Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os países Aliados (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética) se uniram para julgar oficiais nazistas pelos crimes cometidos durante o Holocausto. Entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946, a cidade de Nuremberg, na Alemanha, foi sede do que viria a ser historicamente conhecido como Julgamentos de Nuremberg.
Além de serem os primeiros tribunais internacionais para processar oficiais por crimes de guerra, os Julgamentos de Nuremberg foram marcados por outra invenção: a da profissão de intérprete simultâneo. Até aquele momento, existia apenas a interpretação consecutiva, ou seja, o orador fazia pausas para dar espaço ao intérprete. Nos julgamentos, porém, havia necessidade de interpretação em quatro línguas (alemão, inglês, francês e russo), o que estenderia excessivamente o tempo de duração das sessões.
Para celebrar a criação da nova modalidade de intérprete, a alemã Elke Limberger-Katsumi criou, em 2013, a exposição itinerante 1 Julgamento, 4 Línguas — Os pioneiros da interpretação simultânea em Nuremberg. Organizada no Brasil em parceria entre a Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (Aiic) e Associação Profissional de Intérpretes de Conferência (Apic), a exposição ocupa a Biblioteca Nacional de Brasília (BNB) até 10 de abril, para celebrar os 80 anos da profissão. A entrada é gratuita.
No local dos julgamentos, foram construídas cabines com isolamento acústico para os intérpretes e fones de ouvido foram distribuídos aos participantes, marcando a primeira vez que um evento internacional usou aparelhagem técnica para a interpretação simultânea.
A inovação causou ceticismo na época, com dúvidas sobre se seria possível ouvir um idioma e falar em outro simultaneamente. O receio se mostraria desnecessário. “O sistema se mostrou eficiente e os intérpretes conseguiram superar inúmeras dificuldades e realizar seu trabalho”, explica Marsel de Souza, presidente da Apic.
Como a profissão não existia formalmente, foram chamados pessoas de diversas origens, inclusive pessoas que foram deslocadas durante a guerra e prisioneiros dos campos de concentração. Todos passaram por treinamento prévio. “Alguns intérpretes não conseguiram suportar a situação e desistiram. Um jovem alemão desistiu por culpa, pois havia feito parte das Forças Armadas alemãs. Uma intérprete de origem judia abandonou tudo porque não aguentou interpretar acusados que, segundo ela, haviam sido responsáveis pela morte de mais de uma dezena de membros de sua família”, diz Souza.
A exposição também coloca em evidência a história de vida desses intérpretes, baseada em registros históricos do julgamento e em relatos de membros da família. Às segundas-feiras, a BNB recebe palestras sobre temas relacionados aos julgamentos: no dia 30 de março, de 19h às 21h, o professor Joanisval Gonçalves apresenta Crepúsculo dos Deuses – As muitas vidas em Nuremberg; em 6 de abril, membros da Aiic e Apic presidem a conversa Os próximos 80 anos da interpretação de conferência.
Serviço
1 Julgamento, 4 Línguas – Os pioneiros da interpretação simultânea em Nuremberg
Na Biblioteca Nacional de Brasília, aberta para visitação até 10 de abril. Entrada gratuita.
*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel
