Literatura

Clubes de leitura se espalham por Brasília

Em pleno ápice da era virtual, os clubes proliferam e oferecem a chance de cultivar o prazer da leitura de maneira partilhada

Ilustra livros Cultura -  (crédito: Kleber Sales)
Ilustra livros Cultura - (crédito: Kleber Sales)

A leitura sempre teve papel fundamental na vida de Jordana Gomes Fonseca, pedagoga e coordenadora de projetos de Itaberaí, Goiás. A paixão começou ainda na infância, com os quadrinhos da Turma da Mônica, e, na vida adulta, virou profissão: atualmente, Jordana coordena uma biblioteca comunitária. No tempo livre, participa de vários clubes de leitura, tanto de Itaberaí quanto de outros locais — incluindo o Clube de Leitura da BCE, promovido pela Biblioteca Central (BCE) da Universidade de Brasília (UnB).

Com a proliferação de clubes de leitura em Brasília, o público pode se encontrar para debater obras em diversos locais da cidade, como a Biblioteca Demonstrativa, Biblioteca Nacional e Sesi Lab, além de outros criados de forma independente por grupos de leitores. 

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Desde 2017, a BCE faz encontros mensais na última quinta-feira do mês, presencialmente; com a pandemia, passaram a promover reuniões virtuais — na última sexta-feira de cada mês —, modalidade que se mantém até hoje para possibilitar a participação de pessoas de fora de Brasília. Os encontros são abertos para o público geral.

A iniciativa, explica Fernando Silva, coordenador do Clube, partiu dos funcionários da BCE, que sentiam falta de clubes de leitura mediados por bibliotecários. "A gente queria ter esse protagonismo dentro das bibliotecas, uma experiência de um clube de leitura mediado pelos próprios bibliotecários, que são profissionais diretamente ligados aos livros e literatura em geral", explica. O objetivo principal é incentivar a leitura e a troca de ideias entre os participantes. "Não é de maneira acadêmica, nunca tivemos essa pretensão, e, sim, de uma maneira acolhedora e informal do que estamos lendo", diz.

Jordana compartilha a visão de Fernando sobre a importância da conversa entre os leitores. "Os clubes me melhoram como ser humano, porque, na hora do encontro, nós percebemos outros pontos de vista, aceitamos outras opiniões e treinamos nosso diálogo", afirma. Por isso, a pedagoga defende a criação de clubes de leitura nas escolas. "Eles poderiam facilitar que os alunos conheçam mais a literatura e melhorem a leitura e a interpretação."

No Clube de Leitura da BCE, é escolhido um tema para a leitura do mês: alguns fixos, outros são sugestões dos participantes. Em março, mês do bibliotecário, por exemplo, o tema é relacionado a livros e bibliotecas. Com nove anos de clube, os organizadores procuram diversificar as temáticas com clássicos, literatura de um país específico, literatura contemporânea e contos. "A gente procura sempre dar uma equilibrada, por exemplo, com relação a gênero: equilibrar entre homens e mulheres na escolha dos livros, isso a gente sempre procura fazer", finaliza.

Profissionais

Se em 2017 ainda não havia clubes de leitura mediados por profissionais, o cenário agora é outro. Desde 2024, o Sesi Lab promove o Clube do Livro Pensa-Mundo, criado pela equipe de Ação Educativa do museu. "Temos a perspectiva de construir uma comunidade de pessoas que se sinta parte do museu e se engaje nas nossas ações de forma mais proativa", afirma Luciana Conrado Martins, coordenadora de Ações Educativas e Pesquisa Sesi Lab. Para o Clube, são selecionados vários gêneros de ficção e não ficção: crise climática, alimentação, racismo, sonhos e decolonialidades são alguns dos temas já abordados.

Outra instituição que promove a cultura de clubes de leitura é a Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), com um grupo focado na literatura brasileira. Para a escolha das obras, é levado em consideração a urgência do tema nos dias atuais, como racismo, misoginia ou mudanças climáticas. "A escritora que mais venceu votações foi Conceição Evaristo, já lemos quase todos os seus livros no Clube de Leitura BDB", afirma Marina Mara, coordenadora cultural da Biblioteca. 

A BDB incentiva que os participantes criem obras inspiradas pelo livro do encontro: "Discutimos a obra, falamos poemas, cantamos e celebramos o autor com mais arte." O clube busca mostrar que a oralidade é tão rica quanto a escrita e que a leitura pode ser feita em comunidade. 

Diversidade

A Biblioteca Nacional de Brasília (BNB) promove, mensalmente, encontro de sete grupos: Clube de Leitura da BNB; Clube de Leitura da Diversidade, focado em obras com temática LGBTQIAPN ; Clube de Leitura Dandara dos Palmares; Clubinho de Leitura, para leitores de até 11 anos; Clube de Leitura Juvenil, para leitores a partir de 12 anos; Roda de conversa feminina, com o Clube das Leitoras; e Clube da fofoca, para debater obras escritas por mulheres. A BNB divulga as datas e os horários dos encontros por meio das redes sociais da instituição, sem necessidade de inscrição prévia.

