
Com o início da corrida eleitoral, alguns candidatos apostam na criatividade para escolher o nome que aparecerá na urna e tentar se destacar entre tantos concorrentes. Em 2026, há postulantes que levam apelidos curiosos, bem-humorados ou inusitados para a disputa. O Correio conversou com candidatos do Distrito Federal para entender a origem dos nomes e saber se a estratégia pode influenciar na hora do voto. Especialistas avaliam que um nome marcante pode facilitar a memorização e ampliar a visibilidade, mas alertam que a estratégia precisa estar acompanhada de propostas e credibilidade para não transformar o candidato apenas em uma figura cômica.
Jacildo Pereira, 65, candidato a deputado federal como Silvio Fotógrafo O Corno (Agir), contou que adotou o apelido como estratégia para se diferenciar dos demais candidatos e conquistar eleitores insatisfeitos com a política tradicional. Segundo ele, a ideia surgiu após conhecer o presidente nacional de uma associação relacionada ao termo (corno), no Ceará, e fundar uma entidade semelhante em Brasília. "Eu senti que era melhor ser diferente de todos os candidatos que viriam. Por isso, sou candidato como Silvio Fotógrafo, minha profissão, e presidente dos cornos da associação que eu represento", explicou.
Scooby Ube (Republicanos), 49, candidato a deputado distrital, atribui o apelido político à trajetória profissional. Em 2008, Manoel Ribas vendia lanches nas ruas, criou o nome Scooby Lanche, inspirado no personagem Scooby-Doo. Anos depois, em 2016, passou a trabalhar como motorista de aplicativo e adaptou a marca para Scooby Ube. Segundo ele, a identidade foi pensada como uma estratégia para a política. "Por ser um nome diferente, Scooby Ube, só existe um, só existe eu. Fica fácil entrar na cabeça da pessoa. Geralmente os meus passageiros (sou motorista há 10 anos) não esquecem, gravam o nome e o número", afirmou.
O candidato afirmou que pretende conquistar o eleitor pela segurança ao defender suas propostas, representando os motoristas de aplicativos. "Quando eu falo das minhas propostas e dos meus projetos para as pessoas, eu falo com firmeza. Todas as perguntas que são feitas têm que ter resposta. Eu respondo todas com firmeza e clareza", disse.
Conquista dos votos
O uso de apelidos cômicos ou populares pode, sim, contribuir para a conquista de votos, mas o resultado depende do que existe por trás do nome, segundo o analista de risco político e sócio da Royal Politics Consultoria e MKT Político, Rócio Barreto. "O apelido realmente pode virar voto. É um atalho cognitivo que pode fazer com que o eleitor memorize um nome com mais rapidez", afirmou. Ele esclareceu, porém, que a estratégia precisa ir além da curiosidade. "A pessoa tem que associar aquele nome cômico a uma história, a um grupo social, a um posicionamento político. É assim que o eleitor vai fazer esse apelido virar voto", explicou.
Em campanhas curtas e marcadas pela disputa por atenção nas redes sociais, Barreto avaliou que nomes inusitados podem gerar maior alcance. "Uma campanha disputa atenção não apenas com outros candidatos, mas com entretenimento, influenciadores, memes e notícias. Um nome curioso nasce com potencial de gerar comentário e compartilhamento", disse. O analista, no entanto, alertou para o chamado "efeito meme", quando o candidato consegue chamar atenção, mas não transforma a popularidade em confiança e intenção de voto. "Se ficar apenas no primeiro estágio, vira personagem de internet, e não um candidato competitivo e acaba não levando nada", afirmou.
Nas eleições proporcionais, o especialista ressaltou que candidatos com apelidos populares podem ter importância para as estratégias dos partidos, mesmo quando não estão entre os favoritos à eleição. "Um candidato de apelido popular pode ter valor para a nominata, mesmo sem ser um dos favoritos, porque pode fazer votos que, somados aos dos candidatos puxadores e aos demais concorrentes, ajudam o partido ou a federação a alcançar uma cadeira", explicou. Barreto evidenciou, porém, que a popularidade precisa ser convertida em votos efetivos. "Pode ser excelente para o partido e para uma estratégia partidária, mas para o candidato, é preciso transformar essa autoridade em votos, construir uma marca eleitoral e não viver dependente somente de um partido".
Da vida para a política
Candidato a deputado distrital pelo Democrata, Carlão Reclamão, 35, afirmou que o apelido surgiu de sua atuação como crítico dos problemas de São Sebastião. Carlos Antônio contou que a expressão começou a ser usada de forma pejorativa por adversários, mas acabou incorporada à identidade política. "Antes de usar o Reclamão, meus vídeos apareciam como Carlos Antônio, mas a galera não me identificava. As pessoas paravam na rua e falavam: 'Você é o Reclamão'. Aí eu adotei esse apelido", relatou. Para o candidato, o nome ajuda a quebrar a formalidade da política e facilita a aproximação com os eleitores. "Ele quebra um pouco o paradigma da política, traz um pouco de descontração e, no fim das contas, se ninguém reclamar, ninguém faz nada. Vem sendo muito bem visto", afirmou.
