
“O que vem depois do medo?”. Foi essa pergunta que a fotógrafa Ana Mendes buscou responder ao acompanhar quebradeiras de coco babaçu e assentadas do Maranhão ao longo de quase um ano. Após ameaças sofridas pela atuação como fotojornalista e cientista social no estado, Ana encontrou nessas mulheres a vida que pulsa em meio ao medo, e talvez até intensificada por ele. “Quem é pra ser já nasce”, uma obra em 24 retratos, estreia no sábado (17/1) na Associação Fotoativa, em Belém (PA), com fomento do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
O novo trabalho acompanha nove líderes comunitárias ameaçadas em razão da defesa do próprio território. Em meio a elas, uma décima figura surge como um elo que liga as participantes: um autorretrato da própria fotógrafa.
“Eu já admirava muito essas mulheres e passei a admirar elas muito mais depois que eu mesma sofri uma perseguição política por conta do meu trabalho e senti na pele a angústia, senti medo, senti pavor, senti tristeza”, relata. “Então, depois de ter enfrentado tudo isso, eu olhei para essas mulheres e pensei: como que elas fazem? Como que elas se curam desses processos tão violento? Como que elas tão sobrevivendo, vivendo?”
No primeiro momento, a ideia era aparecer no trabalho como um narrador participante nos relatos escritos. Os textos em primeira pessoa fazem parte da tese de doutorado da artista no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA) e devem ser publicados após a conclusão do trabalho.
Ana mudou de ideia quando se percebeu como personagem de uma das histórias que queria contar, na comunidade quilombola de Cocalinho. Na época, a comunidade vivia o luto pelo comunicador Leandro de Cocalinho, vítima de um acidente de moto considerado suspeito pela população.
“Meses antes, quando ele morreu, eu e outros amigos mandamos uma coroa de flores que está escrito ‘homenagem dos seus amigos comunicadores’”, conta. “Então, ali tem um espelho do meu pior pesadelo, do que poderia ter acontecido comigo, que é a morte física. Porque a nossa morte simbólica, é efetivada quando a gente é ameaçado, porque é isso, você vira uma pessoa com sequelas emocionais”.
Um recorte fundamental
A exposição retrata que, mesmo nas lutas pelo território, as ameaças são atravessadas por questões de gênero. “Corpo e território para essas mulheres de populações tradicionais, talvez não sejam duas coisas, mas uma única coisa”, pontua.
“É óbvio que os homens são muito ameaçados, mas eu percebo no meu trabalho de campo e na minha própria experiência pessoal que, quando as mulheres reclamam as ameaças, elas sofrem o machismo que tá na nossa sociedade”, reforça. “Com aquela pergunta que não deveria ser feita tipo: você tem certeza que você sofreu essa violência? Será que essa mulher não tá exagerando?”.
Para ela, esse trabalho não representa a morte, mas a vida e a luta pela sobrevivência dessas mulheres em um dos estados mais perigosos para ativistas do meio ambiente. O Maranhão é aparece em primeiro nos registros de violência no eixo terra no relatório Conflitos no Campo Brasil 2024.
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Trajetória
Criada em Porto Velho (RO), às margens do rio Madeira, a relação de Ana com a Amazônia é de longa data. “Meus pais resolveram sair para mostrar a barriga para os parentes e não deu tempo de eu chegar e nascer na cidade onde eles moravam, nasci no Rio Grande do Sul, de onde minha mãe é”, conta. Com apenas 20 dias de nascida, ela cruzou o país rumo a Rondônia, estado que considerada lar.
Ana, que é filha de jornalista, viveu em diversos estados pelo Brasil, e tem passagem pelo Distrito Federal.
A trajetória da fotógrafa está intimamente ao Correio. A primeira fotografia de Ana, um registro do Parque Nacional Grande Sertão Vereda, foi publicada no jornal na edição de 30 de abril de 2003, quando ela tinha apenas 18 anos. “Eu era criança ainda, e todos os dias minha mãe deixava o jornal todo escrito com anotações pra eu ler. Foi no Correio que aprendi a ler jornal e interpretar textos”, conta a artista.
O trabalho que começou como um sonho de menina ganhou projeções internacionais. As obras da fotógrafa integram o Biblioteca Nacional da França (BnF). Ana integra ainda a edição francesa do livro Appartenance (Pertencimento).

Diversão e Arte
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