
Após 18 anos de trajetória sólida nos palcos, a atriz paulistana Glaura Lacerda vive um momento emblemático da carreira ao estrear na televisão em uma novela das 21h. Em Três Graças, trama das 21h da TV Globo, ela interpreta Gisleyne, a cozinheira da mansão de Arminda, vilã vivida por Grazi Massafera, e leva para a telinha uma bagagem artística construída com rigor, sensibilidade e muito humor.
A chegada à televisão, segundo Glaura, tem um sabor de sonho realizado. “É poder realizar o sonho daquela criança que assistia novela com a família reunida no sofá da sala e que decidiu se tornar atriz a partir das histórias que via na televisão durante a década de 80/90”, conta. Um sonho que, como ela faz questão de frisar, não veio por acaso. “Esse sonho só se tornaria possível após muito investimento em estudos, descobrimento e lapidação de talento, assim como vários quilômetros rodados de trabalho. Foi dessa forma que a minha sorte aumentou.”
A oportunidade surgiu em um momento fértil de sua carreira teatral. Integrante do grupo de improviso Três é Demais e em cartaz simultaneamente com dois espetáculos em São Paulo — A banheira, há 10 anos em cartaz, e A vida começa aos sessenta, de Aguinaldo Silva, com adaptação de Virgílio Silva —, Glaura foi chamada para os testes da novela. O processo teve duas etapas online e uma presencial. A notícia da aprovação veio de forma tão intensa quanto simbólica. “Quando o produtor de elenco Guilherme Gobbi me ligou, eu estava no intervalo de uma apresentação de improviso. Não pude conter as lágrimas, mas consegui me recompor e concluir meu trabalho. Horas depois, subi no palco com outra peça ainda muito emocionada. Foi lindo aquele dia”, relembra.
Sem caricatura
Em cena, Gisleyne é uma figura aparentemente simples, mas cheia de camadas. Descrita como “sem noção”, ela se envolve em fofocas e situações constrangedoras não por maldade, mas por afeto e desejo de pertencimento. A construção da personagem passa por uma inspiração profundamente íntima: a mãe da atriz, Denise. “Minha mãe me ensinou muito sobre generosidade, presença e cuidado com o outro, e esses valores atravessam a Gisleyne”, explica. “Ela também comete gafes sem querer ofender ninguém. Não é algo que se copie, mas que inspira a personagem a existir com verdade e espontaneidade.”
Para além da referência familiar, Glaura mergulhou em uma imersão prática ao trabalhar em uma cozinha comandada majoritariamente por mulheres, observando as dinâmicas de hierarquia, validação e silêncios impostos no ambiente profissional. “Essas observações ajudaram muito a construir a Gisleyne, especialmente na forma como ela se posiciona — ou deixa de se posicionar — diante da patroa e da família dela”, diz. “Ela reage como muitas pessoas reagem na vida real: tentando se adaptar e seguir em frente, mesmo em ambientes emocionalmente desgastantes.”
O cuidado em não transformar Gisleyne em caricatura é uma preocupação constante da atriz. Para ela, a comicidade nasce da verdade, não da intenção de fazer rir. “O humor não vem da intenção de ser engraçado. Ele nasce da forma verdadeira com que a personagem se coloca no mundo”, afirma. “As gafes existem, mas são atravessadas por um desejo genuíno de se conectar. Quando me conecto com esse lugar humano, o público reconhece alguém real ali.”
A transição do teatro para a televisão também exigiu ajustes técnicos e sensíveis. “No teatro, o corpo e a voz precisam alcançar uma plateia inteira; na televisão, a câmera capta o mínimo”, explica. Ainda assim, Glaura destaca o quanto seu repertório teatral, especialmente o improviso, tem sido essencial no set. “O improviso me ensinou a renunciar ao controle, a estar disponível para o outro e para o instante. Muitas vezes, é ele que permite que a cena aconteça de forma viva.”
Segmentos diversos
Essa escuta apurada e o olhar atento para o comportamento humano também foram moldados por uma trajetória que passou longe de ser linear. Antes de se dedicar integralmente às artes, Glaura cursou áreas como direito, economia e ciências contábeis, além de atuar por sete anos como auditora. Teve ainda uma série de trabalhos paralelos, de promotora de eventos a personagem de festa infantil. “Não venho de uma família abastada. Trabalhar fora do meio artístico foi uma necessidade concreta para sustentar minha formação”, afirma. “Hoje, vejo que tudo isso me deu repertório humano, escuta e versatilidade.”
Paralelamente à atuação, Glaura construiu uma respeitada carreira como professora. Desde 2018, ministra aulas de atuação e improviso na CASA de Artes, em São Paulo, e teve entre seus alunos jovens que hoje brilham na televisão. “Assistir aos alunos virando mestres e dividir trabalhos com eles é uma das minhas maiores realizações como ser humano”, diz, orgulhosa. “Vibro com cada conquista.”
Fruto dessa experiência pedagógica e de uma pós-graduação em neurociência e comportamento, nasceu o método E.L.A. — Engajamento Lúdico na Aprendizagem, que une arte, improviso e fundamentos neurocientíficos. Aplicado tanto em contextos artísticos quanto corporativos, o método propõe aprender pela experiência e pelo jogo. “Não é só fazer teatro. É usar uma ferramenta da arte para criar engajamento e resultado”, resume.
Com uma carreira marcada por consistência, estudo e entrega, Glaura Lacerda chega à televisão levando consigo não apenas a personagem Gisleyne, mas toda uma trajetória construída com coragem e sensibilidade. “Todos os meus caminhos não me desviaram da arte”, conclui. “Eles me tornaram mais potente e mais consciente do meu lugar nela.”

Diversão e Arte
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