O baque provocado pelo nascimento de crianças anencéfalas em Cubatão (SP) na década de 1980, uma consequência da intensa poluição industrial que assolava a região, transportou Araquém Alcântara para um Brasil machucado e nem sempre colorido e ensolarado. Foi a experiência diante da deterioração que o fez enxergar a impossibilidade de vida sem a sustentabilidade. Ali, ele decidiu transformar o ambiente brasileiro e seus habitantes em um projeto fotográfico de vida inteira. É para celebrar essa trajetória que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) inaugura hoje a exposição O Brasil de Araquém Alcântara e lança o livro 50 anos de fotografia.
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Com 50 obras em grande formato, a mostra explora um universo que retrata, principalmente, a natureza brasileira e suas marcas de exuberância e devastação. "Eu me sinto um cronista da beleza e da destruição, da devastação, da desertificação deste país. Nossos biomas estão em um estado que, a cada dia, estamos perdendo oxigênio, água e carbono por culpa da ganância e do lucro", lamenta o fotógrafo. "De um lado temos essa fertilidade imensa que é o Brasil, essa coisa que é fundamental para o futuro do planeta, sobretudo na Amazônia. E de outro, a violentação impune do nosso grande patrimônio. Sou um cronista disso."
As imagens foram escolhidas junto com o curador, Eder Chiodetto, que também foi aprendiz de Alcântara, e fazem parte de um projeto iniciado na década de 1970, quando o fotógrafo começou as andanças pelo Brasil. "Isso aconteceu no início da carreira, porque eu comecei a ver crianças nascendo sem cérebro em Cubatão. Foi a grande porrada, o grande vetor do meu trabalho. E decidi mostrar o verso e o reverso. E pensei: 'vou interpretar esse país'. E comecei a andar. Minha indignação é feita com histórias, com fotos, que são a história instantânea", explica o fotógrafo.
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Araquém Alcântara, 75 anos, é considerado um dos precursores da fotografia de natureza no Brasil. São 62 livros publicados e um banco com quase 1 milhão de imagens com registros de todos os cantos do Brasil. O livro 50 anos de fotografia reúne, em mais de 500 páginas, um total de 220 fotos que contam a trajetória de Alcântara no projeto de defesa da natureza. A publicação tem desde as primeiras imagens, feitas no cais de Santos, até registros mais recentes de queimadas na Amazônia e no Pantanal. "Desde a década de 1970, vejo essa natureza sendo maltratada, os animais sem corredores, cada dia com menos espaço. E não temos quase nenhuma importância na geopolítica mundial a não ser pela Amazônia, pelos aquíferos, pela floresta. Então, é uma questão primordial proteger a floresta, recuperar as florestas, regenerar", garante.
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A exposição foi viabilizada, em parte, pelo ministro Antonio Herman Benjamin e Vasconcelos, presidente do STF e colaborador de Alcântara. "Há muito tempo colaboro com ele, porque é uma autoridade em direito ambiental. E resolveu, depois de Sebastião Salgado, me considerar o maior intérprete do Brasil", conta o fotógrafo. Para ele, a fotografia funciona como uma espécie de grito e de testemunho. "A fotografia é memória, resistência. Aliada a outras linguagens, tem uma força incrível, ela captura um momento irrecuperável", diz.
Serviço
O Brasil de Araquém Alcântara
Exposição de Araquém Alcântara. Abertura hoje, às 19h, no Mezanino do Edifício dos Plenários - Superior Tribunal de Justiça.
50 anos de fotografia
De Araquém Alcântara. Paisagem Distribuidora, 508 páginas. R$ 293
