
Se hoje o rap e a cultura urbana vivem um momento de ascensão, muito se dá, também, por um trabalho quase sempre pouco visto ou valorizado. A lírica e as rimas são pilares desse ritmo, isso é um fato. No entanto, os beats e a melodia também são essenciais para que o som alcance ainda mais pessoas. Um dos principais beatmakers do país, Dallass é natural de Minas Gerais e começou na música muito cedo, ainda na adolescência. Agora, acumula 9 bilhões de streams nas plataformas digitais.
Aos 30 anos, ele celebra uma marca que parecia impossível quando começou. Mas, o que agora é um império de números, antes começou de forma despretensiosa, dentro de uma sala de aula e através de um software “achado” na base da curiosidade. O primeiro contato de Dallass com a criação digital aconteceu há 15 anos, motivado por um trabalho escolar de ciências.
Na época, tocava violão, por influência dos avós no interior de Minas, mas foi o software FL Studio que tudo ao seu redor mudou completamente. "Quando vi que dava para produzir uma música inteira pelo computador, eu falei: 'isso daqui é muito legal'. Depois dali, foi minha paixão", relembra. Naquela época, o acesso à informação era escasso. Dallas descreve o período como um tempo em que "tudo era mato" na produção brasileira.
Sem cursos formais, ele buscou referências na discografia de Marcelo D2 e na cena eletrônica de Belo Horizonte para aprender mixagem. A especialização veio de forma autodidata. "Foi basicamente YouTube e prática. E claro, muita música de fora também", conta. Para se encaixar ainda mais no cenário, resolveu se mudar para o Rio de Janeiro, entre 2017 e 2018.
A transição, de maneira oportuna, coincidiu com uma mudança de cenário na música urbana daquele período. O boom bap clássico estava, aos poucos, dando ainda mais lugar para o trap. Assim, Dallas foi um dos pioneiros a implementar o uso do autotune em tempo real no estúdio. "Antes, a gente gravava sem o efeito e só ouvia na mixagem. O trap começou a esquentar bem no timing que lançou o autotune real-time. A gente conheceu essa ferramenta junto com os artistas e isso mudou tudo", afirma.
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A virada de chave
A consolidação profissional veio depois de começar a integrar a gravadora Nadamal, fundada pelo rapper Filipe Ret. Lá, Dallass conectou-se com a nova geração e produziu o hit que mudou sua vida financeira. "A virada de chave mesmo foi quando produzi Balão, do Orochi. Ali eu consegui investir e montar meu próprio estúdio", diz. Apesar do sucesso externo, o produtor revela que os maiores obstáculos foram psicológicos. Para ele, os bloqueios criativos são os obstáculos mais difíceis.
"Os percalços são mais internos: eu contra eu mesmo. Às vezes a gente acha que tudo que está fazendo está horrível. Meus desafios foram, na maioria das vezes, eu comigo mesmo”, detalha. Para Dallass, os 9 bilhões de plays são uma conquista coletiva. "Eu vejo como além de números. É a conquista de ter feito a diferença junto com os caras, de ter somado no sonho de outros artistas".
Como celebração, Dallass disponibilizou no fim de março a faixa Fazenda de stream, que comemora a grande fase que tem vivido. Além disso, ele anuncia para este ano um novo álbum, ainda sem título revelado, mas que contará com mais de 10 participações de peso. "Vão ser todos os artistas com quem trabalhei até hoje", adianta. Apaixonado por diferentes estilos, Dallass destaca que aprende com cada processo criativo, desde o lirismo profundo de Filipe Ret até o freestyle nato de nomes como MC Cabelinho e Bin.
Contudo, mesmo no topo, ele ainda guarda um desejo profissional que define como o ápice de sua jornada. "Uma grande realização que eu ainda não tive, e que é o sonho de muita gente, é produzir uma faixa para o Mano Brown. No Brasil, ele é o supra-sumo", conclui o produtor. Diante de tantos anos na estrada, sobretudo por ser um pioneiro, Dallass é o espelho para uma profissão que, se antes não era valorizada, agora lota shows e ganha cada vez mais espaço na música.

Diversão e Arte
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