HISTÓRIA

Fóssil escondido em museu revela nova 'ave do terror' brasileira

Estava guardado há décadas na PUC Minas como um osso comum. Nova análise revela uma espécie rara de ave predadora que viveu no Brasil há 25 mil anos

Um achado arqueológico de importância inestimável, encontrado, quase que literalmente, na prateleira do armário, permitiu a descoberta de um novo animal pré-histórico. A preciosidade em questão é um tibiotarso fossilizado — um osso de uma das pernas do lado esquerdo —, que já integrava a coleção paleontológica do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, localizado na Região Noroeste de Belo Horizonte.
A questão é que, até recentemente, nem mesmo os próprios pesquisadores da instituição tinham dimensão do valor da peça, então catalogada como originária de um animal da família dos urubus. Porém, uma nova análise constatou que, na verdade, o fóssil pertence a uma espécie recém-descoberta, e bem mais rara: a Eschatornis aterradora, uma das chamadas aves do terror.
 
Carnívoros e vorazes, esses animais, conhecidos pelo nome científico Phorusrhacidae, viveram em diversas regiões do planeta entre 53 milhões e 25 mil anos atrás e, tal qual outras aves pré-históricas, descendiam diretamente dos dinossauros. Eram incapazes de voar, mas algumas espécies podiam chegar a 3 metros de altura.
O professor de paleontologia Rodrigo Parisi Dutra, do curso de ciências biológicas da PUC Minas, explica que o "terror" que dá nome a esses plumíferos advém do tamanho, além dos hábitos alimentares e da aparência. "São aves predadoras e, devido ao porte, seriam aterrorizantes", diz o acadêmico, que também é curador do Museu de Ciências Naturais PUC Minas.
Parisi lembra que o fragmento foi encontrado em um dos locais mais ricos em fósseis do período Pleistoceno do planeta: a Toca dos Ossos, uma caverna no município de Ourolândia, na Bahia, que atualmente integra uma reserva ambiental. A coleta do artefato ocorreu durante a década de 1980, em expedições realizadas pelo professor Castor Cartelle, fundador do Museu de Ciências Naturais PUC Minas.
A pesquisa mais recente, que enfim conseguiu identificar o animal, por meio de técnicas de datação por carbono-14 e análise isotópica, é fruto de uma colaboração multi-institucional, que contou com especialistas do laboratório de paleontologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com um pesquisador da Argentina e com um grupo de professores da PUC Minas. "São quatro gerações de pesquisadores", destaca Parisi. 
A descoberta da nova ave do terror brasileira deu origem a um artigo científico, publicado no periódico científico Papers in Palaeontology no último mês de março. "É uma revista internacional bem boa", celebra Parisi. Diante do resultado, o pesquisador salienta a importância das coleções científicas: "É só por conta dessas coleções que a gente consegue fazer esse tipo de trabalho", afirma.
O diretor do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, professor Henrique Paprocki, também destaca a relevância do acervo da instituição. "Aqui no museu a gente tem 10 grandes coleções científicas, que vão desde insetos, passando por anfíbios, até uma grande coleção de paleontologia, ou seja, de fósseis, que, à medida que vão sendo estudadas, vão produzindo mais conhecimento científico", acrescenta.
 

Uma das últimas da espécie

A Eschatornis aterrador, ave do terror à qual pertence o tibiotarso do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, foi uma das últimas - talvez até mesmo a última - da espécie a viver no território onde, hoje, está constituído o Brasil. Isso, cerca de 25 mil anos atrás, durante o período Pleistoceno. Nessa mesma época, o ser humano, o Homo sapiens, antepassado da espécie humana, começava a habitar a mesma região. "Pode ser que ela tenha convivido com algum ser humano", avalia o professor Parisi. 
O pesquisador pontua ainda que a Eschatornis aterradora é a menor ave do terror brasileira e uma das menores já catalogadas no planeta. O porte é semelhante ao de uma seriema, que, inclusive, é o parente vivo mais próximo desse animal. O peso chegava a cerca de seis quilos, o que é bastante em comparação às espécies atuais, mas pouco em relação a outras aves do terror, que podiam ultrapassar os 100 kg.
Animais gigantescos, da chamada megafauna, aliás, eram comuns durante o período do Pleistoceno. Por sua vez, a pequena ave do terror que, até recentemente, era desconhecida, provavelmente caçava animais ainda menores em meio à savana arbórea que existia onde, hoje, está a Região Nordeste do Brasil.
Justamente por isso, tanto os estados do Nordeste quanto Minas Gerais são muito ricos em fósseis do Pleistoceno e também de outras épocas. "Espécimes grandes já são achadas há um bom tempo, mas espécimes menores começaram a ser encontrados agora", elucida Parisi. "A gente está em cima de um sítio arqueológico gigantesco", acrescenta o professor. 
 

Uso científico

O tibiotarso da Eschatornis aterradora não está em exposição no Museu de Ciências Naturais PUC Minas. Além do grande valor científico, o artefato é pequeno, o que dificulta a contextualização para o público geral. Porém, Parisi esclarece que ele está à disposição para ser estudado por paleontólogos e pela comunidade acadêmica. 

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