
Crítica // Nós acreditamos em vocês ★★★★
Quem lembra do teor devastador e revoltante do excepcional filme francês Custódia (2017), de Xavier Legrand, pode sentir o gosto de amostra da naturalidade dos diálogos e da precisão das interpretações vistos no primeiro longa-metragem feito em conjunto pela dupla belga Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, Nós acreditamos em vocês. O longa se concentra em circunstância única: uma mãe e seus dois filhos devem, por obrigação da justiça, confrontar com o pai ausente e abusivo, sentado em frente a uma juíza.
Com agudas inteligência e sensibilidade, aos moldes de uma Audrey Hepburn, a graciosa atriz Myriem Akheddiou interpreta Alice, aparentemente frágil e exaurida para a defesa dos filhos. A guarda dos jovens está periclitante, frente à justiça implacável, numa estrutura algo imperfeita.
A família Goossens, sentada em frente à austera personagem de Natali Broods, a juíza, está esfacelada. Laurent Capelluto encara o papel do pai, dos quais os filhos Etienne (Ulysse Goffin) e Lila (Adèle Pinckers) querem apenas uma coisa: distância. Muito acertada foi a visão do júri do Festival de Cinema de Sevilha (Espanha), em que o longa rendeu prêmios de filme, atriz e roteiro.
Apequenado na duração, há contundência na montagem a cargo de Nicolas Bier, o filme revela um empenho extra para o diretor de fotografia Pépin Struye, que trabalhou um campo cênico limitado (a quase um confinamento). Enfermeira de formação, a diretora Charlotte prova entender de silêncios e de reações orgânicas demonstradas pelas personagens. Ponta virtualmente mais fraca da trama, Alice lida com o irrefutável, com um martírio interno assombroso e com a solidez de traumas inenarráveis.

Diversão e Arte
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