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"Corpos fora do padrão na tevê reeducam o público", avalia Giovanni Venturini

No ar em de "Dias perfeitos", série do Globoplay, Giovanni Venturini celebra papeis sem limitações estéticos e fala sobre quebra de estereótipos no audiovisual e perspectiva sobre um protagonista com nanismo. "Acredito que ainda falta bastante", lamenta

Giovanni Venturini, ator -  (crédito: Jennifer Glass)
Giovanni Venturini, ator - (crédito: Jennifer Glass)

Em meio ao clima opressivo de Dias perfeitos, série do Globoplay baseada no thriller de Raphael Montes, a pousada onde a trama se desenrola se torna mais do que um cenário: é um refúgio. E quem guia os hóspedes — e o público — por esse porto seguro é Miguel, interpretado por Giovanni Venturini. O ator de 33 anos, conhecido por trabalhos em Justiça 2, aceitou o desafio de dar vida a um personagem descrito como um "respiro" na narrativa intensa sobre obsessão e sequestro.

Para Venturini, Miguel é a encarnação da leveza e da esperança. "Ele traz leveza no jeito de ser, uma gentileza no modo de lidar com a vida", explica o ator. Amigo de longa data de Clarice (Julia Dalavia), a jovem sequestrada pelo obcecado Téo (Jaffar Bambirra), Miguel é a personificação do cuidado genuíno. O ator percebeu que seu personagem canaliza a ansiedade do espectador. "Recebi muitas mensagens de pessoas dizendo que torciam para que ele não sofresse nenhuma maldade do Téo e, ao mesmo tempo, para que fosse ele quem descobrisse tudo. Então, acho que o Miguel acaba refletindo essa vontade do público de ver as situações se resolverem logo."

Cocriação

Um dos aspectos mais valorizados por Venturini foi a oportunidade de colaborar com a equipe criativa — incluindo a diretora Joana Jabace e a roteirista Claudia Jouvin — para evitar que Miguel caísse em caricaturas. As sugestões do ator foram "muito pontuais", mas essenciais. "A ideia era apenas evitar qualquer risco de interpretação equivocada que pudesse colocar o Miguel em um lugar cômico, caricato ou estereotipado", detalha.

Os ajustes, muitas vezes sutis, como a escolha de uma palavra ou outra, visavam garantir que a característica física do personagem — o nanismo — não se tornasse sua única definição. "O importante era preservar a essência dele: um homem sério, dono de uma pousada, atencioso, carinhoso e humano. O fato de ele ter nanismo é apenas uma característica física, que em nada interfere na trama."

Essa abordagem é crucial para Venturini. Ele defende que a representatividade verdadeira surge quando personagens de grupos sub-representados são tratados como indivíduos complexos. "Um personagem com deficiência não precisa falar apenas sobre a deficiência, nem ter isso como sua principal característica dentro da trama. Ele é um ser humano como qualquer outro, com profundidades, falhas, virtudes e relações."

O ator enfatiza que essa mudança de perspectiva deve ocorrer em todas as etapas da produção. "Essa representatividade precisa acontecer não só nas telas, mas também atrás delas, nos roteiros, na direção e nas equipes de produção. É assim que esses personagens passam a ser escritos e interpretados de maneira digna." Para ele, o diálogo colaborativo é fundamental para a evolução da televisão brasileira, criando personagens "mais profundos, humanos e dignos" que, por sua vez, ajudam a "transformar o imaginário do público".

Protagonismo

Apesar dos avanços, Venturini é realista sobre os desafios que ainda existem. Questionado se vê a possibilidade de um personagem com nanismo protagonizar uma novela em um futuro próximo, sua resposta é franca: "Acredito que ainda falta bastante, infelizmente".

Ele reconhece que espaços vêm sendo abertos, mas o lugar de destaque ainda é raro. "Colocar um corpo fora dos padrões normativos em um lugar de protagonismo dentro de uma trama é também uma forma de reeducar o público e a sociedade. Ajuda a começar a nos enxergar como pessoas inteiras." Para o ator, a luta continua: "A gente existe em uma sociedade, tem nossas histórias e merece ser protagonista. Acho que ainda falta esse caminho, mas conseguimos abrir a discussão".

No cinema, porém, Giovanni protagonizou o curta Big Bang, de Carlos Segundo, onde recebeu o prêmio de melhor ator no 55º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2022. Mas, enquanto o protagonismo pleno não chega, Miguel em Dias perfeitos representa um passo significativo: um personagem cuja humanidade, e não sua condição física, é o centro de sua existência na trama. Um sopro de ar fresco narrativo que, nas mãos de Giovanni Venturini, também se torna um respiro de dignidade e representatividade autêntica.

 


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postado em 02/10/2025 08:00
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