
Nesta quinta-feira (9/4), o Cine Brasília terá uma sessão especial do documentário Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins. O longa aborda as operações militares nas favelas do Rio de Janeiro, especialmente durante grandes eventos, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. A sessão será acompanhada de debate com a presença das diretoras e de Elisa Pankararu, professora indígena, atual coordenadora do departamento de mulheres da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) e da defensora pública e pesquisadora Lívia Casseres.
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Natasha Neri conta que o filme nasceu do seu trabalho como pesquisadora sobre violência de Estado. “Em 2014, eu dava aula de cinema na Maré e acompanhei de perto todo o processo da invasão da Maré e os efeitos que a ocupação do território pelas forças armadas gerou nos adolescentes. Eu dava aula para adolescentes e frequentava a Maré duas vezes na semana e percebi muito de perto os impactos da militarização e do terror de Estado nas vidas dos jovens e de muitas pessoas que eu conheço por lá”, comenta. Natasha também trabalha como pesquisadora e uma das áreas era o sistema de justiça criminal, acompanhando muitas vítimas de violência.
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O filme nasceu após acompanhar mães e famílias de diversas vítimas e trabalhar na Associação para a Prevenção da Tortura. “O filme nasce dessa luta para dar visibilidade à luta das famílias, das vítimas de violações praticadas pelas forças armadas.. E em 2020, eu escrevo o projeto. Em 2021, chamamos a Gizele para co-dirigir comigo. Então, o filme é produto dessa parceria, de duas mulheres, que têm uma trajetória de militância antiga ao lado das vítimas diretas das múltiplas violências praticadas pelas forças armadas na democracia”, destaca.
A diretora Gizele Martins foi criada na favela da Maré e conta que o filme retrata sua própria realidade. “A democracia ainda é um sonho pra gente que vive nestes territórios empobrecidos. Entendemos que somos laboratórios de políticas da morte, pois os governos testam armas e equipamentos bélicos nas nossas vidas o tempo inteiro. Ou seja, toda a nossa vida é paralisada por uma política de genocidio, de militarização e da morte e tudo isso dentro de uma cidade que é considerada maravilhosa, uma das mais ricas do mundo”, conta Gizele.
Para Gizele, o objetivo do filme foi fixar na memória um período em que a favela sofreu com a Garantia da Lei e Ordem, quando o exército ocupou as periferias do Rio de Janeiro. “As operações do exército são diferentes das operações ocasionadas pelos policiais, pois só na Maré foram um ano e quatro meses com a presença do exército. Ou seja, para nós moradores, foi como continuar vivendo uma ditadura militar em meio a uma democracia, tal democracia que nunca chegou nas favelas”, destaca. A diretora ressalta que a ideia do filme é fazer uma denúncia e convidar o espectador a refletir sobre como as coisas têm funcionado no Rio de Janeiro.
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Natasha Neri espera que o filme evidencie a violência e traumas causados pelas Forças Armadas, que ainda são invisibilizados. “O filme tem o objetivo também de preservar a memória das lutas sociais de movimentos de favelas e vítimas de violações de direitos humanos praticadas pelas Forças Armadas. Buscamos, ainda, a mudança nas leis que transferiram a competência para o julgamento dos casos para a jurisdição militar, cujo julgamento está na pauta do STF, conforme listado abaixo”,destaca. Além disso, a diretora espera que o filme ajude na luta das vítimas por justiça e reparação, além de fortalecer a liberdade de expressão de comunicadores e ativistas de favelas.

Diversão e Arte
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