
Os recém-feitos 56 anos caem bem para a produtiva e antenada atriz e cineasta Julie Delpy, que, há mais de 40 anos, começou bem no cinema: dirigida por ninguém menos do que Godard. "Hoje, a maioria das pessoas nem se importa e muito menos se confundem por este trabalho inicial com Godard", esclarece. Na trilha de quem seguiu na alta cúpula do cinema, com colaborações para Volker Schlöndorff (o mesmo de O Tambor) e Bertrand Tavernier, e renovou o repertório com artistas cômicos como Chris Rock (vide Dois dias em Nova York), Julie Delpy tem sido agraciada com muitos prêmios como o importante Dragon (da Suécia, no status de estrela honorária). No país escandinavo apresentou o mais recente filme que dirigiu (Vizinhos bárbaros), em cartaz em Brasília, e que trata de xenofobia.
Ao Correio, em entrevista exclusiva, ela sublinha: "Estou fazendo principalmente filmes independentes. Ocasionalmente, faço coisas comerciais, mas acho que me sinto atraída por projetos mais pessoais, mesmo que possa ser uma verdadeira luta". De luta, em uma arena de vaidades que nutre o cinema, Julie entende, sem nunca baixar a guarda, como confirma ao falar do acúmulo de experiências de vida. "Infelizmente, há poucas pessoas em quem você pode confiar, poucas pessoas que estão realmente do seu lado, então você tem que continuar e ignorar todos os obstáculos", observa.
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A perenidade do trabalho, vez por outra, surpreende Julie Delpy, ávida espectadora de fitas góticas, como o recente Frankenstein. A porção diretora acha até espaço para se gabar, anos depois da investida no terror A Condessa, que dirigiu e estrelou. "Eu realmente adorei Frankenstein, e conheço Guillermo Del Toro (o realizador mexicano) um pouco. É engraçado, porque ele disse que há uma referência ao A condessa em Frankenstein. Não tenho certeza qual seja", comenta. Duas vezes indicada ao Oscar (na companhia de outros colegas), por Antes do pôr do sol (2004) e Antes da meia-noite (2014), continuações de Antes do amanhecer (1995), Julie Delpy não se deslumbra com honrarias. Mesmo assim, a versada espectadora não deixa de exaltar a qualidade e o entusiasmo quanto ao nacional O agente secreto, na rota de premiações.
Entrevista // Julie Delpy, atriz e diretora
Você, além de atriz, tem sólida carreira de diretora. Tendo trabalhado com diretores geniais, qual mais te inspirou?
Eu diria que Kieslowski foi o mais influente para mim, mesmo que meus filmes sejam tão diferentes, mas acho que buscar a verdade foi o que realmente me inspirou. Claro, adoro Jim Jarmusch e amo seus filmes, mas trabalhei com ele por um período muito curto e seu cinema sempre foi algo que amei, mas eu diria que é muito diferente do meu cinema. Acho que é muito mais poético. Quanto a Richard, nosso trabalho envolvia tanto Ethan e eu que não consigo realmente identificar seu estilo, pelo menos não quando estávamos trabalhando juntos. Eu diria que Kieslowski foi quem realmente me deu mais conselhos. Ele tinha um enorme respeito por cineastas mulheres.
Uma sagitariana num set, tendo que lidar com prazos e organização?! Como é isso para você?
Eu realmente não sei muito sobre signos, mas os sagitarianos não são otimistas?! (algo que não sou), e líderes natos?! (o que eu também não sou). (Risos) Acho que diria que sou muito boa em liderar de uma forma agradável para todos. Acredito que a gentileza é muito importante, especialmente em comédias. Em Vizinhos bárbaros, trabalhei com atores, três dos seis eram refugiados sírios de verdade, e mesmo sendo atores, então para mim era essencial ser muito gentil. É muito fácil se tornar um egocêntrico neste ramo, e isso é algo que eu realmente não quero ser nunca.
Em Vizinhos bárbaros você conduz um filme sobre imigração e aceitação. O que trouxe motivação?
Para criar este filme, fizemos uma pesquisa enorme. Basicamente, o filme é baseado em todas as entrevistas que meus co-roteiristas fizeram com refugiados sírios, organizações de refugiados ucranianos, entidades de acolhimento de refugiados, etc. Mesmo sendo uma comédia, tivemos que ancorá-la na realidade.
Como nota o envolvimento e as nuances de atores francamente reconhecidos e estreantes?
Foi muito divertido ver pessoas de perspectivas tão diferentes trabalhando juntas, de uma forma que o set refletia a realidade. Lembro-me de alguns atores que interpretavam os sírios estarem nervosos com a possibilidade de haver algumas pessoas na aldeia, como as do filme. As pessoas da aldeia eram, na verdade, bastante simpáticas, mas existem muitas histórias de pessoas que foram racistas com refugiados. Quanto a Sandrine e Laurent, fiquei surpresa por terem aceitado participar do filme e por quererem fazê-lo imediatamente. Isso me fez perceber a humanidade deles. Acho que eles se comoveram com a história e realmente queriam participar, e deram o seu melhor.
Você teve duas indicações ao Oscar, por roteiros. Como isso refletiu na carreira, e como vê o cenário de o Brasil, com O agente secreto, se aproximar de premiações?
Para mim, O agente secreto é definitivamente um dos meus filmes favoritos deste ano. Todos esses prêmios (Oscar, Globo de Ouro e afins) podem ser complicados porque parece que você está no topo do mundo, mas na verdade não está. É tudo ilusão, mas é divertido. Para algumas pessoas que conheço, é a coisa mais importante de suas vidas, de certa forma. É a única coisa que importa, é a única coisa pela qual trabalham. Então, acho que somos todos muito diferentes. Alguns atores que conheço querem tanto os prêmios que me surpreende que ainda não tenham matado seus concorrentes (risos).
Destacaria a atuação de Wagner Moura (que venceu prêmio de ator em Cannes) para um Oscar?
Acho Wagner incrível. Ele oferece uma atuação incrível e cheia de nuances no filme. Mas você sabe como funciona com esses prêmios: as pessoas decidem não com base na qualidade da atuação, mas às vezes simplesmente por causa de quem tem a melhor assessoria de relações públicas.

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