
Bonito — Na primeira cena, já é possível saber que Naira não é um filme comum. Dirigido pela peruana Gabriela Quiroz, figura presente nos bastidores de Hollywood, o longa venceu o prêmio de Melhor filme sul-americano pelo júri popular na 4ª edição do Bonito Cinesur - Festival de cinema sul-americano. Além disso, levou uma menção honrosa pela atuação da pequena Yaneth Calla Supo.
Na trama, a pequena Naira busca construir um par de asas para conseguir tirar a mãe dos andes peruanos, já que a mesma sofre muitos abusos nas mãos do patrão. Em meio a uma belíssima fotografia, a jovem também entra em contato com lendas locais que impulsionam a fé de uma criança que vai até o limite para salvar quem ama.
Apesar de não ser uma história autobiográfica, a diretora afirma que de muitas maneiras, o filme reflete sua história. "Assim como Naira, encontrei na minha imaginação e na minha fé a força para enfrentar uma realidade muito dura. Cresci nos Andes peruanos em pobreza extrema, vendo minha mãe lutar a cada dia para sustentar nossa família, e essa resiliência, esse amor incondicional e essa capacidade de continuar sonhando, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, são o coração deste filme", conta Gabriela Quiroz.
A história de voar para longe também esteve na infância de Gabriela. Quando jovem, colocava sacos nos braços e pulava do telhado querendo voar, em busca de conseguir escapar daquele ambiente. "Elementos como a música, as lendas, as histórias e a poesia foram ferramentas com as quais processei o mundo, e é como Naira processa sua realidade e encontra uma solução. Ela é uma menina de atitude", destaca Gabriela. A diretora também afirma que todos os personagens existiram em sua vida.
Hollywood
Na direção pela primeira vez, Gabriela Quiroz já está muito familiarizada com o audiovisual. A peruana trabalhou na equipe de efeitos visuais de filmes gigantes como Star Wars: O Despertar da Força e Star Trek: Sem Fronteiras. Gabriela acredita que ter trabalhado por trás das câmeras lhe deu experiência técnica e disciplina para encarar o trabalho de diretora, mas tomar essa posição significa assumir grandes riscos, pessoais e profissionais.
"Significa, para mim, viver com uma história interna que exige ser contada e que vale a pena ser contada, tomar decisões criativas e humanas constantemente, colaborar com uma equipe por muito tempo, conectar-se e guiar os atores, lidar com centenas de limitações e receber mil "socos" sem desistir, tudo isso enquanto tenta proteger a essência da história", reflete.
Ser uma mulher latina em uma indústria predominantemente masculina fez com que Gabriela buscasse aos poucos uma voz na direção. "Muitas vezes, não bastava ter uma visão; eu também tinha que demonstrar que entendia profundamente o ofício. Senti que deveria chegar muito mais preparada para que minha voz tivesse o mesmo peso e para que minhas decisões fossem ouvidas com confiança. Essa foi a minha realidade e, em vez de ver isso como um obstáculo, decidi transformá-lo em uma fortaleza', ressalta Gabriela.
Riqueza peruana
Toda essa experiência foi somada a uma vontade de criança de viver das artes. A peruana sempre foi apaixonada por música, teatro, escrita e interpretação e acredita que Hollywood a deus ferramentas extraordinárias. Mais do que pensar em fórmulas comerciais, aprendi que a técnica está a serviço da emoção: quando bem utilizada, ajuda o público a esquecer que está vendo um filme e simplesmente viver a história junto com seus personagens.
Se a imagem dos Andes peruanos impressiona, a beleza com que Gabriela conta sobre as histórias e a cultura do país tocam ainda mais; Para ela, mostrar a riqueza do Peru nas telas é vital. "Temos histórias, línguas, paisagens e formas de entender a vida que são profundamente únicas, mas, acima de tudo, temos um talento humano extraordinário. Penso, por exemplo, em Yanet, a menina que interpreta Naira. Sua verdade, sua sensibilidade e sua conexão com a personagem são coisas que não podem ser fabricadas. Só podem ser descobertas e acompanhadas", relata.
A diretora acredita que o elemento mais poderoso que um cineasta pode oferecer é um olhar autêntico, com histórias específicas e honestas que se tornam universais. "Além disso, penso que o cinema tem a capacidade de preservar a memória de um povo. Se Naira conseguir que uma menina andina se veja refletida pela primeira vez em uma tela, ou que alguém do outro lado do mundo descubra a beleza e a humanidade dos Andes peruanos, então sinto que o cinema já cumpriu uma de suas missões mais importantes: lançar pontes entre pessoas que, até aquele momento, pareciam viver em mundos diferentes", finaliza Gabriela Quiroz.
A repórter viajou a convite do festival

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte