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Conheça Maciel Silva, um artista que rouba a cena em trabalhos múltiplos

Ator pernambucano Maciel Silva, que antiquário Feliciano na novela das 21h da Globo, "Três Graças", celebra trajetória artística que vai das raízes no agreste ao horário nobre da televisão brasileira, onde reencontra Aguinaldo Silva, seu ídolo da infância

Maciel Silva, ator e escritor -  (crédito: Letícia Ribeiro)
Maciel Silva, ator e escritor - (crédito: Letícia Ribeiro)

Há exatos 35 anos, um menino sentado na porta de um vizinho ranzinza na pequena Vila de São Lázaro, em Panelas, no agreste pernambucano, assistia pela metade aos capítulos de Pedra sobre pedra e tinha um sonho considerado impossível: ser ator de televisão. Hoje, Maciel Silva realiza uma volta por cima digna de roteiro: não apenas tornou-se ator profissional como, agora, integra o elenco de Três Graças, a novela das 21h da Globo, assinada pelo mesmo autor que o inspirou na infância, Aguinaldo Silva.

Na trama que gira em torno da busca por uma escultura misteriosa que dá nome à novela, Maciel vive o antiquário Feliciano, um golpista sofisticado com carisma ambíguo. "Foi tudo muito rápido", conta o ator à coluna, ainda processando a estreia. "Soube que faria o personagem e logo fui convidado para estar na Globo. Na caracterização, teve até o envolvimento do diretor artístico Luiz Henrique Rios, que ligou para o Aguinaldo para saber se eu ficava careca ou usava peruca. Achei bem carinhoso da parte deles. Fiz até teste com peruca — torci para ser careca — e daí, com o aval do Aguinaldo, definiram careca. Eu amei", revela.

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Feliciano poderia ser mais um vilão caricato no folhetim das nove, mas os autores Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva tinham planos mais ambiciosos para o antiquário. O personagem integra o núcleo de personagens envolvidos na disputa pela escultura Três Graças, e sua arma mais poderosa não está na força física ou em planos mirabolantes, mas na lábia afiada e no conhecimento enciclopédico sobre objetos e memórias.

"Sabemos que o bom golpista não se apresenta como golpista — ele se apresenta como alguém encantador, culto, quase sedutor", explica Maciel, reproduzindo as palavras dos autores quando recebeu o convite. "No caso do Feliciano, o antiquário é um homem que conhece histórias, objetos, memórias. E ele sabe conversar, sabe ouvir, e usa isso como ferramenta. O carisma dele vem desse olhar atento para as fragilidades das pessoas. Ele não rouba apenas coisas, ele rouba confiança", define.

Essa abordagem mais sutil da vilania foi uma orientação clara desde o início. "Houve uma preocupação de não fazer um golpista caricatural", revela o ator. "A direção sempre reforçou que o Feliciano deveria ter elegância e inteligência. Ele não é espalhafatoso, ele é estratégico. Muitas vezes, a atuação pede menos exagero — por mais que eu quisesse exagerar, amo o tom teatral na tevê, mas enfim, não pode. É mais silêncio. Um olhar, uma pausa, uma frase bem colocada dizem muito", conclui.

  • Maciel Silva com a turma da Chacrinha em
    Maciel Silva com a turma da Chacrinha em "Três Graças" Divulgação
  • Maciel Silva com Miguel Falabella e Samuel de Assis em
    Maciel Silva com Miguel Falabella e Samuel de Assis em "Três Graças" Divulgação

A versatilidade de um contador de histórias

A estreia no horário nobre da Globo é apenas o capítulo mais recente na trajetória multifacetada de Maciel Silva. O ator já havia passado pela faixa das 19h, participado de produções no Canal Brasil como Notícias Populares e integrado o elenco do sucesso do streaming Beleza fatal, consolidando um currículo que transita entre diferentes formatos e linguagens.

"Quanto à novela das 21h, existe uma expectativa do público, da crítica e da própria emissora. O desafio técnico é acompanhar o ritmo muito intenso de gravações mantendo a verdade do personagem, mesmo eu tendo feito uma participação. Já emocionalmente, o desafio é não se perder na dimensão do projeto. Eu procuro fazer o que sempre fiz no teatro: contar uma história com verdade. No fundo, a câmera só está mais perto", reconhece Maciel.

Essa verdade a que o ator se refere tem raízes profundas em sua formação pernambucana e em seus estudos de História, curso que concluiu antes de se dedicar integralmente à carreira artística. "Influenciam profundamente", afirma sobre suas origens. "Eu venho de uma cidade pequena do agreste pernambucano, Panelas, e cresci ouvindo histórias. O Nordeste tem uma tradição oral muito forte, cheia de personagens curiosos, figuras contraditórias. Isso me ajuda a construir personagens com humanidade. Já a História me ensinou que ninguém é completamente herói ou vilão", afirma.

