
As memórias de infância em Pastos Bons, no Maranhão, foram a inspiração de Jesso Alves para a montagem de Meninos, rios e peixes, primeira exposição individual do artista. Com uma série de colagens digitais, o designer gráfico resgata a relação com o rio e as brincadeiras de criança para representar a memória e identidade. A mostra está aberta para visitação gratuita na Galeria Risofloras, em Ceilândia, até 15 de maio.
Para criar a exposição, Alves resgatou memórias de quando brincava com outros meninos da região em um rio próximo de casa. “Eu via tudo isso de uma dimensão quase mágica, uma sensação de pertencimento ao ambiente. Desde cedo, sempre tive interesse em imaginar outras possibilidades de existência para além dessa”, reflete o artista. Esses momentos foram deslocados para outro plano: os meninos deixam de apenas ocupar o rio e passam a se confundir com ele. “As imagens propõem essa fusão, meninos, rios e peixes deixam de ser elementos separados e passam a existir como uma mesma matéria, um mesmo estado.”
O artista busca retomar a inocência da infância, que permite crianças se imaginarem em contextos místicos. “É assim que eu penso que toda infância deveria ser, sabe? Um momento em que a vida parece mais leve, quase como se tudo estivesse a favor”, afirma. “Na exposição, eu tento trabalhar essa ideia de uma infância onde não existe dor ou agonia, mas sim um espaço de liberdade, imaginação e encantamento.”
A vontade de viver uma realidade para além da existência comum foi o que guiou a criação dos “meninos-peixes”, com caudas de sereia. “Fui criado em um ambiente cercado por lendas, ouvindo histórias de pessoas mais velhas, em contato direto com animais e com a natureza. Era um quintal grande que, na minha memória, parecia um conto de fadas”, diz. “De forma geral, minha arte é uma manifestação desse desejo de imaginar outras formas de existência, para além da vida humana. Os meninos nas imagens têm caudas de sereia porque fazem parte desse ambiente”, resume Alves.
As imagens apresentadas em Meninos, rios e peixes foram feitas com ajuda da inteligência artificial (IA): os personagens foram gerados a partir de prompts e o refinamento estético, texturização e coloração foram feitos por Jesso na ferramenta Photoshop. Mesmo fazendo uso da tecnologia, o artista revela ter sentimentos conflitantes em relação à IA. “Para mim, ela é uma ferramenta ao mesmo tempo encantadora e estranha”, define. “Antes de começar a usar IA, eu já trabalhava com colagem há anos, construindo imagens a partir de recortes e criando uma estética própria dentro desse processo. Com o surgimento dessas ferramentas, encontrei uma outra possibilidade: trazer o meu universo pessoal para uma imagem mais ‘realista’ e, ao mesmo tempo, mais refinada.”
Depois de estudar a ferramenta, Alves passou a usá-la como apoio para expandir a arte que vem construindo ao longo da carreira. “Ela abre caminhos e sugere possibilidades, mas não resolve tudo sozinha. Mesmo sendo capaz de gerar muitas imagens, ainda existe um lugar que é do artista e do designer que é o olhar criativo, a decisão e a forma de construir sentido a partir dessas ferramentas”, finaliza.
Serviço
Meninos, rios e peixes
De Jesso Alves. Na Galeria Risofloras (Praça do Cidadão, Ceilândia) até 15 de maio. Aberta para visitação de terça-feira a sábado, de 12h às 17h. Entrada gratuita.
*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel

Diversão e Arte
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