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Exposição recupera mobiliário criado pelo designer Sérgio Rodrigues

Exposição recupera projeto do designer para mobiliário do Itamaraty e seminário discute a produção de Sergio Rodrigues

Cadeira Arcos, de Sergio Rodrigues -  (crédito: Divulgação)
Cadeira Arcos, de Sergio Rodrigues - (crédito: Divulgação)

Sergio Rodrigues assinou uma quantidade enorme de mobiliário nos prédios projetados por Oscar Niemeyer em Brasília, mas boa parte deles, com o passar dos anos, se perdeu e foi substituído. Por isso a retomada do projeto da cadeira Arcos, que a galeria  Cerrado Cultural e o Instituto Sergio Rodrigues apresentam em uma exposição, é uma inspiração para que o trabalho de um dos mais brasileiros dos designers seja recuperado na capital. Além da exposição, houve também o seminário Design, Cultura e Diplomacia: uma homenagem a Sergio Rodrigues, que reuniu especialistas da Universidade de Brasília, do Itamaraty e do Instituto para discutir a importância da passagem do designer pelo Itamaraty, e uma exposição na Embaixada do Brasil em Roma, que será inaugurada dia 19 de novembro.

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A poltrona Arcos foi criada em 1968 junto com um projeto de Rodrigues para mobiliar o que, na época, era chamado de Palácio dos Arcos. "A cadeira é a última peça que ele desenhou para o Itamaraty, é a conclusão de um trabalho que começa em 1958 e vai até 1969, quando se inaugura o palácio em Brasília", explica o curador Afonso Luz, do Instituto Sergio Rodrigues. O Palácio do Itamaraty demorou muito tempo para ficar pronto  e é considerado a obra mais contemporânea do conjunto arquitetônico da Esplanada. "É quase brutalista, difere das outras obras que o Niemeyer planejou para a Esplanada. É uma obra completa. E as cadeiras do Sergio Rodrigues são como um ícone que ele cria, um logotipo para a diplomacia", diz Luz. 

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Ao longo dos anos, a parceria com Niemeyer se estendeu por diversos projetos e o traço do designer esteve presente em alguns espaços icônicos da cidade. Rodrigues projetou móveis para a Universidade de Brasília (UnB), sendo as cadeiras do Auditório Dois Candangos um ponto de partida encomendado por Darcy Ribeiro. A mão do designer também esteve nas poltronas do Cine Brasília, substituídas na última reforma e ainda alvo de polêmica, já que restariam alguns exemplares guardados em depósito. 

Mas a relação de Rodrigues com o mobiliário brasileiro e a arquitetura começa bem antes da experiência em Brasília. Inspirado pelo modernismo e pelos materiais brasileiros, especialmente a madeira, o designer e arquiteto criou, nos anos 1950, uma série de móveis nascidos da observação das culturas que formam o Brasil. 

Adquirido pelo governo brasileiro em 1960 para receber a Embaixada do Brasil em Roma, o Palazzo Pamphilj é um exemplo clássico da arquitetura barroca. Construído no século 17 para uma família da nobreza e localizado na mítica Pizza Navona, o prédio passou por um restauro que envolveu a preservação, mas também a incorporação da modernidade, uma ideia levada adiante pelo embaixador Hugo Gouthier de Oliveira Gondim e pelo arquiteto Olavo Redig de Campos. 

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Sergio Rodrigues foi então convidado para dar forma ao mobiliário da embaixada. "Ele foi convidado para, nas áreas onde havia perdido referências do interior, para radicalizar um projeto moderno, com um espaço contemporâneo ocupando o prédio antigo", conta Luz. "Era um conceito muito ousado na época. Imagina um palácio barroco com peças contemporâneas. Mas era a afirmação do modernismo brasileiro no campo internacional. Essa experiência começa em Roma e vai depois ser sedimentada em Brasília, num momento já com uma ditadura militar que se instaura". Além da exposição em Brasília, a embaixada em Roma também vai receber uma mostra que reúne peças, como o  Conjunto Navona (1960), a Cadeira Chancelaria (1960) e a Mesa Vitrine (1965), além da Poltrona Arcos. 

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No Itamaraty, Rodrigues levou adiante uma estratégia parecida com o trabalho no Palazzo Pamphilj. "Ele foi uma espécie de catalisador no Palácio do Itamaraty, ele quis trazer a história do design brasileiro no mobiliário, então tem peças desde o período colonial, que estavam no Itamaraty no Rio e migram para Brasília. E, pela primeira vez, o design ganhou um contorno de design corporativo. Diferentemente da casa da gente, em que o design serve para o conforto, é um mobiliário feito para uso constante, trabalho. Sérgio antecipa isso nos anos 1960 criando uma linguagem especializada para essa repartição pública, esse status de trabalho que é a diplomacia. Isso é um acontecimento de vanguarda no Brasil", garante o curador.

