NEGÓCIOS

Criatividade em alta: a arte como negócio

Capacitações em gestão, empreendedorismo, finanças e presença digital ajudam artesãos do DF a ampliarem oportunidades de venda

Gabiane Castro passou a enxergar a marca de bolsas personalizadas como uma empresa, e não apenas um trabalho manual
 -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Gabiane Castro passou a enxergar a marca de bolsas personalizadas como uma empresa, e não apenas um trabalho manual - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Viver do artesanato exige criatividade também na hora de administrar o próprio negócio. Em um mercado cada vez mais digital, saber precificar, organizar as finanças, divulgar o trabalho e conquistar clientes tornou-se parte da profissão. Gabiane Castro, 37 anos, moradora do Riacho Fundo II, sempre teve talento para criar bolsas personalizadas. Cada peça saía de suas mãos com cuidado e criatividade, mas na hora de colocar preço, fechar contas ou separar o dinheiro da empresa do da casa, ela se perdia. "Percebi que não bastava apenas saber produzir: eu precisava aprender a administrar melhor o meu negócio e me profissionalizar", lembra. Como Gabiane, centenas de artesãos do Distrito Federal enfrentam o mesmo dilema: transformar paixão em sustento sem abrir mão da originalidade.

Foi para atender a essa demanda que o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Sebrae-DF) estruturou um portfólio de cursos gratuitos e consultorias em gestão, empreendedorismo, finanças e presença digital. O Correio ouviu profissionais que, assim como Gabiane, colocaram esses ensinamentos em prática e viram seus negócios se transformarem.

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Nos últimos dois anos, mais de 700 artesãos e trabalhadores manuais foram capacitados por meio das iniciativas do projeto de artesanato do Sebrae-DF. Em 2026, foram 301 profissionais qualificados, enquanto 2025 registrou 447 participantes. "Enxergamos o artesão e o trabalhador manual como pequenos empresários com grande potencial, que precisam aliar seu talento criativo às estratégias e exigências do mercado", destaca o Sebrae-DF. Entre as ações oferecidas estão capacitações em atendimento ao cliente, além de consultorias em precificação, desenvolvimento de marcas e produtos.

Segundo a instituição, a profissionalização serve para que os artesãos consigam se diferenciar. "Com um produto adequado ao mercado e vendido a um preço justo, ele consegue tirar o lucro necessário, viver do seu negócio e, muitas vezes, gerar empregos e formar novos aprendizes", afirma o Sebrae-DF.

Cleziania Ribeiro, 47, artesã de esculturas em argila e moradora de Ceilândia Sul, buscou os cursos de controle financeiro, precificação e presença digital para organizar as vendas e divulgar melhor o trabalho nas redes sociais. "Minha principal dificuldade era organizar as vendas e encomendas em planilhas separadas, além de fazer vídeos para mostrar meu trabalho", relata. Depois da capacitação, ela passou a utilizar planilhas e recibos para cada encomenda.

A mudança, segundo Cleziania, também apareceu nas vendas. Ela começou a mostrar nas redes sociais o cotidiano do ateliê e o processo de criação das peças. "Alavancou minhas encomendas. Tanto é que hoje só tenho agenda para encomendas para novembro. Todos os meses antes estão cheios", comemora.

Cleziania Ribeiro buscou mostrar mais das suas esculturas em argila nas redes sociais
Cleziania Ribeiro buscou mostrar mais das suas esculturas em argila nas redes sociais (foto: Arquivo pessoal)

Para Rose Rainha, diretora superintendente do Sebrae-DF, o desafio é profissionalizar sem comprometer a identidade de cada artesão. "Nosso trabalho é ajudar o artesão a profissionalizar o negócio sem perder a sua originalidade e criatividade", afirma. Ela ressalta que a orientação também envolve compreender o valor do trabalho manual. "A questão não é simplesmente preço, mas valor agregado. A profissionalização passa por entender que o artesanato é, ao mesmo tempo, criação, identidade cultural e negócio".