Candidato a deputado distrital, Júlio César D'elia Rieder (Democrata), 45, decidiu levar o apelido Japa da Bike, pelo qual é conhecido, para a urna. Filho adotivo, ele conta que recebeu o apelido ainda na infância, por causa da ascendência japonesa. "Sou neto de japonês, adotado por uma família com sobrenome alemão e italiano. Desde a infância, sempre me chamaram de 'Japinha' e, depois de adulto, virou 'Japa'", explicou. Segundo ele, o nome ajuda na identificação com o trabalho desenvolvido junto à comunidade ciclística. "As pessoas associam meu nome ao meu trabalho com o Pelotão do Japa, o Japa da Bike", afirmou.
Apaixonado pelo ciclismo, o candidato decidiu disputar as eleições para defender políticas voltadas ao uso da bicicleta e à segurança dos ciclistas, e não teme que o apelido faça com que suas propostas sejam levadas menos a sério. "De maneira nenhuma. Pelo contrário, todos me conhecem exatamente por esse apelido e sempre foi um diferencial", declarou.
Preta Praiana (Democrata), 50, candidata a deputada distrital, explicou que o apelido usado na urna nasceu de sua trajetória como empreendedora. Segundo ela, "Preta" surgiu ainda na infância, enquanto "Praiana" veio da marca de moda praia que criou. O nome ganhou força nas redes sociais e passou a ser a forma como era reconhecida pelo público. "Meu nome de batismo, Marilda Dias, faz parte da minha história, mas Preta Praiana representa a mulher e a empreendedora que construí ao longo dos anos", ressaltou. A candidata disse que a identificação nas ruas tem sido positiva e que o nome ajuda na aproximação com os eleitores. "É um nome diferente, fácil de lembrar e que faz parte da minha história. Mas eu sei que não basta o eleitor se lembrar do meu nome ou do meu número. Quero que ele saiba o que eu defendo", disse.
A candidata rejeita a possibilidade de o apelido comprometer a seriedade da candidatura. "A seriedade de uma candidata não está no nome que ela usa, mas na sua história, nas suas propostas e na responsabilidade que assume diante da população. O nome pode ser popular, mas o compromisso é muito sério", declarou.
Imagem política
Professora de publicidade e propaganda da Estácio Brasília, Daniela Rabelo explicou que nomes de urna curiosos ou bem-humorados funcionam como um "atalho cognitivo", aumentando as chances de o eleitor associar rapidamente o nome a determinado candidato. "Um nome marcante contribui para o posicionamento e para a diferenciação simbólica da candidatura", afirmou.
A especialista explica que transformar o nome de urna em uma espécie de marca pode contribuir para a construção da imagem política. "Quando existe coerência entre o apelido, a trajetória, o discurso e as propostas do candidato, o branding (marca pessoal) fortalece a imagem pública, favorece a identificação do eleitor e contribui para a construção de confiança", destacou. Daniela alertou, porém, que o nome não pode se tornar mais importante do que a mensagem política. "O eleitor até se lembra do nome, mas não necessariamente das propostas, da plataforma eleitoral ou do posicionamento político daquele candidato. Nesse cenário, a marca pode gerar notoriedade, mas não credibilidade", avaliou.
Nas redes sociais, a estratégia pode ganhar mais força, uma vez que nomes inusitados têm potencial para provocar curiosidade, humor e compartilhamentos espontâneos. "As redes sociais operam a partir da lógica da economia da atenção, na qual diferentes atores disputam visibilidade em fluxos contínuos de conteúdo", explicou. A professora ressaltou, entretanto, que a exposição pode se voltar contra o candidato quando o aspecto pitoresco passa a ser mais lembrado do que sua capacidade política.
"Se o candidato passa a ser percebido apenas como um meme, uma piada ou uma figura folclórica, a exposição pode produzir efeitos indesejados para sua reputação", afirmou. Para Daniela, o diferencial só se sustenta quando está acompanhado de uma identidade política consistente. "Chamar atenção é importante, mas sustentar essa atenção com credibilidade é o que efetivamente contribui para a construção de capital político."
Candidatos com nomes curiosos no DF:
Gordinho da Farmácia (Pode) - Deputado Federal
Raposão DS (Mobiliza) - Deputado Federal
Salve Jorge (Pode) - Deputado Federal
Silva Fotógrafo O Corno (Agir) - Deputado Federal
Betinho Guariroba (Rede) - Deputado Distrital
Carlão Reclamão (Democrata) - Deputado Distrital
Jair dos Aplicativos (PDT) - Deputado Distrital
Japa da Bike (Democrata) - Deputado Distrital
Nay do Acarajé (PSB) - Deputado Distrital
Preta Praiana (Democrata) - Deputado Distrital
Scooby Ube (Republicanos) - Deputado Distrital
Sorriso (PDT) - Deputado Distrital
Zé do Coco (PT) - Deputado Distrital

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