Biologia

Hormônios podem influenciar avanço do lipedema, diz pesquisa

A doença afeta principalmente mulheres e costuma surgir ou piorar em períodos como puberdade, gravidez e menopausa. Estudo recente revela falta de conhecimento sobre a doença até entre profissionais de saúde

O problema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura no quadril, nas coxas e nas pernas. Diagnóstico preciso é fundamental para o tratamento correto -  (crédito: Imagem de Freepik)
O problema é caracterizado pelo acúmulo anormal de gordura no quadril, nas coxas e nas pernas. Diagnóstico preciso é fundamental para o tratamento correto - (crédito: Imagem de Freepik)

Alterações hormonais, especialmente ligadas ao estrogênio, podem influenciar o desenvolvimento e a progressão do lipedema, doença que afeta principalmente mulheres e costuma surgir ou piorar em períodos como puberdade, gravidez e menopausa. É o que diz um estudo de autores brasileiros publicado na revista Metabolic Health and Disease, do grupo Nature. 

Alterações hormonais, especialmente ligadas ao estrogênio, podem influenciar o desenvolvimento e a progressão do lipedema, doença que afeta principalmente mulheres e costuma surgir ou piorar em períodos como puberdade, gravidez e menopausa. É o que diz um estudo de autores brasileiros publicado na revista Metabolic Health and Disease, do grupo Nature. 

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O estudo aponta falta de conhecimento sobre a doença entre profissionais de saúde, reforçando a necessidade de mais conscientização e preparo para o diagnóstico precoce. Segundo os autores, apesar do primeiro relato do problema na literatura médica ser de 1940, o lipedema ainda enfrenta desafios no diagnóstico e no tratamento. 

A doença é caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura, principalmente no quadril, nas coxas e nas pernas, simétrico, bilateral e frequentemente é confundida com obesidade ou linfedema. Segundo o cirurgião vascular e especialista em lipedema Herik Oliveira, de Brasília, a pesquisa confirma dificuldades já observadas na prática clínica. "Muitas mulheres passam anos sem diagnóstico correto, porque o lipedema ainda é pouco conhecido. Isso atrasa o tratamento e impacta diretamente a qualidade de vida das pacientes", afirma.

Do ponto de vista genético, estudos citados na revisão sugerem que entre 30% e 89% das pacientes têm histórico familiar da doença, indicando forte componente hereditário. A condição é considerada poligênica e influenciada por fatores ambientais. "O lipedema não é escolha nem descuido. É uma doença com base hormonal e genética, que se manifesta predominantemente em mulheres e que não cede a dieta ou exercício convencional. Entender isso é fundamental tanto para o diagnóstico quanto para o acolhimento desses pacientes", destaca Herik Oliveira.

Cristais

O estudo detalha as alterações histológicas encontradas no tecido adiposo de pacientes com lipedema: hipertrofia de adipócitos, aumento da fibrose, infiltração de macrófagos, alterações vasculares como angiogênese e, em estágios avançados, depósito de cristais de cálcio nas células. Essas alterações ajudam a explicar os sintomas mais relatados pelas pacientes: dor, sensibilidade, hematomas espontâneos e inchaço que não respondem à elevação dos membros.

Para Herik Oliveira, compreender a biologia da doença muda a abordagem clínica. "Quando vemos que o tecido adiposo afetado pelo lipedema é estruturalmente diferente, com células hipertrofiadas, fibrose e fragilidade vascular, fica evidente por que os hematomas surgem sem trauma aparente e por que o tratamento precisa ser especializado. Não estamos falando de gordura comum, estamos falando de um tecido doente."

Desafio 

A revisão reforça que o diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico e se baseia em critérios estabelecidos desde 1951, como distribuição de gordura bilateral e simétrica nos membros, ausência de resposta ao emagrecimento, presença de dor, sensibilidade e hematomas espontâneos, e preservação dos pés, o chamado "cuff sign".

Entre os exames de imagem, o ultrassom vascular pode ser útil para diferenciar lipedema de linfedema, enquanto a ressonância magnética fornece informações sobre a distribuição de fluidos e o grau de fibrose no tecido subcutâneo. "O diagnóstico precoce é determinante para a qualidade de vida do paciente. Muitas mulheres passam anos sendo tratadas para obesidade ou linfedema, sem resultado, quando, na verdade, têm lipedema. Identificar corretamente a doença é o primeiro passo para um tratamento eficaz", afirma Herik Oliveira.

Tratamento

O estudo aponta que as estratégias terapêuticas disponíveis, incluindo dieta, perda de peso e Terapia Descongestiva Complexa, oferecem controle dos sintomas, mas não são curativas. A lipoaspiração específica para lipedema é considerada para casos graves em que os métodos conservadores falham.

Um dado relevante, trazido pela revisão, desafia um paradigma: imagens de absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA) mostraram que, após 12 meses de modificação intensiva de estilo de vida, com dieta e atividade física, uma paciente apresentou perda de 20,9kg de tecido gorduroso, incluindo redução significativa nas pernas, com melhora expressiva da dor e do inchaço. Isso, segundo os autores, desafia a visão de que todas as pacientes com lipedema são altamente resistentes à perda de gordura localizada.

"O tratamento do lipedema é multidisciplinar e precisa ser individualizado. Exercício físico orientado, alimentação anti-inflamatória, uso de meias ou calça de compressão, medicações antioxidantes e, em casos de sobrepeso e obesidade, medicamentos para perder peso são os pilares principais. Em casos avançados e selecionados, a cirurgia pode ajudar com tratamento clínico", conclui Herik Oliveira.

 

Abordagem moderna

Antônio Carlos de Souza
Antônio Carlos de Souza (foto: Arquivo Cedido)

"O manejo mais atual da pessoa que convive com lipedema deixou de ser focado apenas em emagrecimento ou em procedimentos isolados. Hoje, a abordagem moderna é multimodal, individualizada e multidisciplinar, combinando diagnóstico clínico adequado, controle de dor e edema, terapia compressiva, exercício físico orientado, estratégias nutricionais anti-inflamatórias, cuidado metabólico, saúde mental e, em casos selecionados, cirurgia redutora do tecido lipedêmico, especialmente lipoaspiração tumescente ou assistida por água. Consensos recentes reforçam que o tratamento conservador é a base inicial e que a cirurgia pode melhorar dor, mobilidade e qualidade de vida, mas não deve ser vendida como cura definitiva. Sempre o tratamento inicial deve ser não invasivo! Também há crescimento no uso de recursos complementares, como drenagem linfática, compressão pneumática, fisioterapia, fortalecimento muscular e programas estruturados de autocuidado. A grande mudança é reconhecer o lipedema como doença crônica inflamatória do tecido adiposo, com impacto vascular, linfático, metabólico, ortopédico e psicossocial."

ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA, diretor de publicações da sociedade brasileira de angiologia e cirurgia vascular

 

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postado em 20/06/2026 05:04
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