O teatro como alma e a televisão como vitrine

Paralelamente à carreira na televisão, Maciel mantém há mais de 20 anos o Grupo Botija, coletivo teatral que fundou e que segue ativo até hoje. Equilibrar a rotina intensa das gravações com a produção cultural independente é, em suas palavras, "uma loucura".

"Minha agenda é pirada, mesmo eu não sendo famoso (risos). Eu escrevo, produzo, capto recursos com as Leis de Incentivo, dou aulas de teatro, escrevo e atuo em peças, treinamentos para empresas. Uffa! Há vida fora da TV", enumera. "Neste momento, estou dirigindo um espetáculo do Sabetai Calderoni, O Professor Água x O Rei das Águas, que envolve ópera, teatro, balé e uma orquestra com a regência do maestro Ricardo Calderoni. Uma loucura!", pontua.

Para o ator, o teatro funciona como um antídoto necessário à exposição da televisão: "O Grupo Botija é parte da minha identidade artística. Foi ali que eu aprendi a criar, produzir, errar e tentar de novo. A televisão exige muito tempo e dedicação, mas o teatro me mantém com os pés no chão. Sempre que posso, volto para os projetos do grupo, porque ali existe liberdade criativa. Eu diria que a televisão amplia a visibilidade, mas o teatro alimenta a alma".

Essa alimentação da alma encontra sua forma mais radical nos monólogos, formato que Maciel domina com propriedade em obras premiadas como O Palhacinho Triste e Eu, Estatística. "O monólogo é um mergulho radical no ator. Não tem para onde correr: é você, o público e a história. Existe uma vulnerabilidade muito grande ali. No teatro, especialmente no monólogo, cada respiração do público influencia a cena. Na televisão, o trabalho é coletivo, fragmentado, técnico. No monólogo é quase uma confissão artística", argumenta o artista.

Com mais de 10 textos produzidos e o livro Os carcarás no currículo, Maciel Silva também se aventura na escrita dramatúrgica, o que lhe confere um olhar diferenciado sobre os roteiros que recebe na televisão.

"Eu costumo brincar que sou um artista contador de histórias que às vezes escreve e às vezes interpreta", define. "Escrever nasceu da necessidade de contar histórias que eu não via sendo contadas e de falar das minhas raízes. Então talvez eu seja um ator que escreve para continuar atuando em histórias que acredita", avisa.

Essa dupla função, no entanto, não o torna mais crítico em relação ao trabalho alheio, mas sim mais respeitoso: "Quando você escreve, entende o quanto cada linha de diálogo foi pensada. Então procuro entrar no universo do autor e servir à história. Claro que o ator sempre busca nuances, mas sem perder a essência do texto".

Maciel Silva com a amiga e parceira de cena Viviane Araújo
Maciel Silva com a amiga e parceira de cena Viviane Araújo (foto: Divulgação)

Parceria de sucesso com Viviane Araújo

Fora das novelas, Maciel mantém uma parceria de longa data com a atriz Viviane Araújo no espetáculo A Toda Poderosa, que desde 2019 percorre o Brasil e realiza turnês internacionais com críticas positivas. A química entre os dois em cena é algo que, segundo ele, vai além da técnica.

"Amo a Vivi desde sempre. Acho que o segredo é confiança e diversão. Nós nos respeitamos muito em cena e fora dela. A Viviane tem uma energia incrível no palco e uma generosidade enorme como parceira", elogia.

O espetáculo, que aborda a burocracia no Brasil em formato de comédia, mantém-se atual justamente por essa capacidade de renovação: "Sempre falamos que vamos parar, mas sempre voltamos e nos divertimos muito. A peça aborda a burocracia no Brasil em forma de teatro e sempre se atualiza, sempre surge coisa nova".

Um sonho de infância

Ao final da conversa, Maciel Silva faz questão de voltar às origens. A imagem do menino que assistia televisão na calçada do vizinho, muitas vezes sendo expulso antes do final do capítulo, permanece viva em sua memória — e em sua atuação.

"Lembro de Que rei sou eu... assistir por partes na porta de um vizinho ranzinza, que desligava a tevê em nossas caras — eu e mais uma galera que estávamos na porta disputando uma vaga", recorda. "A vila continua em mim, nas histórias, no sotaque, na forma de ver o mundo. Estar no horário nobre da televisão brasileira é uma conquista muito grande, mas também é uma responsabilidade."

A emoção toma conta quando o ator fala da principal motivação para ter perseguido esse sonho. "É uma sensação muito forte, principalmente por minha mãe. Eu queria a tevê mais por ela do que por mim, uma pena que a perdi antes dela ver isso... Posso dizer que venci. E dedico sempre a minha mãe", finaliza.

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postado em 16/03/2026 17:48
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