ENTRETENIMENTO

Filmes e séries são 'emburrecidos' no streaming? Especialistas opinam

Plataformas de streaming tem apostado em histórias "mastigadas" para fisgar aqueles que não largam o celular. Especialistas ponderam validade de método

Existe uma cena comum em muitas das salas equipadas com televisão: espectadores sentados no sofá decididos a trocar as telas de maior tamanho pelas menores. Os telefones celulares se tornaram preferência durante os momentos de entretenimento. São presenças assíduas nas mãos dos que escolheram dedicar um momento do dia ao relaxamento. Mesmo após a decisão por ligar a TV e selecionar um filme ou série para assistir, as milhões de informações compartilhadas nas redes sociais acabam como prioridade no celular.

A "luta" do celular contra a TV não é novidade. Há muito tempo telespectadores e especialistas vivem a expectativa sobre o próximo passo das empresas de cada plataforma para "tomar" a atenção das pessoas. A mais recente dessas ações parece ter vindo da gigante do streaming Netflix. Segundo o jornal britânico The Guardian, a empresa estaria determinada a “emburrecer” os roteiros das séries e filmes lançados na plataforma.

O Guardian afirmou ter conversado com ex-diretores e roteiristas da empresa. Os profissionais confessaram ter recebido “ordens de cima” para executar o planejamento. Esse “emburrecimento” é feito pelos próprios personagens das tramas: os contextos vividos por eles são constantemente repetidos e relembrados pelos próprios, ao longo da história, cerca de três ou quatro vezes. É, literalmente, uma recapitulação do que já ocorreu, feita de tempos em tempos.

Correio tentou contato com a Netflix para comentar a reportagem do jornal britânico, mas não obteve resposta. Em caso de retorno, esta matéria será atualizada. O espaço segue aberto para manifestações.

Aderir à nova moda foi unir útil ao agradável

De acordo com André Gouvêa de Paiva, psicanalista, professor, pesquisador e doutor na área de Psicologia Clínica e Cultura com tese desenvolvida sobre o tema de tecnologia e subjetivação, as plataformas de streaming, como a Netflix, se favorecem ao escolher simplificar as próprias histórias. Além de fazer com que as empresas possam economizar, torna-se possível, também, contemplar o novo padrão ao ceder às redes sociais e a força dos aparelhos móveis. Segundo o especialista, os telefones, capazes de entregar praticidade, são como extensões do corpo.

“Sabendo da capacidade de captura de atenção dos dispositivos, as plataformas de streaming resolveram aceitar essa condição, até porque as favorecem. O espectador menos atento é um espectador menos crítico. Dessa forma, essas grandes produtoras podem economizar, e muito, na produção de filmes e séries de qualidade. Assim, utilizam conteúdos mais simplificados, muitas vezes feitos com a ajuda de algoritmos e sem nenhum tipo de intenção artística ou criativa”, explicou.

Processo pode chegar ao usuário como forma de ofensa

Paiva, no entanto, faz uma ponderação: entregar conteúdos mastigados pode vir a se tornar numa ofensa para os telespectadores. Principalmente, para os interessados em consumir algo mais complexo e bem fundamentado. Na visão dele, produções do tipo não oferecem benefícios aos telespectadores.

“(Entregar algo mastigado) duvida da capacidade do espectador de acompanhar um conteúdo mais denso ou com estruturas narrativas mais complexas. Não consigo observar nenhum tipo de benefício vindo desse tipo de prática. O cenário se torna num ciclo vicioso: as plataformas dominam o mercado, impõem um formato simplificado e forçam aos consumidores, que já não têm tantas opções de entretenimento, a deixarem o senso crítico e capacidade de apreciação atrofiar”, avaliou.

Contudo, conforme explica o psicanalista, é importante ficar atento para a ideia de opção. Na avaliação do especialista, não são os usuários os responsáveis por forçar a plataforma a precarizar o próprio conteúdo. Na realidade, é o contrário: uma indústria trilionária, encarregada de buscar, sempre, a maior margem de lucro possível.

“Conhecemos a regra: o elo mais fraco, nesse caso o usuário, é o mais desfavorecido. Os algoritmos funcionam para aumentar o lucro às custas do assinante. A tendência do mercado de produzir esse tipo de conteúdo diz muito mais sobre eles do que sobre o espectador”, complementou.

Mesmo em evidência, "simplificação" é prática antiga

Apesar da evidência, a simplificação de roteiros durante as produções no meio do streaming não é nova. Muito menos completamente negativa. O cineasta Felipe Gontijo explica que a prática é feita pela indústria há anos. No entanto, foi a repetição a responsável por dar carga negativa à prática.