Para completar a exposição, o Instituto Sergio Rodrigues organizou o seminário Design, Cultura e Diplomacia: uma homenagem a Sergio Rodrigues, que reuniu pesquisadores, designers e diplomatas em torno de discussão pensada para refletir sobre o papel da cultura material na política externa brasileira e o lugar do design na construção da imagem do Brasil. "Hoje, tendo passado por uma ditadura militar, com o Brasil fechado numa cultura menos sofisticada, a urbanização retroagindo, a degradação urbana, a qualidade de vida cada vez mais tensa e difícil, a gente perdeu de vista o que era esse ápice da cultura brasileira nos anos 1960", lamenta Luz. "Talvez a gente lembre mais pela música e menos pelo design, porque  saiu de linha em determinado momento, as pessoas achavam feio, queriam coisas de plástico, de acrílico. E hoje esse mobiliário está sendo recuperado como um clássico."

Durante a visita a Brasília, os representantes do instituto programaram uma reunião com responsáveis pelo patrimônio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec), que já apresentou projeto ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Distrito Federal (Condepac-DF) para troca das cadeiras do Cine Brasília. Mas ainda não há nenhum indicativo de que essa troca traga de volta o projeto de Sergio Rodrigues. "Não há nada nesse sentido. Foi apresentado um projeto ao Condepac para troca das cadeiras do Cine Brasília por outras cadeiras, melhores, mais confortáveis", avisa Felipe Ramon Rodríguez, subsecretário do Patrimônio Cultural do DF. 

Presidente do Instituto Sergio Rodrigues, Fernando Mendes conta que muita coisa feita pelo designer para Brasília se perdeu, mas ainda é possível recuperar vários projetos. "Muita coisa ainda a gente encontra, estão nos palácios. Em Roma, praticamente tudo que foi feito está lá, em uso. Sergio começou a carreira em 1955, fundando a Oca (fábrica de mobiliário), e pouco tempo depois, com a construção Brasília, ele já estava sendo solicitado para criar esse imobiliário institucional para as instalações do governo", lembra. "O interessante da obra dele é que, logo de início, ele percebeu que o Brasil carecia de uma identidade cultural na criação de mobiliário. A arquitetura estava sendo reconhecida com algo importante no cenário internacional, na hora de fazer os interiores Sergio percebia essa defasagem. Não tinha uma arquitetura de interior que acompanhasse essa identidade." 

Mendes aponta que uma das marcas do designer foi perceber que era necessário criar um mobiliário que expressasse uma  cultura brasileira, num contexto de modernidade. "O Sérgio era muito hábil em entender que projeto atende a que necessidade, para ele, não era só uma questão do objeto, mas do contexto em que o móvel seria utilizado. Assim como sabia projetar para uma casa de campo ou para uma residência, também pensava no que seria adequado para equipar um palácio", garante Mendes. 

» Programação

Lançamento - Reedição da Poltrona Arcos

Visitação até 10 de novembro, na Cerrado Cultural (SHIS QI 5, Chácara 10, Lago Sul)

Sergio Rodrigues -Uma experiência italiana / Una esperienza italiana

Exposição de mobiliário. Abertura dia 19 de novembro, na Embaixada do Brasil em Roma,  Palazzo Pamphilj (Piazza Navona, Roma). Visitação
até 19 de janeiro

 

  • Designer Sergio Rodrigues
    Designer Sergio Rodrigues Foto: Luciana Whitaker
  • Cadeira Arcos, de Sergio Rodrigues
    Cadeira Arcos, de Sergio Rodrigues Foto: Divulgação
  • Sergio Rodrigues 
em viagem a Roma para mobiliar a Embaixada do Brasil
    Sergio Rodrigues em viagem a Roma para mobiliar a Embaixada do Brasil Foto: Divulgação
  • Credito: Reproducao. Sergio Rodrigues, desing.
    Credito: Reproducao. Sergio Rodrigues, desing. Foto: Reprodução
  •  Crédito: Reprodução. Sergio Rodrigues
    Crédito: Reprodução. Sergio Rodrigues Foto: Reprodução
  • Designer inventou um mobiliário moderno 
brasileiro
    Designer inventou um mobiliário moderno brasileiro Foto: Fotos: Reprodução. Sergio Rodrigues, desing
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postado em 08/11/2025 00:01 / atualizado em 11/11/2025 11:36
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