![América do Sul Universalismo, 1943 América del Sur Universalismo tinta sobre papel [tinta sobre papel] Acervo [Colección] Museo Torres García 22 x 16 cm.
Joaquín Torres García - 150 anos
Curadoria: Saulo di Tarso. Visitação até 21 de junho, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Galeria 5 e Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 02, Lote 22, Edifício Tancredo Neves)
- (crédito: Divulgação) América do Sul Universalismo, 1943 América del Sur Universalismo tinta sobre papel [tinta sobre papel] Acervo [Colección] Museo Torres García 22 x 16 cm.
Joaquín Torres García - 150 anos
Curadoria: Saulo di Tarso. Visitação até 21 de junho, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Galeria 5 e Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 02, Lote 22, Edifício Tancredo Neves)
- (crédito: Divulgação)](https://midias.correiobraziliense.com.br/_midias/jpg/2026/03/31/675x450/1_012-65751851.jpg?20260331144212?20260331144212)
Nascido em Montevidéu (Uruguai) em 1874, Joaquín Torres Garcia viveu muitas vidas durante os 75 anos em que esteve presente no planeta. O artista uruguaio passou por duas guerras mundiais, deixou o país natal para se aventurar na Europa e nos Estados Unidos muito jovem, estudou Belas Artes na Espanha, trabalhou com Antoni Gaudí na Sagrada Família, construiu brinquedos em madeira para sobreviver em Nova York, foi muito amigo de Piet Mondrian e era um dos mais velhos entre as vanguardas europeias que produziram nomes como Wassily Kandinsky, Fernand Léger e Le Corbusier. Mas foi na América Latina que Torres Garcia encontrou o sentido do que chamou, em livro, de Universalismo construtivo. E é essa noção de universalidade que a exposição Torres García — 150 anos, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), propõe celebrar.
Com curadoria de Saulo di Tarso, a exposição reúne obras do uruguaio, mas também trabalhos de 70 artistas modernos e contemporâneos cuja produção dialoga com o pensamento de Torres Garcia. Tarso lembra que houve mostras recentes com obras do artista, mas com recortes curatoriais mais restritos ao universo construtivista do uruguaio. "Por ele ser um artista extremamente complexo e cuja obra, em muitas partes, está guardada há décadas e era inédita, não era possível perceber o Torres Garcia além de uma ideia do construtivismo e daquela perda que sangra até hoje na memória da museologia brasileira, que foram os quadros perdidos no incêndio do Museu de Arte Moderna (MAM/RJ)", lembra o curador.
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Um incêndio que atingiu o MAM em 1978 destruiu cerca de 80 obras do artista que estavam emprestadas para uma exposição. O episódio gerou um trauma na museologia brasileira e tirou o país do roteiro de circulação de grandes exposições internacionais durante algum tempo. "A ideia dessa exposição é criar uma celebração, porque nós tivemos a sorte de que essa exposição se tornou possível na efeméride de 150 anos do nascimento do Torres Garcia", avisa Tarso, que circula pelo Brasil com a exposição desde 2024.
Foi ao assistir ao filme Pax in lucem (2024), do diretor Emiliano Mazza de Luca, no qual a descoberta de fragmentos do painel destruído no incêndio do MAM dá início a uma jornada pela vida do artista, que Saulo di Terso teve a ideia de fazer a exposição. "Eu vi no filme a dor do incêndio, o que isso significou, mas principalmente, a dor de um silêncio que ficou, porque nunca houve uma resposta diplomática do Brasil a esse respeito e, como brasileiro, como artista, o sentimento que eu tive foi de afundar na cadeira me perguntando 'por que deixar tudo isso no silêncio?'", conta. "Ali, eu comecei a criar uma mostra projetada para, além de mostrar um Torres Garcia que o Brasil não tivesse visto, também convidasse artistas contemporâneos e modernos da mesma grandeza, fazendo de tudo isso um abraço na memória dele, para corrigir essa história e virar uma página."
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A ideia, diz Tarso, não era falar de cinzas ou da tristeza da perda. "Nem do Torres Garcia que sempre foi associado ao construtivismo, esquecido em toda enorme complexidade de quem ele é, que, inclusive possibilitou, que fosse o autor da América Invertida", diz. A obra — um desenho com o mapa da América Latina invertido que se tornou ícone da produção do artista —, também responsável pela famosa noção de "Norte é Sul" proposta por Torres Garcia, está na exposição, assim como as ilustrações dos livros Universalismo construtivo e da autobiografia História de mi vida, pinturas icônicas, esculturas e brinquedos em madeira, tudo acompanhado de escritos. O artista escrevia incessantemente e Tarso reuniu 100 textos inéditos, que ajudam a compreender as propostas éticas e estéticas do uruguaio.
A ligação entre a história da África e do continente latino-americano, simbolizada não apenas pelo fascínio pelas máscaras, mas também pelo estudo da experiência violenta à qual esses povos foram submetidos, são parte importante do pensamento do artista. "Ele escreveu muito sobre polaridade, o Norte e o Sul, mas ele está discutindo a nossa polaridade nas nossas relações cotidianas, na nossa convivência. São polaridades internas, que ele assemelha com as energias do mundo", explica Tarso. "Em América invertida começa essa questão do Norte e do Sul como uma semente. A América do Sul invertida só existe porque ele teve contato com a Amazônia brasileira e a Amazônia peruana, aí ele começa a se transformar no Torres Garcia que é muito amado hoje."
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Para o curador, o Norte ao qual o artista se refere é, principalmente, o Norte da liberdade humana. "Que é saber que você pisa na Terra e tem o céu em cima da tua cabeça e um cosmos, uma cosmologia para te guiar, que não é uma coisa distante", acredita.
Algumas obras da exposição vieram de museus espanhóis como Reina Sofia, Museu de Arte Contemporânea de Barcelona e a Fundación Telefónica, mas boa parte pertence ao Museu Torres Garcia de Montevidéu, hoje dirigido pelo bisneto do artista, Alejandro Diaz, e fruto da luta de Manolita Piña, com quem foi casado por décadas. "Ela não só viu como entendeu a importância e passou 40 anos lutando para colocar a obra do Torres Garcia num lugar central em Montevidéu, onde está tudo guardado, está tudo para ser visto. Ele é um grande gênio da arte universal secular com muitas coisas inéditas. Eu acho que o lugar dele na história da arte é esse", garante Tarso.
Serviço
Joaquín Torres García — 150 anos
Curadoria: Saulo di Tarso. Visitação até 21 de junho, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Galeria 5 e Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 02, Lote 22, Edifício Tancredo Neves)

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