
Para quem acompanha a dramaturgia brasileira e portuguesa, o rosto de Ricardo Burgos tem se tornado cada vez mais familiar, ainda que quase sempre associado a personagens de moral ambígua. Baiano de Salvador, o ator vive atualmente uma fase de ouro em sua carreira, interpretando dois antagonistas de peso: o jornalista Joaquim Botelho, o Botelhinho, no remake de Dona Beja (HBO Max), e o vilão carioca César "Cobra" na novela portuguesa Terra forte (TVI). Longe de se contentar com os estereótipos do "mau caráter", Burgos faz questão de convocar a humanidade de seus personagens, mesmo os mais sórdidos.
"Para mim, o primeiro passo é encontrar o que é mais importante para o personagem dentro da obra: as suas convicções, o que ele teme perder, o que ele deseja com urgência. Quando encontro isso, tento me relacionar com essas qualidades de forma pessoal", explica o artista de 33 anos. "É assim que eu consigo, como Ricardo, me colocar dentro dessas circunstâncias e viver aquilo da maneira mais verdadeira possível. A humanidade aparece justamente quando eu me permito ser vulnerável. Quando o que é essencial para o personagem vira algo pessoal para mim, ele deixa de ser 'vilão' e passa a ser alguém real", defende ele.
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Para Burgos, a construção desse realismo passa menos pela tentativa de justificar ações moralmente questionáveis e mais pela compreensão de suas raízes emocionais. "Na vida real, muita gente atravessa o mundo sem olhar de frente para as próprias sombras. Sem autocrítica, sem autoanálise, sem terapia", reflete. "Mas, como ator, eu sinto que eu preciso encontrar os motivos pelo qual ele faz o que faz. Não para 'justificar' o personagem, mas para torná-lo humano. Eu gosto de entender de onde vem aquela ação, qual é a necessidade por trás dela, o que está movendo tudo", argumenta.
Apesar da coincidência de interpretar dois vilões simultaneamente, Burgos esclarece que os papéis não foram vividos ao mesmo tempo. "Eu terminei de gravar 'Dona Beja' no começo de 2024 e, mais de um ano depois, fui para Portugal fazer a novela. Então, eu tive tempo de virar a página e até cheguei a fazer outro trabalho no meio do caminho", conta ele, que também deu vida ao delegado Muniz em Mania de você, na TV Globo. Ainda assim, admite que cada personagem deixa marcas: "Eu sinto que depois de cada personagem eu carrego um pouco do corpo dele na minha vida. Depois de passar tanto tempo repetindo aquilo, aquilo acaba ficando no corpo mesmo".
No caso específico de Botelhinho, a preparação exigiu uma pesquisa histórica minuciosa. O personagem é um jornalista no início do século XIX, e Burgos mergulhou nos valores, na moral e na mentalidade da época. "Eu fui afunilando para o universo do personagem. Tentei entender como era o trabalho de um jornalista naquele período, como se produzia informação, como se escrevia, como se circulavam notícias. Inclusive, eu aprendi a escrever com pena e tinta, em papel de época, e trabalhei a caligrafia, o ângulo do papel, o tempo do gesto. Foi uma delícia."
Experiência internacional
Antes de se firmar em produções de grande visibilidade, Burgos passou por um período decisivo em Nova York, onde se formou na Playhouse West, escola baseada na técnica Meisner. Lá, participou de produções independentes, incluindo o filme The hill and the hole e o espetáculo Off-Broadway Inside the wild heart — trabalho que lhe rendeu indicação ao Brazilian Press Awards como Melhor Ator. "A Playhouse West foi um divisor de águas na minha vida. Eu tive professores geniais ali, que exigiam muito da gente, e foi um lugar onde eu realmente floresci como artista", recorda. "Mas acho que a maior mudança foi entender, na prática, o poder de uma comunidade artística. Estar naquele circuito independente, ver a quantidade de gente produzindo, se ajudando, fazendo curta, peça pequena, projeto autoral, e crescendo junto, foi muito marcante. A gente vivia isso de verdade."
Essa mentalidade se reflete também em seus projetos autorais. Em 2023, estreou o espetáculo autobiográfico Três meses e três dias, e mantém o podcast Perspectiva, no qual entrevista artistas sobre processo criativo. "Eu sou um defensor ferrenho de que o ator precisa arregaçar as mangas e se produzir, criar os próprios caminhos, gerar oportunidade para si mesmo", conta.
"Já o podcast nasce da minha curiosidade como artista, de querer entender as especificidades do processo dos meus colegas, aprender com eles, e manter vivo esse diálogo sobre criação. No fundo, tudo isso alimenta o meu trabalho como intérprete", finaliza Burgos.

Diversão e Arte
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