Economia criativa

Para Maria de Fátima Rodrigues, 64, mestre de artesanato e bordadeira, o curso de gestão financeira foi importante para colocar as contas em ordem. "Eu tinha muita dificuldade de separar a pessoa física da pessoa jurídica. Eu misturava o meu dinheiro da conta de casa com o dinheiro do artesanato, o que me impedia de ver o lucro real", explica a moradora de Taguatinga. Atualmente, ela registra os gastos com material, tempo de produção e custos fixos para chegar a um preço mais justo.

A mudança também refletiu na forma como passou a enxergar a própria profissão. "Mudou a minha autoestima profissional. Deixei de ver a minha arte apenas como um trabalho manual e passei a me enxergar como uma empresária", afirma Maria de Fátima.

 21/08/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Cidades Artesãos no DF que foram profissionalizados por cursos de gestão e empreendedorismo. Na foto, Maria de Fatima.
Maria de Fátima faz bordados contemplando as belezas do DF (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

De acordo com Alexandre Kieling, do Programa de Pós-Graduação em Inovação em Comunicação e Economia Criativa da Universidade Católica de Brasília (UCB), o artesanato ocupa uma posição importante dentro da economia criativa. "O próprio artesão se encarrega de todos os processos: ele cria o produto, acha uma maneira de fazer o produto circular e ele mesmo acaba vendendo", explica.

Kieling destaca ainda o alcance da atividade: "O artesanato é atividade primária que tem uma capilaridade e um vínculo importantes com outros domínios criativos". Ele acrescenta que o artesanato também pode se relacionar com áreas como eventos, design, moda, audiovisual e gastronomia.

Aos 73 anos, Socorro Melo, moradora do Riacho Fundo I, encontrou na capacitação uma oportunidade de aprimorar os produtos, os conhecimentos e os processos criativos. Ela também relata mudanças na gestão do negócio. "Reduzi meus custos de produção e adquiri mais previsibilidade. Percebi novas possibilidades de negócios e no volume de vendas", disse a artesã de joias autorais em prata.

Para Socorro, a capacitação foi além dos aspectos financeiros e comerciais: "Mudou a minha postura e visão. Passei a valorizar ainda mais meu trabalho, a profissionalizar minha produção e a compreender que cada peça carrega não apenas beleza e criatividade, mas também valor e história".

Socorro Melo, 73 anos, artesã de joias autorais em prata, moradora do Riacho Fundo I
Socorro Melo fabricando suas joias autorais (foto: Arquivo pessoal)

O presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Leonardo Macedo, destaca que dominar a técnica não basta: é preciso aplicar conhecimentos de administração — como gestão de custos, precificação, fluxo de caixa, estoque, marketing e atendimento — para planejar, controlar recursos e tomar decisões seguras. Ele ressalta que a profissionalização exige mudança de mentalidade, reconhecendo o artesanato como atividade econômica viável, e alerta que isso não significa crescer a qualquer custo, mas, sim, ter controle sobre a atividade. "Profissionalizar não significa necessariamente crescer rapidamente ou transformar um pequeno negócio em uma grande empresa. Significa ter controle sobre a atividade, conhecer os números, planejar e tomar decisões conscientes", conclui.

  • Socorro Melo aprimorou seu processo produtivo
    Socorro Melo fabricando suas joias autorais Foto: Arquivo pessoal
  • Gabiane Castro passou a enxergar a marca de bolsas personalizadas como uma empresa, e não apenas um trabalho manual
    Gabiane Castro passou a enxergar a marca de bolsas personalizadas como uma empresa, e não apenas um trabalho manual Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
  • Cleziania Ribeiro está expondo nas redes sociais
    Cleziania Ribeiro buscou mostrar mais das suas esculturas em argila nas redes sociais Foto: Arquivo pessoal
  • Maria de Fátima faz bordados contemplando as belezas do DF
    Maria de Fátima faz bordados contemplando as belezas do DF Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
  • Maria de Fátima aprende a deixar contas em ordem
    Maria de Fátima aprende a deixar contas em ordem Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
  • Maria de Fátima faz bordados contemplando as belezas do DF
    Maria de Fátima faz bordados contemplando as belezas do DF Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
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postado em 13/09/2026 06:00
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