
Crítica // Living the land ★★★★
Algo mal-comparado, o que o cineasta americano George Stevens (do clássico Assim caminha a humanidade) fez pelo enredo de um rancho texano dos anos de 1920, próspero com a descoberta de poços de petróleo, é o que o chinês Meng Huo emplaca, em Living the land. Sai de campo a percepção de uma República Popular da China arcaica, e o espectador é convidado a testemunhar um painel memorialista do cineasta asiático, nascido em Henan, província do Vale do Rio Amarelo, em que progrediu o budismo e se deu o progresso da civilidade chinesa. Por sorte, a narrativa se concentra no lado sólido atido a valores positivos da vida agrária.
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A paisagem rural, irretocável, ganha a plasticidade da câmera do diretor de fotografia Daming Guo (no passado, concorrente ao Camerimage, relevante prêmio polonês que já consagrou as imagens de Cidade de Deus e Central do Brasil). Grosso modo, na produção, o tema dos caminhos para a mecanização de uma milenar área rural, se sobrepõe à encenação, no filme, merecidamente, destacado com o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim. Há uma grandiosidade no roteiro e nos caprichados frames, que fazem lembrar do recente Vermiglio — A noiva da montanha, de Maura Delpero.
Todos os moradores de um vilarejo, em enorme comunhão, têm por lema de sobrevivência a estrita conexão à terra. O plantio, a colheita, fases de casamento, festejos e celebração diferenciada da cultura de funerais atravessam a telona, enquanto o menino Chuang Xu (Wang Shang) tenta se entender; logo ele que carrega um sobrenome diferente do resto dos parentes, e cujos pais seguiram uma corrida para o ouro — rumo à área urbanizada.
Com amplo fundamento autoral (a unidade vem de Meng Huo responder pela edição e roteiro), se desdobra à frente do cinéfilo uma Bawangtai embalada pela memória do diretor de cinema que saúda o cotidiano na casa da bisavó, a implicação da direta política de controle governamental na vida das famílias e as expectativas laborais dos migrantes, que pretendem alcançar a cidade. Muito apoiada no cultivo do trigo, a paisagem deste filme (na maior parte encenado em mandarim) recobra a era do primoroso cinema de Yimou Zhang, criador de obras-primas como O sorgo vermelho (1988).
No mais, o jovem protagonista acompanha episódios como o da tia (com pesar silencioso), vista como uma noiva obrigada a um casamento, a vivência junto a um agrupado de normas rudes e comportamentos estúpidos (ou hostis) de pessoas que não gozam de muitos momentos de lazer. São ciclos que persistem na mente de Meng Huo, mas que chegam embebidos do prazer incondicional de um cotidiano em que as ligações familiares e o convívio com vizinhos alastravam laços inquebrantáveis de solidariedade e encanto.
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