Em uma sala escura, o visitante se depara com retratos em tamanho natural de rostos que encaram o outro com olhar firme. A resolução é desconcertante: todos os detalhes da expressão, da pele e de suas nuances estão à mostra. No mesmo ambiente, vozes contam histórias de vida muito diversas sobre trajetórias que desembocaram em uma mesma situação: a vulnerabilidade das ruas. A exposição Faces, em cartaz no Museu dos Correios, tem um propósito que envolve dignidade e desconstrução de estereótipos, mas é, sobretudo, o resultado de um olhar humano que fez a fotógrafa Ana Lima ir atrás de histórias que acontecem todos os dias no Setor Comercial Sul (SCS).
Tudo começou enquanto Ana fazia um curso de produção cultural oferecido pelo Instituto no Setor. Com experiência em fotojornalismo, especialmente nas áreas de moda, beleza e gastronomia, a fotógrafa passou a acompanhar o impacto gerado pela reforma de um simples banheiro na área central da cidade. O projeto teve início durante a pandemia, quando o No Setor decidiu arrecadar fundos para reformar o banheiro público do SCS, um lugar fundamental para a população que circula pelo local mas, sobretudo, para a população em situação de rua. "Eles tiveram essa ideia de reabrir aquele banheiro, que é quase em frente ao Museu dos Correios, para que essas pessoas pudessem usar, tomar um banho, beber uma água. Achei o projeto muito interessante e quis, de alguma maneira, colaborar com isso de uma forma mais artística", conta Ana. "Com a pandemia, aquelas pessoas ficaram completamente desamparadas."
A ideia inicial do Faces era dar uma visibilidade para as pessoas que frequentavam o local e para o próprio banheiro, que é mantido por doações. Foram três anos acompanhando o projeto, conhecendo as pessoas e desenhando um formato para o trabalho. "E isso se materializou com essa exposição", explica Ana.
Durante o curso, a fotógrafa começou a conviver tanto com os idealizadores do projeto do banheiro quanto com os frequentadores que vivem nas ruas do SCS. "São pessoas muito diversas. A gente tem uma ideia muito abstrata do que é a pessoa em situação de rua. E quando você conhece as histórias, você se surpreende, porque são histórias diferentes e são inúmeros os motivos que fazem uma pessoa chegar a essa situação. Também nos faz ver como é difícil conseguir sair dessa situação, principalmente pela questão do emprego", conta.
Faces reúne 11 fotografias de pessoas que vivem ou viveram no SCS e foram usuários do banheiro público durante esse período. "O que une todas essas pessoas é a relação elas com o banheiro, que acaba sendo personagem invisível na exposição. Algumas dessas pessoas saíram da situação de rua um pouco por causa do banheiro, também temos os que começaram a trabalhar ali e pessoas que utilizam o banheiro", explica Ana. " Por que a gente fala tanto de um banheiro? É saneamento básico. É o único banheiro público no coração econômico da cidade, uma coisa muito básica. E como essa dignidade pode ser transformadora na vida dessas pessoas. São histórias de perda, de resistência, de dignidade".
As fotos em grande formato foram montadas em caixas de acrílico retroiluminadas, o que cria uma luminosidade que vem de dentro da imagem. Ana lembra que o curador da exposição, Marcelo Feijó buscou em uma frase de Joãozinho Trinta a justificativa para o suporte. "Ele dizia que quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo. Eu quis dar luxo visual a essas pessoas. Uma apresentação sofisticada e digna". garante.
Um áudio com os depoimentos ambienta o espaço expositivo com vozes misturadas e trechos de narrativas que podem ser ouvidas por inteiro e individualmente ao acessar o QR Code da exposição. Ana optou por realizar retratos como forma de aproveitar a própria experiência. "Trabalhei muito tempo como fotógrafa de editorial de revista, de moda, então, eu queria usar a minha técnica e minha trajetória como fotógrafa de retratos e fazer uma coisa que a gente quase não vê, que é retratar essas pessoas com toda a dignidade possível e olhar para elas", avisa. São fotos em grande formato, com super definição, organizadas em um espaço museológico pensado e organizado para receber arte. "E você pode olhar no rosto dessas pessoas de verdade, você muda um pouco a perspectiva da fragilidade, você humaniza essas pessoas e a ideia era trazer o máximo de dignidade e humanidade em um retrato formal", diz a fotógrafa, que apostou na capacidade de os retratos gerarem empatia e tocarem os visitantes pelo sentimento e pela emoção.
Três perguntas // Ana Lima
Por que retratos que implicam em um olhar direto para a câmera?
Quando alguém em situação de rua te olha nos olhos, o instinto pode ser o de desviar o olhar, tem gente que muda de calçada. A Juma Santos, que é uma liderança de direitos humanos no Brasil e que vem de uma trajetória de rua, esteve na abertura da exposição e me disse uma coisa que é a essência desse trabalho: que ninguém nunca olhou um morador de rua nos olhos. E é isso que esse conjunto de imagens oferece. O rosto está ali, grande, iluminado, te encarando. Isso inverte a relação de poder. Não é você que observa o outro com distanciamento, com pena ou curiosidade. É o outro que te pergunta: você me vê? Você me reconhece como humano?
O que você espera que as pessoas sintam ao ver a exposição?
Espero que as pessoas saiam diferentes, que se surpreendam como eu me surpreendi com a humanidade e a individualidade dessas pessoas retratadas. Espero que as pessoas possam, de fato, se perguntar: quem são essas pessoas? O que me separa delas?
Qual é o papel da arte na transformação social?
Se a arte consegue mover por dentro, ela já está fazendo pelo menos um pouco de transformação social. A arte tem esse poder de criar encontros entre mundos que nunca se cruzariam. Quando alguém que nunca parou para olhar para uma pessoa em situação de rua fica parado diante de um retrato e fica emocionado, isso é político. Isso é estruturante.
Faces
De Ana Lima. Visitação até 14 de junho, de terça a sexta, 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h, no Museu dos Correios (SCS, Quadra 4, Edifício Apollo).
Não recomendado para menores de 14 anos
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