
Após mais de uma década longe das telinhas, a atriz e humorista mineira Cida Mendes faz um retorno triunfal à televisão. Conhecida do grande público pela inesquecível personagem Concessa, a artista faz sua estreia em novelas, aos 60 anos. Ela está na produção das 19h da TV Globo, Coração acelerado, dando vida à tecelã Leocádia. Em entrevista, ela falou sobre esse novo capítulo de uma carreira consolidada no teatro e no humor, as diferenças entre sua icônica caipira e a nova personagem, e o significado do refúgio afetivo que construiu em Minas Gerais.
Para quem construiu uma carreira sólida ao longo de três décadas, estrear em uma novela das sete poderia soar como um território conhecido, mas Cida encara a experiência com a leveza de quem redescobre o ofício. “Uma coisa que me atrai na vida é este ‘olhar de primeira vez’. Como uma criança vê uma coisa pela primeira vez. Celebrar meus 60 anos dessa forma é, no mínimo, gratificante”, conta a atriz, que nasceu em Pará de Minas e construiu sua trajetória artística em Belo Horizonte antes de conquistar o país.
Ela atribui a chegada a esse novo patamar justamente à bagagem acumulada: “Os 30 anos de uma carreira consolidada no teatro e no humor provavelmente me levaram para este lugar. Há que estar aberto para fazer algo novo, onde podemos aprender outras formas de exercer nosso ofício. E é bem exercendo um ofício que me sinto ali, naquela indústria, com centenas de pessoas envolvidas no processo.” Cida celebrou ainda o acolhimento que recebeu: “Fui muito bem acolhida pelo elenco e pela audiência. Presentão da vida! Estou desembrulhando ainda”.
Concessa e Leocádia
A nova personagem, Leocádia, vive às margens do rio em Caturama e lida com o algodão e a tecelagem. Apesar do universo rural que remete à famosa Concessa, Cida garante que as duas são “o ponto mais distante” uma da outra. A atriz brinca que, no início, houve até um certo ciúme da parte da personagem mais famosa.
“Quando fiz a pesquisa para compor a Concessa, conversei com muitas mulheres e fui garimpando um pouco de cada... O olhar, o caminhar, o corpo, o ritmo e tal. Foi assim que a Concessa se tornou Concessa. Com muitas referências, de dentro e de fora. É um caminho sem volta! Daí começo a circular e reconheço ela na plateia. É bem circular mesmo. A coisa não para”, lembra.
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Para Leocádia, a pesquisa seguiu outro rumo: “E nas minhas andanças, encontrei muitas mulheres como a Leocádia também. Umas mal-humoradas engraçadas, o texto é mal-humorado, mas a forma de dizer traz a graça. Para compor a Leocádia, eu fui atrás desses registros”. E completa, aliviada: “Mas o ciúme já passou. Agora, eu fico é imaginando as duas tecendo... pano e prosa”.
A ligação com o artesanato e a vida simples, presentes tanto na trajetória de Concessa quanto no universo de Leocádia, foi um facilitador para a entrega à nova personagem. “Aí é um laço no presente! É o ponto de convergência. As duas tecem. O pano e a prosa. Quer vida mais simples que essa?”, reflete a atriz.
Ela também destaca o viés social da trama, que vai além da comédia. “Na novela, o ambiente natural do Caturama atrai as pessoas. Porque ali está o passado delas, mas também está o futuro. E o presente precisa de melhorar. Elas não conseguem viver da tecelagem e são exploradas na casa dos Amaral. Tem um mote social aí trabalhado com a leveza da comédia. E uma comédia escrita por duas mulheres”, defende.
Para Cida, esse papel social se estende à indústria audiovisual como um todo, que tem dado mais espaço aos talentos regionais. “Isso faz parte de um movimento maior que é o nosso olhar sobre o Brasil. Sobre quem somos, sobre nossas origens. Este olhar tá mostrando pra gente que somos uma trama de povos e que todos nós podemos e devemos ocupar nosso lugar neste ‘perfil de brasileiro’. O audiovisual está fazendo o papel que lhe cabe: dar voz e visibilidade para quem conta nossas histórias. Que bom que essa hora chegou!”, comemora a veterana que se vê debutando.
Parada obrigatória
Fora das telas, Cida mantém um espaço que se tornou um ponto de parada obrigatória para viajantes entre Brasília e o Sudeste: a Casa de Concessa, em Paracatu (MG). O local, que funciona com restaurante, café e loja, é uma extensão do afeto que a artista cultiva por suas raízes.
“Você já bem disse: um refúgio. E um refúgio coletivo!”, emociona-se ela, que está afastada do local durante as gravações da novela. “Nesse tempo de gravação, não estou lá, mas recebo diariamente mensagens de quem passa. O povo ama a Casa, e isso me deixa de certa forma desprendida dela. Consigo estar longe por isso. Porque sei que o refúgio não é só meu”, celebra a também empresária.
Cida faz questão de explicar a filosofia por trás do empreendimento, que mantém com a esposa, Consuelo, e é administrado por um jovem gerente, David. “Quando me perguntam se tenho um restaurante, eu gosto de acrescentar que, na verdade, a gente tem uma Casa que tem um restaurante, um café e uma loja. Porque as pessoas precisam comer. Mas como bem diz a música dos Titãs, a gente não quer só comida. A gente precisa do descanso, da pausa, do encontro com a arte e a natureza. E a Casa de Concessa entrega tudo isso", finaliza.
Ciclos realizados
Ao olhar para trás, desde os tempos em que inaugurou a Cantina Real, em 1993, um restaurante-teatro em Belo Horizonte, até o atual momento na TV Globo, Cida Mendes vê a realização de um ciclo sem a armadilha da projeção.
“Sim... de ciclo realizado. Sem projetar o sucesso”, afirma, relembrando uma lição do falecido ator Juca de Oliveira. “Esses dias da morte de Juca de Oliveira, assisti uma entrevista dele onde o assunto era sucesso. E ele dizia que o sucesso não é planejado. Se for, já é fracasso. Ele estava falando de teatro, mas isso vale pra vida também. A gente mergulha nas histórias e vamos fazendo... Com muito sonho e coragem. Sem perder a graça jamais!”, reflete.
Ela conclui a entrevista ponderando sobre o alcance que a visibilidade da novela pode trazer para as causas que sempre defendeu. “Seguindo a premissa de que o papel do artista é falar do seu tempo, considero demais esta possibilidade de alcançar um público maior, com um trabalho tão profissional! O convívio com as pessoas no set, as trocas com as companheiras de cena... é muito aprendizado pra quem estava se achando com a carreira consolidada. Espero que abra caminhos pra gente falar da nossa cultura e impulsione nosso propósito de levar graça e consciência para mais e mais pessoas”, finaliza.

Diversão e Arte
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