
A infância é a fase de aprender, se divertir e entender como o mundo que nos cerca funciona. É com esse clima lúdico que o Sesi Lab recebe, até 22 de março, a Ocupação Palavra Cantada, uma imersão sensível e interativa na trajetória de um dos projetos mais importantes da música infantil brasileira. Realizada em parceria com o Itaú Cultural e o Ministério da Cultura, a mostra convida as famílias a entrarem, literalmente, na carreira de Sandra Peres e Paulo Tatit, onde cada cômodo guarda histórias embaladas por canções que atravessam gerações. Ao Correio, Paulo e Sandra falam sobre a trajetória do grupo, a comunicação com as crianças e a ocupação no Sesi Lab.
Entrevista // Sandra Peres e Paulo Tatit
O que é, afinal, a Ocupação Palavra Cantada e o que o público vai encontrar ao entrar nessa "casa"?
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Sandra Peres: A gente faz questão de chamar de ocupação, e não de exposição. Exposição, em geral, é um lugar onde você não pode tocar em nada, e aqui é o contrário. A criança pode mexer, participar, cantar, interagir. É uma casa viva. A ideia foi recriar esse espaço doméstico, porque o Palavra Cantada sempre esteve dentro da casa das pessoas, no quarto, na cozinha, no banho, na sala. Então, quando a criança entra nessa casa, ela passa pelos ambientes e encontra as músicas, os instrumentos, os figurinos, os vídeos, as histórias. Tudo foi pensado para provocar curiosidade, brincadeira e memória, sempre a partir do ponto de vista da criança.
Como nasceu essa ocupação e como foi o processo de criação junto do Itaú Cultural?
Paulo Tatit: A ocupação surgiu a partir de um convite do Itaú Cultural, em São Paulo. Foi um longo processo, levou mais de um ano para ser desenvolvido e envolveu mais de 50 pessoas. A gente fez várias imersões com a equipe, muitas conversas, entrevistas, encontros. Mostramos tudo o que tínhamos guardado: documentos, fotos, instrumentos, registros de shows, processos de criação. A equipe do Itaú usou isso tudo e transformou em experiência. Eles não fizeram algo ilustrativo, fizeram algo sensível, que traduz o espírito da Palavra Cantada. Para a gente, o resultado é absolutamente genial.
Revisitar esse acervo todo também foi um mergulho pessoal para vocês?
Sandra Peres: Foi muito. Muita coisa estava guardada em caixas, bem organizada, mas fora do nosso dia a dia. Quando começamos a abrir esses arquivos, apareceram fotos, figurinos, cartazes de shows, instrumentos, objetos que a gente não via há muitos anos. Às vezes a gente olhava e falava: 'Nossa, a gente fez isso'. Foi um reencontro com a nossa própria história, pedaço por pedaço. Ver isso agora organizado em uma casa, acessível às crianças, é muito bonito."
A ocupação dá destaque aos processos criativos. Isso é importante para vocês?
Paulo Tatit: É fundamental. A gente sempre teve muito cuidado com o processo, com o tempo da criação. A música não é descartável. Uma música, depois que existe, não desaparece. Então, a gente sempre trabalhou com os melhores músicos, os melhores arranjos, com muito investimento de tempo e pensamento. No álbum Cenas Infantis, por exemplo, foram mais de 150 horas de gravação. A ocupação mostra isso de forma muito concreta, desde instrumentos de cozinha usados na música Sopa até croquis e ideias que viraram canção."
E como foi o começo de vocês até chegar hoje a ter um Ocupação lotada?
Paulo Tatit: Quando a gente começou, percebeu uma falha muito clara na cultura infantil: praticamente não existiam canções de ninar. Tinha o Boi da Cara Preta, o Nana Nenê, alguma coisa regional, mas era muito pouco. A ideia inicial era simples: fazer um disco só de canções de ninar e depois voltar para o nosso trabalho habitual. Só que esse disco teve uma repercussão enorme, foi muito bem recebido pela imprensa, pelas famílias, pelos educadores. A partir daí, a gente entendeu que tinha um caminho ali."
Naquele momento, o mercado para música infantil praticamente não existia?
Sandra Peres: Não existia mesmo. Não tinha CD infantil nas lojas. Então, a gente criou os próprios caminhos. Vendia por correio, em livrarias, consultórios pediátricos, farmácias homeopáticas. Depois de uma entrevista em uma revista de grande circulação, vendemos 8 mil CDs por vale postal. Foi tudo muito artesanal, mas muito potente. O trabalho se espalhou assim, de mão em mão, de casa em casa."
E como é ver hoje a Palavra Cantada ser referência, não só em músicas infantis, mas também na pedagogia?
Paulo Tatit: A gente nunca senta para fazer uma música pensando em um professor usar ela na aula. A gente pensa na criança. Nos temas da infância: o medo, a comida, os bichos, as brincadeiras, as situações engraçadas do dia a dia. Isso é universal. O que aconteceu foi que os professores perceberam que essas músicas dialogavam com o cotidiano da sala de aula e passaram a usar. Hoje temos livros pedagógicos, mas isso veio depois. A origem sempre foi a canção."
Depois de mais de 30 anos, qual é o segredo para continuar o diálogo com novas gerações?
Paulo Tatit: O segredo é o respeito. Respeito pelo trabalho que a gente faz, pela profissão, pela criança, pela família. A gente sempre se pergunta: o que estamos entregando? Como isso vai impactar quem escuta? Isso cria uma base muito sólida. As famílias confiam no nosso trabalho porque sabem que ali existe cuidado, sensibilidade e qualidade musical. É isso que sustenta o Palavra Cantada até hoje."
E o que vocês esperam que crianças e adultos levem dessa ocupação?
Sandra Peres: Que eles se sintam em casa. Que cantem, brinquem, se emocionem, se lembrem da própria infância ou descubram a infância junto com as crianças. A missão do Palavra Cantada sempre foi fazer diferença na vida das crianças, ampliar o olhar delas para o mundo, despertar sentimentos, pensamentos e, principalmente, o brincar. Se a ocupação conseguir provocar isso, ela já cumpriu seu papel."
*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco

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