
O mundo urbano sempre interessou Claudio Tozzi. Quando decidiu entrar para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), no início da década de 1960, o jovem paulistano descendente de italianos tinha em mente duas preocupações: queria ser artista e queria que a arte se integrasse mais ao espaço da cidade. Acabou por tornar-se urbanista, mas também um dos nomes mais importantes da produção artística brasileira conhecida como nova figuração, ou uma pop art à brasileira. Essa trajetória, cujo caminho passa pela abstração geométrica, está desenhada de forma sucinta e objetiva na exposição Uma continuidade como respiro, em cartaz na galeria Cerrado Cultural e com curadoria do italiano Cristiano Raimondi.
Obras do início da carreira dividem espaço com clássicos da fase pop — como as séries Astronauta, Multidão e Guevara — e produções mais recentes, composições geométricas nascidas de uma ordem harmônica e que não dispensam a presença do gestual do artista. "Eu quis criar uma espécie de continuidade e diálogo entre épocas diferentes, mas sem criar uma cronologia e me detendo, sobretudo, na técnica", diz o curador.
Aos 82 anos, Claudio Tozzi percebe na própria obra um percurso que mescla, em proporções quase iguais, a arte e a arquitetura. "Essa influência me deu um pensamento de estruturar a obra, é um pensamento construtivo: eu nunca chego em uma tela em branco e penso 'o que eu vou fazer?'. É absolutamente o inverso: tenho uma atitude mais racional em relação ao espaço, faço um projeto, um trabalho pequeno, numa escala onde vou corrigindo as coisas, e depois executo o trabalho e ele vai tendo uma nova interferência, porque exige uma outra solução por causa da escala", explica Tozzi, que se surpreendeu ao descobrir que o curador trouxe para a exposição uma das primeiras obras do artista.
É uma pequena pintura na qual a mistura de elementos geométricos e figurativos encontram a narrativa pop numa espécie de síntese e gênese da produção do artista. "É uma colagem na qual eu utilizava os elementos de jornal, de revista, um pouco ligado à nova figuração que se fazia na Europa, mas com uma estrutura que é bastante definida, que acontece em todos os outros quadros. É um processo de produzir muito ligado à arquitetura, à minha formação com o design, com a parte de estrutura da obra. E essa exposição mostra isso, um caráter absolutamente construtivo de um pensamento mais racional", avisa o artista, que conversou com o Correio sobre a relação entre arte e cidade e sobre a própria trajetória.
A exposição traz obras realizadas entre a década de 1960 e os últimos 20 anos. Nesse tempo todo, o diálogo entre abstração e figuração foi constante. Como você encara esse diálogo?
Em algumas fases, a figura está presente. Seria como se eu estivesse trabalhando com formas, mas tenho, associado a elas, um significado. As formas são absolutamente estudadas. Tem essa relação de fundo-figura, em que a imagem penetra no elemento circular, por exemplo. Tudo isso é pensado. Na exposição, tem várias fases. Os mais recentes são trabalhos mais organizados, onde tem uma ruptura com o espaço da tela, as próprias formas vão determinando a forma final do quadro, o entrelaçamento e as relações de corpo vão determinando a forma final. Às vezes, o trabalho tem uma dinâmica como se estivesse em movimento. E tem também o sentido de relacionar as artes plásticas, a pintura, principalmente, com o design, com o ambiente, com o meio urbano.
E qual o papel da cor nesse processo de composição? Como ela faz parte da forma?
Nos primeiros trabalhos dessa fase da nova figuração, eu trabalhava com apropriação de imagens. Para os astronautas e as multidões, eu me apropriava de imagens existentes e interferia nelas. E só trabalhava com as cores primárias, azul, vermelho, amarelo, branco e preto, porque era uma apropriação da linguagem dos meios de comunicação de massa, das placas de rua, que hoje não tem mais, aquelas placas que eram pintadas, e das sinalizações urbanas. Estabelecia a relação com o público por meio de uma linguagem acessível, diferente da linguagem hermética, mais elaborada, dos novos trabalhos. Tinha essa comunicação, eram coisas imediatas, o astronauta, a multidão, a própria morte do Guevara.
E tinha uma relação com a época e com o contexto também. Isso era importante para vocês? E como fica isso hoje?
Era superimportante. Hoje, eu acho que o mundo está totalmente desorganizado. Tem uma situação neofascista absurda. Então, andei pensando que a própria organização das formas do quadro poderiam sugerir uma reorganização do mundo. E uma organização bastante harmônica, através da estrutura e das cores que poderiam sugerir uma justiça maior no mundo, uma igualdade, uma justiça social e um projeto mais amplo de bem-estar para todos.
Como isso se expressa na geometria da sua pintura?
Seria a ideia de tentar estruturar um espaço de justiça, de paz, onde cada área dialogasse com a outra e não fosse totalmente isolada. Por exemplo, a questão de nações, de limite de território, todas essas coisas. Daí não teria mais essa imposição de brigas geopolíticas, de invasões. Seria uma harmonia espacial que se refletiria em uma organização política. Isso é muito abstrato, mas é importante. E só é possível com uma narrativa em cima.
A narrativa é essencial para o seu trabalho?
Eu acho que não, porque é um campo aberto. As pessoas têm que ou perceber isso ou relacionar com outras coisas também.
O que te interessa hoje na pintura?
Me interessa muito a relação com o espaço público. Eu acho que, se você levar uma arte para a rua, ela dialoga com a arquitetura, com o espaço urbano, e isso é importante. Daí você vai ter uma democratização no sentido de que as pessoas possam fluir mais a arte. É o que me interessa mais. Essa minha formação como arquiteto também me possibilitou esse pensamento de relacionar as escalas da pintura de ateliê com o espaço urbano. Acho que é uma coisa importante, que rompe com os espaços tradicionais e fica para o público, para uso.
Olhar
interior
A Cerrado Cultural também recebe a coletiva Abismal…Abissal, uma reunião de obras de 12 artistas, boa parte deles do Centro-Oeste, sob curadoria de Tállison Melo, que procurou explorar as relações de interior territorial e subjetivo. Inspirado na música Mergulho interior, de Anelis Assumpção, Melo selecionou obras que comportam a ideia de mundos à parte habitados por seres e materiais carregados de noções como profundidade e interioridade.
A partir de uma leitura da produção e de conversas com nove nomes mais jovens que integram o acervo da galeria, Melo costurou um recorte curatorial baseado na própria experiência individual de cada artista. "Eles sempre falavam muito sobre uma experiência própria do interior do Brasil, de pensar a arte e a vida a partir desse lugar. E, ao mesmo tempo que falavam dessa dimensão territorial, tinha muito uma coisa da própria experiência subjetiva da interioridade do eu. Eu comecei a correlacionar com a música da Anelis Assumpção", conta.
Entre os artistas estão nomes como Raylton Parga, com experiências de cianotipia, Genor Sales e Tor Teixeira, que refletem sobre o universo do trabalho, e Abraão Veloso, Estevão Parreiras e Rebeca Miguel, com uma produção que reúne leituras afetivas para ancestralidades comuns.
Uma continuidade como respiro
Exposição de Claudio Tozzi. Curador: Cristiano Raimondi. Visitação até 25 de junho, de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 13h, na Cerrado Galeria (SHIS QI 05 chácara 10)
