
Santiago, Chile — "Um país sem memória é um país sem futuro". Alfonso Herrera, protagonista de A casa dos espíritos, nova série do Prime Video, lembra da primeira vez que esteve no Chile, em 2006, e se viu impactado pela frase que é estampada em uma das faixas do Estádio Nacional, local que, durante a ditadura de Augusto Pinochet, atuou como centro de detenção. Hoje, o ator mexicano relaciona a declaração à adaptação audiovisual do clássico literário latino-americano de mesmo nome, lançado pela autora chilena Isabel Allende em 1982 durante exílio na Venezuela.
A trama, contada no streaming em oito episódios, gira em torno do personagem de Alfonso, Esteban Trueba, e Clara del Valle, interpretada pela espanhola Nicole Wallace — ele, um homem machista e autoritário, e ela, uma mulher clarividente e sensível, capaz de se comunicar com espíritos e prever o futuro. Ao longo de quatro gerações, a família construída pelos dois é marcada pelas mudanças sociais e políticas do Chile, sobrevivendo a amores secretos e à violência em meio ao regime militar
Para Alfonso, a série chega para o Brasil, e para o resto da América Latina, quase como um espelho. "Compartilhamos diversas dores, que também são muito bem retratadas em maravilhosos filmes brasileiros", apontou o ator, se referindo aos longas Ainda estou aqui, de Walter Salles, e O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho. "Ao mesmo tempo, A casa dos espíritos explora parte dessas cicatrizes que nós, latino-americanos, dividimos. Trata-se de voltar ao passado para não repetirmos os mesmos erros e, assim, termos um futuro mais promissor", explicou o mexicano conhecido no Brasil pelo trabalho na novela Rebelde.
Uma das produtoras da série, Fernanda Urrejola destaca que as questões tratadas na obra permanecem relevantes, mesmo 40 anos após o lançamento. "Elas ressoam ainda mais agora, com tudo o que está acontecendo. Acho que nenhum de nós imaginava que a estreia aconteceria em um momento em que era tão importante falar sobre essa história", admitiu a chilena, que também dá vida à Blanca Trueba na ficção.
A relação do livro com o tempo atual é tamanha que a obra chegou a ser banida em alguns distritos escolares da Flórida, Estados Unidos, pontuou Alfonso. "É interessante como, apesar da passagem dos anos, existem certos lugares e grupos que continuam tentando silenciar essa história. Mas, no fim das contas, a narrativa e as ideias são muito mais poderosas do que tentativas de silenciamento. As novas gerações, mesmo que não possam ler A casa dos espíritos em certos lugares, podem assistir à série, que está disponível em mais de 240 países, e isso me parece muito poderoso", declarou o ator.
Um clássico revisitado
"Fazer este projeto significa encontrar todas as pessoas que foram tocadas pelo livro", descreveu Andrés Wood, nome à frente da série junto à Fernanda. "É uma obra que não é apenas popular, mas também fundamental para muita gente", opinou o showrunner. "É um daqueles clássicos que você pode ler várias vezes e vai continuar ressoando em você mesmo após cinco, 10, 15 ou 200 anos. Esse é o caso de A casa dos espíritos, especialmente em ciclos políticos como esse que vivemos, em que o patriarcado e o autoritarismo estão ganhando força", ressaltou o chileno.
Nicole acrescenta que, no livro, a política e a vida pessoal dos personagens se entrelaçam. "É uma obra que tem magia e espiritualidade, mas é muito humana e fala de coisas que todos nós vivenciamos, sem minimizá-las, com todas as suas camadas e contradições, sem ser bom ou mau. É simplesmente muito complexo e acho que é isso que cativa o público, essa forma incrível de se expressar. Não sei como Isabel Allende é capaz de contar coisas tão difíceis de uma forma tão bela e mágica", elogiou a espanhola.
Pela primeira vez em formato televisivo, a trama estreou nas telonas em 1993, em adaptação protagonizada por Meryl Streep, Glenn Close e Jeremy Irons. "Claro que aquela versão foi um marco incrível, afinal, eram atores de Hollywood de primeira linha adaptando um livro de uma escritora latina-americana", ponderou Nicole. "Mas agora vemos quanto tempo levou para que tivéssemos essa história sendo contada por atores latino-americanos, filmada no Chile. É muito importante que esses personagens estejam recebendo o espaço que merecem", disse a espanhola. "Também é a oportunidade do espectador de conhecer essa narrativa por completo, podendo aprender nosso idioma e conhecer os lugares incríveis que esse país tem a oferecer", adicionou.
Na trama, Nicole trabalhou ao lado da atriz mirim Francesa Turco e da argentina Dolores Fonzi para retratar Clara da infância à maturidade. "Podermos passar o bastão umas para as outras foi maravilhoso, porque aprendemos muito juntas. E acho que é disso que se trata a personagem. Ela é como uma alma dentro do corpo que lhe foi dado nesta vida, carregando consigo a sabedoria de muitas mulheres a partir de todas as visões que tem e todos os ancestrais e espíritos que vê. Então, acho que essa foi a maneira perfeita de interpretá-la", afirmou a espanhola.
Alfonso, por outro lado, define Esteban como um personagem trágico: "Ele está constantemente perseguindo algo, e quando percebe que o que realmente importa na vida é sua família, que está ali, na sua frente, é tarde demais. Essa, para mim, é uma das grandes tragédias dessa história".
Apesar do tom truculento e ditatorial do personagem, a produtora Francisca Alegría acredita que parte do público irá compreendê-lo. "Haverá uma parcela de pessoas que entenderá que Esteban faz parte de um sistema que o permite ser assim, e que isso tem a ver com suas feridas e com uma masculinidade tóxica da qual podemos falar hoje. Acho que isso vai gerar um debate muito interessante", torceu. "Ele não é apenas um vilão, é um ser humano com muitas feridas e falhas. E acho que uma parte importante do romance e da história é como tratamos essas histórias com compaixão", incluiu Fernanda.
Baseada no livro que traz como pano de fundo a política chilena e o golpe contra o governo do presidente Salvador Allende, primo do pai de Isabel, a série tem a autora também como produtora executiva. Em vídeo exibido durante a première da série, ela afirmou estar profundamente comovida e encantada com os episódios. "Me sinto particularmente tocada, porque trata-se da história da minha família, da minha avó clarividente e dos fantasmas do passado. Acho extraordinário que todas essas pessoas tenham sobrevivido por todos esses anos", celebrou a chilena.
*A repórter viajou a convite do Prime Video

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