. Na prática, porém, segundo Gabriela, os mecanismos ainda não produziram a mudança esperada.

A cota de candidaturas, diz ela, acabou sendo tratada pelos partidos como um limite a ser cumprido, e não como um ponto de partida. "Os partidos fazem questão de cumprir só o mínimo", afirma. Para ela, as medidas foram importantes como construção institucional, mas insuficientes para alterar o cenário.

O mesmo ocorre com o dinheiro destinado às campanhas. Gabriela relata que, entre as cerca de 50 mulheres acompanhadas atualmente pela comunidade Quero Você Eleita, uma queixa se repete. No geral, elas questionam sobre não saber quanto vão receber, quando o dinheiro chegará ou sequer se terão acesso aos recursos prometidos.

Ela afirma que, enquanto isso, candidatos homens, sobretudo aqueles que já ocupam cargos e dispõem de estrutura política, começam a campanha em condições diferentes. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) delimitou uma data para o provimento do recurso. Na resolução inicial, o dinheiro deveria ser distribuído até 30 de agosto. Após pressão por parte dos partidos, o TSE estendeu o prazo para 8 de setembro. A prorrogação é um impasse, afirma a advogada.

"Imagina, você fazer uma eleição com menos de um mês do pleito, sem saber qual é o orçamento que você tem para você contratar. A experiência de ser candidata no Brasil hoje é péssima e acontece em praticamente todos os partidos", critica.

Mas os gargalos não impactam somente datas e recursos. Mesmo eleitas, o cenário é complexo, descreve a especialista. Envolve, segundo ela, um ciclo agressivo, com violência política, patrimonial — quando o partido não repassa o recurso —, física, psicológica e, por vezes, sexual.

Cotas de cadeiras

Embrião do Quero Você Eleita, o projeto de longo prazo "Mulheres que Pensam o Brasil" nasce de uma necessidade de resolução, com prazo de, no máximo, uma década, explica Gabriela Rollemberg. "Se continuarmos avançando no mesmo ritmo atual, vamos demorar 130 anos para alcançar a igualdade no Brasil. Queremos promover a aceleração desse processo pelos próximos 10 anos, para que a gente possamos, no mínimo, dobrar a bancada feminina do Congresso Nacional."

De maneira prática, explica, é necessário a aprovação de uma PEC para incluir na Constituição uma regra de transição que estabeleça 30% da bancada política para mulheres. "O ideal era 50%", afirma.

"Não colocar a mulher na mesa de decisão significa que mais da metade da população não está representada. O sistema proporcional existe justamente para desenhar a proporção da população no Congresso Nacional. Não faz sentido que continuemos tendo uma representação de até 18%, que é o teto na Câmara dos Deputados, enquanto representamos 53% do eleitorado", critica.

O retrocesso do Brasil frente a países como México e Argentina, que destina o percentual de 50%, desemboca impactos na economia e no desenvolvimento social, alerta a advogada.

A partir do projeto "Mulheres que Pensam o Brasil", as gestoras conceberam a Carta das Mulheres para a Política. A ideia é reunir demandas consideradas consensuais entre mulheres de diferentes correntes ideológicas e apresentá-las aos candidatos à Presidência da República.

A proposta, segundo Gabriela, é tirar esses compromissos do território das promessas eleitorais e levá-los aos planos de governo. A iniciativa não pretende se vincular a um partido específico.

"Não dá para um presidente querer se eleger com o voto das mulheres e, quando chega na hora de nomear para um cargo estruturante, nomear um homem."

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postado em 26/08/2026 05:00
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