Parte dos clubes são feitos pela equipe da BNB, com curadoria e organização próprias, enquanto outros são fruto de parcerias. É o caso do Clube de Leitura Dandara dos Palmares, idealizado por um grupo de professoras aposentadas que solicitou o espaço da Biblioteca, e do Clube de Leitura da Diversidade, feito em parceria entre a BNB, Arquivo Lésbico Brasileiro e Grito do Livro. "Percebemos aumento de interesse no acervo literário da BNB e também o aumento do público, porque muitas pessoas que não conheciam a Biblioteca vieram pela primeira vez por causa dos Clubes", afirma Marmenha Rosario, diretora da Bilioteca Nacional de Brasília. 

O Clube de Leitura do Arquivo Lésbico funcionava de forma virtual, mas, com duas mediadoras morando em Brasília, tiveram a ideia de organizar encontros presenciais na cidade. Buscaram o Grito do Livro, responsável pelo contato com a diretora da Biblioteca Nacional: foi Marmenha que sugeriu a abertura do grupo para obras de toda a comunidade LGBTQIAPN . 

"Eu confesso que fiquei com um frio na barriga de começar e não ter muita adesão de público. O auditório da BNB é gigante. Mas o Clube foi crescendo pouco a pouco e se tornou um local de acolhimento, de escuta respeitosa e, por mais que não reúna uma multidão, eu sinto que é um espaço seguro para todos que participam", diz Rachel Potira, mediadora do Clube de Leitura da Diversidade. 

Daniel Ardisson-Araújo, professor do Instituto de Biologia da UnB, já participou de encontros na BNB e ressalta a importância de clubes voltados a grupos minoritários. "As temáticas que emergem dos livros são pautas do cotidiano, atravessam diretamente a vida das pessoas e frequentemente tocam nas violências estruturais do patriarcado e do racismo que organizam silenciosamente o mundo", diz. "Na minha condição de homem gay, também marcado pelos efeitos dessas violências, é muito importante poder trocar com pessoas que sofrem a partir de lugares semelhantes ou próximos."

Paula Ximenes, secretária, também buscou o Clube de Leitura da Diversidade para ter contato com outro tipo literatura e, consequentemente, ter acesso a mais informações e poder atuar contra qualquer tipo de preconceito. "Me trouxe inspiração para criar e também mais consciência do quanto o Brasil, em especial, precisa se engajar na causa com políticas públicas de conscientização da população", explica. 

Paula percebe que atualmente poucas pessoas mantém o hábito da leitura, com preferência para atividades na internet. Por isso, ressalta a importância dos livros na vida: "Ler tem de se tornar um hábito, é um encontro com você. Muitas pessoas estão envolvidas com ruídos tanto internos quanto externos."

Literatura feminina

Apesar da formação em outra área, Daniel considera a leitura como "uma forma de inaugurar vidas antes inimaginadas, um caminho de empatia e de alteridade". Inspirado pelo grupo Bem Ditas, do Rio Grande do Sul, criou o próprio clube de leitura em 2022: Elas - Clube de Leituras Femininas, com a proposta de ler exclusivamente obras escritas por mulheres. 

O professor considera que, com o ritmo de vida acelerado, o papel dos clubes de leitura cresce. "Eu percebo que o hábito da leitura vem diminuindo, e os clubes de leitura acabam funcionando como uma forma de ancorar pelo menos um livro por mês, criando um ritmo possível em meio à vida acelerada", reflete. 

Outro clube focado em autoras é o Caliandra, que nasceu associado ao Centro Acadêmico de Letras da UnB ainda na pandemia e é aberto para a participação de toda a comunidade. Luiza Santana, mediadora do Clube, ressalta a importância de uma comunidade focada em mulheres. "Lemos O acontecimento, de Annie Ernaux, por exemplo. É um relato autobiográfico da autora, que passou por um aborto, e senti que gerou discussões interessantíssimas. Sinto que conseguimos acessar discussões muito profundas que nós mulheres nos sentimos à vontade de ter e cria-se uma irmandade", explica. 

Maria Eduarda Alves, estudante de Biblioteconomia e participante do Caliandra, partilha da visão de Luiza. "Mulheres têm um histórico de serem esquecidas ou constantemente subestimadas, seja por sua capacidade ou pelos seus temas", diz. Para ela, participar dos encontros permite entender "a pluralidade de temas que mulheres podem abordar na literatura, além de me apresentar autoras que eu não conhecia." 

 

*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco

 


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postado em 25/03/2026 13:25 / atualizado em 25/03/2026 13:27
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