
São Paulo (SP) — Aeroporto de Congonhas, 8 de maio. Entre pouso e desembarque, o sistema de som da aeronave preenche o ambiente com versões instrumentais. Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Flor de Lis. Na aparência banal desse fato residem indícios da posição que Djavan alcançou na música brasileira. No mesmo dia, em São Paulo, o compositor alagoano deu início à turnê pelas cinco décadas de carreira. O Correio acompanhou o espetáculo, um afago aos corações das mais de 45 mil pessoas presentes no estádio Allianz Parque. Djavanear - 50 anos chega a Brasília em 27 de junho.
Nas mais de duas horas entre Sina, música de abertura, e Lilás, o que se ouviu foi um coro incansável do público, privilégio de quem acumula sucessos desde o primeiro disco, de 1976. Durante a performance, Djavan lembrou a importância da capital paulista para que a carreira decolasse. "Foi aqui, 50 anos atrás, que a música Fato consumado conquistou o segundo lugar no festival Abertura, no Theatro Municipal de São Paulo. É um marco importantíssimo para mim. A partir dali, dediquei minha vida toda à música."
Miragem e Azul mostraram a dinâmica que o ícone da música popular brasileira, aos 77 anos, sustenta no palco, com gingados e beijos à plateia. Mas, foram os momentos mais intimistas, quando os holofotes se concentraram na voz e no violão de Djavan, que produziram as mais fortes reações. Coube à sequência Meu bem querer e Oceano o ponto alto do show. A direção musical, feita por Djavan, incluiu ainda trombone, trompete, saxofone, além de baixo, bateria, guitarra e teclados.
Em O vento, Djavan lembrou Gal Costa. "Fiz essa canção para ela, e ela gravou. É uma homenagem à minha querida amiga." Outro músico reverenciado no show foi David Sanborn, que Djavan convidou, em 1986, para gravar a música Quase de manhã. O saxofonista norte-americano também conduzia o programa Sunday Night, no qual o compositor alagoano interpretou Asa, no final da década de 1980. "Tem um vídeo meu daquele dia que circula na internet até hoje. Eu gosto e sei que vocês também", comentou Djavan.
A grandeza do show também pode ser medida em termos de estrutura. Foram 300 funcionários direta e 5 mil indiretamente mobilizados. Para a montagem do palco, que levou cinco dias, houve o empenho de 100 pessoas. Os telões de mais de 600 metros quadrados de extensão transmitiam a performance ao mesmo tempo em que apresentavam artes em diálogo com as canções.
A visão dos fãs
A cantora Liniker foi uma das artistas que prestigiaram o show. "Djavan é uma inspiração, referência para o meu trabalho. Não poderia perder", disse. Nair Brito, 30 anos, reuniu sete familiares, todos com camisetas estampadas de Djavan. Segundo ela, o gesto é uma maneira de retribuir a paixão que herdou em casa. "Tenho um amor genuíno por ele, foi um prazer organizar essa vinda." Para Adel Brito, a principal característica de Djavan é encantar o público. "Ele é um hitmaker", disse o tio de Nair.
Se Nair passou a gostar do Djavan por influência da família, Kauanny Basília, 14 anos, fez o contrário. Foi ela quem colaborou para que a mãe, Fernanda, se aproximasse das músicas dele. "Estou aqui por ela. Meu presente do dia das mães é vê-la sorrir." Sidney Miranda e a mulher, Fabiana Oliveira, percorreram, de Campinas a São Paulo, quase 100 km para trazer Alice, de 16 anos, ao primeiro show da vida. "Comecei a gostar de MPB por causa deles", explicou a jovem. "Viemos escutando no caminho, Djavan tem músicas muito bonitas", contou.
As estudantes da Universidade de São Paulo (USP) Heloísa Paschoalotto e Ana Ruth Passos acompanharam o show juntas. Elas discordam de alguém que ainda "ousa" classificar as letras de Djavan como incompreensíveis. "As músicas são carregadas de sentido, mesmo que não se apresente de maneira imediata. Às vezes é necessário fazer um esforço maior", opinou Heloísa, da Faculdade de Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Em entrevista ao Correio, Djavan comentou o início da turnê. Confira:
Por que a opção por celebrar os 50 anos de carreira no palco e não com um disco, por exemplo?
A ideia era fazer algo semelhante ao que aconteceu há 25 anos, quando completei 25 anos
de carreira. A gente sabia que essa era a melhor forma de comemorar, com um espetáculo
que reunisse o maior público possível para celebrarmos juntos esses 50 anos.
O músico tem o privilégio de acompanhar ao vivo o deleite do público, diferente do
escritor ou do cineasta, que ficam sem saber as reações de maneira imediata. O que
você sentiu nos shows de estreia da turnê, diante de uma multidão que te
acompanhava em cada música?
Naquele momento incrível, diante de tanta gente completamente envolvida com o show,
com a história, com o repertório, com essa obra que começou a ser construída há 50 anos,
eu fiquei impressionado. Foi um trabalho realizado de maneira muito natural, sempre
conduzido pela emoção de cada canção que eu fiz, de cada show, de cada palco em que
subi. Naquele momento, ficou ainda mais claro para mim o tamanho da felicidade que essa
carreira me proporciona. E eu sinto que não vou parar nunca com esse ímpeto, com essa
vontade de subir aos palcos, de fazer canções novas.
Além de celebrar uma trajetória musical de sucesso, a que mais a turnê se propõe?
Acho que a turnê marca um momento importante da minha vida e também da vida das
pessoas. Porque eu tenho o privilégio de entender que existe um público que realmente me
acompanha, que me ajuda e que me influencia a seguir fazendo sempre.
Como tem sido a preparação para encarar os shows em arenas?
Eu tenho que cuidar basicamente do corpo e da mente. A saúde física e mental são muito
importantes na preparação de um espetáculo - e não precisaria nem ser esse de 50 anos,
qualquer um exige isso. É preciso preparar a voz, fazer um trabalho vocal, preparar o físico,
porque, como você sabe, meu show envolve uma performance que exige bastante de mim
fisicamente. E tem também o aspecto psicológico. Encarar uma arena com 50 mil pessoas
ávidas por cantar, dançar, manifestar sua satisfação por aquele evento, por aquele artista
que acompanham há tantos anos, tudo isso é muito sensível, e a gente precisa se preparar
para isso.
Que ideias nortearam os arranjos?
Tive a ideia inicial de trazer as músicas, na medida do possível, para os arranjos originais
das gravações. Sobretudo os hits, porque mexi muito neles ao longo dos anos, justamente
por serem canções que começaram a fazer sucesso há muito tempo. Então, a ideia
primordial foi resgatar esses arranjos originais. Em alguns casos, fizemos algo mais híbrido,
misturando o arranjo original com versões mais recentes, ou até com alguma leitura criada
agora, para este momento. E foi isso que aconteceu. Várias músicas foram trabalhadas
dessa maneira.
*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco

Diversão e Arte
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