
Bebês que vivem em contextos de pobreza apresentam atrasos no desenvolvimento motor já aos seis meses de vida. A constatação vem do primeiro estudo brasileiro a acompanhar, mês a mês, a quantidade e a qualidade dos movimentos nos primeiros meses de vida, relacionando esses dados à vulnerabilidade socioeconômica.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e teve os resultados publicados na revista científica Acta Psychologica.
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O estudo acompanhou 88 bebês entre três e oito meses de idade, dos quais 50 viviam em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Ao longo de 334 avaliações, as pesquisadoras observaram que, a partir do sexto mês, os bebês expostos à pobreza alcançavam marcos motores, como agarrar objetos, virar e sentar, mais tarde do que aqueles em melhores condições socioeconômicas.
De acordo com o estudo, além do atraso no tempo de aquisição dessas habilidades, chamou atenção a qualidade dos movimentos. “Esses bebês apresentavam menor diversidade motora, repetindo sempre a mesma estratégia para pegar um brinquedo, por exemplo”, explica Carolina Fioroni Ribeiro da Silva, pesquisadora da UFSCar e autora do estudo, desenvolvido durante o doutorado.
Impactos além da primeira infância
Para a professora Eloisa Tudella, orientadora da pesquisa e referência na área de desenvolvimento infantil, os atrasos observados, embora sutis, não devem ser subestimados. “Evidências científicas indicam que atrasos motores leves no primeiro ano de vida podem influenciar o desenvolvimento global e se associar, mais tarde, a dificuldades comportamentais e de aprendizagem, incluindo transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e transtornos da coordenação”, afirma.
Segundo a pesquisadora, o desenvolvimento motor está profundamente conectado a outras áreas do desenvolvimento, como a cognição, a linguagem e a regulação emocional. Limitar as oportunidades de movimento nos primeiros meses pode, portanto, gerar efeitos em cascata ao longo da infância.
Estímulos simples fazem diferença
Apesar do alerta, os resultados trazem uma boa notícia. Aos oito meses de idade, os atrasos motores já não eram estatisticamente significativos. A reversão, segundo as pesquisadoras, está associada ao engajamento das mães, que passaram a aplicar em casa orientações simples recebidas durante as visitas do estudo.
“A maioria das mães em situação de pobreza era adolescente e não sabia como estimular os bebês após o nascimento. Durante as avaliações, ensinávamos práticas muito simples, como colocar o bebê de barriga para baixo, usar papel amassado como brinquedo ou conversar e cantar para a criança”, conta Silva, atualmente em estágio de pós-doutorado na Heinrich Heine University, na Alemanha.
As práticas foram prontamente incorporadas pelas famílias. “As mães copiavam as ações durante as avaliações e passaram a interagir mais com os filhos, o que favoreceu claramente o desenvolvimento motor”, relata a pesquisadora.
Entre as estratégias destacadas está o chamado tummy time, um períodos curtos em que o bebê permanece acordado e supervisionado, de bruços, sobre um tapete ou superfície segura. A prática fortalece a musculatura do pescoço, tronco e membros superiores e prepara o corpo para habilidades como rolar, sentar, engatinhar e ficar de pé.
“Muitos bebês passavam grande parte do tempo em carrinhos ou dispositivos de contenção, com poucas oportunidades de explorar o ambiente e experimentar diferentes formas de se mover”, explica Silva.
Avaliação inédita no Brasil
O estudo utilizou, pela primeira vez no Brasil, o Infant Motor Profile (IMP), instrumento desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Groningen, nos Países Baixos. Diferentemente de escalas tradicionais, que avaliam apenas se o bebê atingiu ou não determinado marco motor, o IMP analisa também a qualidade dos movimentos, considerando aspectos como variação, fluidez, simetria e desempenho.
Essa abordagem permite identificar precocemente riscos neuromotores, planejar intervenções mais precisas e acompanhar a evolução das crianças ao longo do tempo. “Outra vantagem é reduzir a necessidade de exames caros e invasivos, como a ressonância magnética, que em bebês geralmente exige sedação”, destaca Tudella.
A análise dos dados revelou ainda outros fatores associados ao desenvolvimento motor. Bebês do sexo masculino apresentaram uma probabilidade 2,57 vezes maior de desenvolver padrões motores atípicos em comparação às meninas. Embora a causa exata não seja conhecida, estudos anteriores sugerem maior vulnerabilidade biológica dos meninos a processos inflamatórios, que podem ser agravados por ambientes pouco estimulantes.
A presença de muitos adultos no mesmo domicílio também apareceu como fator de risco, possivelmente por gerar ambientes mais caóticos, com menos espaço seguro e menos oportunidades para o bebê se movimentar livremente.
Entre os fatores de proteção, destacaram-se a oferta de brinquedos que estimulam a motricidade fina, mesmo improvisados e de baixo custo, a maior escolaridade materna, a coabitação com o pai e a idade mais avançada das mães. No estudo, a idade média das mães em situação de pobreza era de 24 anos, enquanto aquelas em melhores condições socioeconômicas tinham, em média, 38 anos.
Políticas públicas e acompanhamento domiciliar
Para Silva, os achados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à primeira infância, especialmente em contextos de vulnerabilidade. “Os primeiros dois anos de vida são o período de maior neuroplasticidade. É quando o cérebro mais responde aos estímulos do ambiente”, explica.
Como mudanças estruturais, como o combate à pobreza e à gravidez na adolescência, não acontecem de forma imediata, a pesquisadora defende programas de acompanhamento domiciliar como estratégia eficaz. “A atuação de agentes comunitários de saúde e fisioterapeutas, orientando as famílias dentro de casa, pode ser um paliativo poderoso para reduzir desigualdades desde o início da vida”, afirma.
Para as autoras, investir em estímulos simples, acessíveis e baseados em evidências científicas é uma forma concreta de garantir que bebês, independentemente de sua origem social, tenham oportunidades reais de desenvolver todo o seu potencial desde os primeiros meses de vida.

Ciência e Saúde
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