LITERATURA

Em novo livro, Gregório Duvivier reflete sobre o singificado das palavras

Novo livro de Gregório Duvivier reflete sobre a capacidade das palavras de provocar encantamento

Para Gregório Duvivier, uma palavra é feito uma moeda que tem uma cotação hoje, e outra, amanhã. "Não adianta você dizer: o real vale um dólar porque o governo decidiu ontem, botou um decreto. Se as pessoas não aceitarem, ele não vale. A palavra também é assim, não adianta nada você lutar por um significado, ela vale o significado que as pessoas aceitam", explica o escritor, ator, roteirista e diretor. Depois do sucesso de O céu da língua, monólogo visto por mais de 300 mil  pessoas e que tem a palavra como protagonista, ele retoma o tema em Aos pés da letra, livro publicado pela Companhia das Letras e que compila uma coleção de palavras curiosas. 

Fascinado por etimologia e pelos usos da língua, Duvivier escolheu uma lista de palavras para refletir sobre seus significados. Com humor envolto em uma camada de erudição, sempre com a postura crítica, ele se propõe a pegar o leitor pela mão para uma viagem poética, lúdica e muito instrutiva pela língua portuguesa. "Acho que o mais bonito delas (das palavras) é que elas são flutuantes, elas são uma metamorfose ambulante", diz o autor, cujo texto é, também, um jogo de sugestões para outras formas de encarar as palavras. Logo no início, ele dá o tom com kiki e buba, a primeira, pontuda, e a segunda, gorducha, defende. Com isso, Duvivier faz um desafio elegante a Ferdinand de Saussure, o suíço que triangulou a ideia de signo, significante e significado, e cravou que não existe relação entre som e significado. "Será?", questiona o autor de Aos pés da letra

Uma das referências para escrever o livro foi Assim nasceu uma língua, no qual o linguista português Fernando Venâncio fala das conexões entre as línguas galega e portuguesa. "Ele diz que o português era o galego, não havia diferença. Até o século 12, não havia diferença. A gente falava galego", conta Duvivier. "Não é que o galego parece com o português, não. O português era o galego, até decidirem o contrário. Nós roubamos a língua dos galegos, essa é a verdade. Toda vez que falam se existe uma língua brasileira ou se não existe, é bom lembrarmos que isso não é uma discussão linguística, é uma discussão política."

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Em Aos pés da letra, o autor assume uma postura de "abridor" de palavras. Ele queria, inclusive, dar ao livro o título de Abra a palavra, mas preferiu a expressão que remete tanto ao significado literal quanto a uma certa de rendição. "A gente vive aos pés da palavra", lembra. "Porque a gente fala com elas e existe também graças a elas", garante o escritor, que conversou com o Correio sobre a mágica da linguagem.

Entrevista//Gregório Duvivier

O que mais te fascina no sentido às vezes oculto, às vezes contraditório e até inesperado das palavras?

O que mais me fascina nas palavras é que elas mudam o tempo todo, elas são vivas como as pessoas, elas nascem com um significado e passam a ter outro e depois migram para um terceiro, às vezes voltam para o significado original, elas estão o tempo todo mudando. Às vezes, as pessoas que não entendem muito de palavras, as pessoas que não estudam isso, tentam advogar por um sentido real da palavra. Às vezes, elas recorrem  à etimologia. 'Não, essa palavra não significa isso, porque ela vem de tal coisa. Ela vem do latim e tal'. E não é isso que que dá o significado a uma palavra, porque o significado de uma palavra está no uso. Uma palavra significa aquilo que acham que ela significa. E isso muda o tempo todo.

Nesse mundo de linguagem rápida e acelerada, de palavras muito descartáveis e, muitas vezes, de sentidos incompreendidos, qual a importância de prestarmos atenção à linguagem e ao que ela diz sobre o mundo contemporâneo?

O mundo é feito de palavras. Sem as palavras, o ser humano não conseguiria se organizar em sociedade. Por causa das palavras a gente conseguiu criar comunidades. A gente é regido por elas. A Constituição brasileira é um amontoado de palavras, assim como nossa certidão de nascimento, nossos documentos são palavras. Tudo é palavra e elas nos regem. A gente tem que obedecer a elas, por isso o título do livro, Aos pés da letra. A gente vive aos pés da palavra e reconhecer isso é importante. 

Se você pudesse escolher uma única palavra para representar o Brasil de hoje, qual seria? Existe essa palavra? 

Eu amo gambiarra. Uma palavra muito nossa e diz muito sobre o nosso jeitinho de resolver as coisas. As pessoas falam negativamente do jeitinho, mas o jeitinho pode ser bom também. Nosso jeitinho é também uma forma de sobrevivência. E a gambiarra é uma tecnologia. Eu também gosto de furdunço, que é a nossa capacidade de fazer festa. Quizumba e todo o léxico da bagunça, eu gosto muito. Mas eu gosto especialmente do capricho, que está no livro também. Capricho é o nosso ato de fazer as coisas com amor, com excelência, mas por quê? De onde vem excelência? Ela vem do capricho. 

Aos pés da letra tem humor misturado a reflexões profundas sobre cultura e sociedade. Qual a sua visão sobre a ponte entre humor e pensamento crítico?

Eu acho que o humor é necessariamente crítico, sempre. Você não faz humor sem bater em algo ou em alguém. Ele é uma tentativa de enxergar o mundo pela primeira vez e logo se libertar um pouco dos olhares viciados. Esse livro é uma tentativa de olhar o mundo pelas palavras pela primeira vez, como uma criança ou como um estrangeiro. Eu acho que essa é uma das funções do humor. Por isso, ele tem uma função crítica, porque a gente passa o dia, a vida tentando se acostumar com o mundo. E o humor faz você se desacostumar com o mundo. Por isso, eu gosto de misturar humor com palavras, porque é bom se desacostumar com as palavras. Nesse sentido, o humor se parece com a poesia. A poesia também é fruto do mesmo espanto, do espanto com as palavras.

 


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