“Situar o espectador sobre o que já aconteceu e falar um pouco sobre o que está para acontecer, já é algo que acontece há muitos anos. Mas, antes, acontecia no máximo uma vez. Era algo comum, principalmente, depois de dois terços do filme. Se for feito de maneira sutil, o espectador nem percebe. Mas, quatro vezes, torna o conteúdo pobre”, explicou. Assim como o psicanalista André Gouveia de Paiva, o cineasta ressalta que o costume pode subestimar a inteligência do espectador.

“Coincidentemente, assisti a essa mais recente temporada de Stranger Things. É um tema em alta, justamente por reclamações do tipo, de defasagem do roteiro. E, claramente, dá para ver como está mastigada. Ela mostra uma boa produção, está bacana. Mas mostra esse padrão (de simplificação), explicitamente”, acrescentou.

Mercado é absoluto e os conteúdos nas redes não necessariamente "emburrecem"

Em contrapartida, Gontijo destaca a influência do mercado neste processo. De acordo com o especialista, são muitas as vezes em que nem mesmo os próprios diretores e roteiristas recebem liberdade o suficiente para ditar o ritmo criativo das produções. Em diversas ocasiões, são os “chefões” os responsáveis por determinar o que deve e não deve ser feito.

“Às vezes são coisas que vão estar nos contratos dos profissionais. Eles assinam pois podem estar precisando de dinheiro, às vezes, ou por acharem que fazer aquele trabalho vai abrir portas. Muitos só descobrem as limitações e as escolhas horríveis, como cortes de cenas importantes, na hora de produzir”, contextualiza.

Gontijo argumenta que grande parte das críticas ao modelo surgem em decorrência da repetição de uma fórmula: o sofrimento do herói em um determinado momento; a entrada do alívio cômico em seguida e as ausências de determinadas surpresas durante o enredo. Segundo o cineasta, o cinema intermediário, inteligente e mais acessível, comum nos anos 1990 e 2000, se perdeu.

“Isso afeta até os clássicos, assim como os remakes. Onde fica a arte e a surpresa? Sinto que o meio termo se perdeu. Ou o filme é um blockbuster mastigado de super-herói ou é um filme de arte super obscuro. Vira uma linha de montagem”, argumentou.

Rede social não é sinônimo de simplificação

Felipe ainda salienta a importância de diferenciar outras formas de conteúdo com essas simplificações. Conforme o cineasta, o potencial "emburrecimento" existente em diferentes tipos de filmes e séries não se aplica necessariamente a outros conteúdos de natureza curta, apenas por serem propagados nas redes sociais. Exemplos são novelas breves, de oito capítulos, e outras produções compartilhadas verticalmente, como são chamadas nas redes.

“Esses outros conteúdos não são, necessariamente, fruto do ritmo acelerado das redes sociais, e da padronização de conteúdos mais breves. O formato, da mesma forma, pode entregar grandes histórias. Trata-se apenas de uma nova maneira de produzir, ainda não tão explorada. O tempo dirá. É uma nova forma de comunicar”, explicou.

Tendência de aumento e lado democrático

Cineasta, ex-professora de roteiros da Universidade de Brasília (UnB) e especializada na produção de documentários, Dácia Ibiapina acredita que reverter a força de produções "mastigadas" será de “extrema dificuldade”, ao mesmo tempo em que foi mais uma a apontar a existência da necessidade de “ampliar o consumo para atender às necessidades financeiras”. Entretanto, ressalta que sempre haverá aqueles interessados em fomentar formas mais densas de cinema.

“Acredito que não exista uma receita. As empresas ainda querem lucro, ainda querem gerar dinheiro, e continuarão querendo. Mas basta, por exemplo, olhar para o sucesso que faz O agente secreto neste ano, e o que fez Ainda estou aqui. As pessoas ainda querem produções mais complexas”, salientou.

Dácia, em contrapartida, destaca a importância de entender o papel da democratização, independentemente da preferência do público por conteúdos mais ou menos simplificados.

De acordo com ela, produções mais simples contemplam fatias da sociedade que até têm em mãos contextos financeiros para arcar com os custos mensais dos streamings, mas que não têm educação suficiente para consumir os produtos. Da mesma forma, muitas séries e filmes, mesmo que simples, são oportunidades de ouro para diretores e roteiristas para mostrar os respectivos trabalhos. “Todos têm vontades. Não dá para ver apenas um lado da moeda”, destacou.

 

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