
Em comemoração aos 50 anos do título da Copa de 1958, Brasília recebeu eventos que incluíram a presença de jogadores campeões e da delegação sueca, adversária do Brasil na final daquela conquista. O produtor cultural Marconi Scarinci relembra com brilho nos olhos o momento em que, no Meliá Hotel, num jantar repleto de convidados ilustres, escutou o chamado da estrela da festa.
— Meu professor! — disse Pelé.
Scarinci conferiu todos os lados e constatou que aquelas palavras só poderiam ter sido dirigidas a ele. Ao cumprimentar o Rei do Futebol, entendeu que os elogios do trabalho como coordenador da semana comemorativa Heróis de 1958 haviam chegado longe. Desse encontro, Scarinci guarda, além de fotos, a dedicatória gravada na autobiografia de Pelé.
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Essa é uma das histórias escondidas por trás da coleção particular de Scarinci, que reúne mais de 500 obras com a temática do futebol nas estantes do próprio apartamento. Cada lombada aciona diferentes memórias e tudo começou por acaso, há 30 anos. Formado em filosofia no Instituto de Ensino Superior do Centro-Oeste (Iesco), Scarinci sempre cultivou o hábito de reter livros.
Na década de 1990, um amigo interessado em estudar a relação entre futebol e teatro na produção de Nelson Rodrigues pediu material bibliográfico emprestado a Scarinci, que não conseguiu atender à demanda. Diante da lacuna, passou a procurar essa temática com mais frequência nos sebos por onde circulava. "Boa parte do que tenho aqui é fruto de garimpo", diz Scarinci, como se refere ao processo de vasculhar.
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Conquistados com muito esforço, o batom de Elza Soares e o autógrafo de Nilton Santos na biografia do Garrincha, escrita por Ruy Castro, são outras preciosidades da coleção. Títulos como Eu sou Pelé, de 1961, As lições da Copa, de Zagallo, e O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho aparecem em destaque nas estantes. O botafoguense, professor de filosofia do Centro de Ensino Médio Taguatinga Norte, dispensa clubismos. Cabem na prateleira obras a respeito de todos os times brasileiros. "Se aparece um atleticano, mostro autógrafo do Reinaldo. Um cruzeirense, do Tostão", diz Scarinci.
Mais antiga que a dos livros é a paixão pelo futebol. A primeira Copa que acompanhou foi a de 1970, aos oito anos. Jairzinho, Rivelino, Pelé, Gérson, Clodoaldo e Brito foram alguns dos nomes responsáveis pelo encantamento primordial de Scarinci — para azar do pai dele, um italiano que viu a Azzurra perder aquela final por 4 a 1. Apesar da frustração na Copa seguinte, em 1974, foi ali que se construíram as bases da troca entre as letras e o futebol na vida de Scarinci.
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"Na Copa de 1974, comecei a ler cadernos de esportes, o Jornal dos Esportes, por exemplo, criado pelo Mário Filho. Essa ação me levou a ser um bom leitor. O futebol serviu para mim de letramento." Edições especiais de revistas, como a Manchete Esportiva, também fazem parte do acervo de Scarinci. "Nessa de 1958, Nelson Rodrigues sentencia o fim do complexo de vira-lata. Quer dizer, o futebol foi importante até nisso."
Se alguns argumentam que esportes representam alienação, Scarinci defende o contrário. Depois da língua portuguesa, diz, "o futebol é o elemento que mais unifica os brasileiros". Ele também aponta a contribuição para a música e para a cultura em geral como prova da importância. As estantes repletas de livros a respeito do tema vão nessa direção, o que não impede posicionamentos críticos.
"Desde 2014, com a goleada por 7 a 1, entramos em uma crise profunda do nosso futebol. Isso tem a ver com a mercantilização, apesar de ela ser anterior. Jogador no Brasil virou commodity, para exportação. Mal começam em nossos clubes e já vão embora. Isso é ruim porque gera perda da identidade da Seleção", expõe Scarinci.
Na fase de ouro do futebol brasileiro, de 1958 a 1970, continua o professor, quase todos os jogadores atuavam no Brasil. "Você ficava esperando a lista para ver se o cara do seu time ia ser convocado, então gerava mais fervor para torcer. Se tinha uma coisa que nos orgulhava era a Seleção. Deixamos isso se perder."
Segundo Scarinci, o futebol arte, principal característica do estilo de jogo brasileiro, deve ser resgatado. "Nilton Santos dizia: o dia que passarmos a jogar como os europeus, nosso futebol vai morrer. A ginga é nossa. Criamos uma maneira. Até o historiador Eric Hobsbawm fala isso." Para ele, Vinícius Júnior, Estevão, Endrick e Neymar, tal qual Ronaldinho e Rivaldo, são herdeiros da tradição de "artistas da bola".
Quando recebeu o Correio no apartamento em que mora, Scarinci escutava um dos temas do filme Tostão a fera de ouro, trilha sonora composta por Milton Nascimento. As estantes de livros que dominam a sala também dividem espaço com discos. Ao longo da conversa, o professor exibiu a memória enciclopédica de momentos do futebol. O mais tocante, no entanto, parece ter sido naquele jantar no Meliá, ao receber convite de Pelé para cumprimentar os funcionários do hotel. "Eu sou povo também." Ao lembrar a frase do maior ídolo do futebol brasileiro, Scarinci foi às lágrimas, demonstração de sentimentos que vão além do esporte.
*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco

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