Artigo

Encaixotando a Cinememória

Imaginemos o júbilo de Vladimir Carvalho ao ver o acervo do Cinememória instalado na Casa da América Latina

 Vladimir Carvalho: um dos mestres do cinema brasiliense e brasileiro
     -  (crédito:  Rafael Ohana/CB)
Vladimir Carvalho: um dos mestres do cinema brasiliense e brasileiro - (crédito: Rafael Ohana/CB)

Sérgio Moriconi

Especial para o Correio

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Você deve estar se perguntando se esse título tem alguma coisa a ver com o livro do escritor e ensaista argentino Alberto Manguel. Sim, claro que sim. Em Encaixotando Minha Biblioteca, o autor de inúmeros livros sobre leitura e bibliotecas conta algumas de suas últimas peregrinações pelo mundo, carregando os seus em torno de 35 mil volumes do seu mouseion particular. Mouseion é termo utilizado pelos gregos para se referir ao local onde se guardavam os livros, “a casa das musas, filhas da deusa Memória (Mnemosine ou Mnemósine)”. Essas considerações dizem respeito ao fato de que a “Fundação Cinememória”, criada pelo saudoso Vladimir Carvalho, seria a casa da memória do cinema de Brasília. Com a morte de Vladimir, a Cinememória ficou sem ter onde morar, já que suas instalações ficavam justamente na casa do grande documentarista.

Na Cinememória são guardados livros, mas sobretudo equipamentos, documentos e tudo aquilo que possa interessar ao estudo e documentação do cinema realizado no Distrito Federal. Vladimir criou sua “fundação” em 1994. O que ele teria em mente? Com certeza (ou muito certamente) a percepção de que o cinema realizado na nova capital tinha uma singularidade que não podia cair no oblívio, na desmemória. É compreensível a ideia de que o autor do clássico O País de São Saruê tenha se interessado pelos acontecimentos que antecederam a sua chegada a Brasília. Vladimir chega em 1970 e assume uma vaga no recém fundado Departamento de Comunicação da UnB como professor da disciplina Jornalismo Cinematográfico. O ano era 1970. A nova faculdade era um arremedo do pioneiro e revolucionário curso de cinema de UnB criado em 1965 por Darcy Ribeiro, Pompeu de Souza e Paulo Emílio Salles Gomes.

Não se pode entender Brasília nem a experimentação do curso de cinema da UnB sem colocá-los no contexto do golpe militar de 1964. Darcy Ribeiro chamou essas duas “quimeras” (vamos chamá-las assim) de “duas utopias negadas”: a de Brasília e a do curso de cinema. Mas o desprezo pelo projeto modernista da nova capital vinha de antes. O exótico presidente Jânio Quadros chamava Brasília de “o caminho das onças”. Reza a lenda que ele enchia a cacimba de caminhões com documentos históricos sobre a construção da capital e mandava enterrá-los no meio do cerrado. Para os militares, a cidade, e especialmente a Universidade, eram covas de comunistas. Os períodos vividos pelo curso de cinema, desde a fase pioneira e experimental (de março a outubro de 1965), a greve de 1967, o limbo - antes que voltasse a funcionar descaracterizado como parte do Departamento de Comunicação – tudo isso pode ser entrevisto no vasto material exposto na Cinememória.

Mais uma vez, você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o livro de Alberto Manguel. Ora, a Cinememória foi toda erigida pelo esforço pessoal de Vladimir. Como mencionado, sua sede estava instalada na sua própria casa! Durante décadas ele tentou seduzir alguma instituição que pudesse abrigar o acervo e preservá- lo. Sua menina dos olhos era (claro) a Universidade de Brasília. Em 2012 Vladimir faz um contrato de doação dos bens, documentos e obras contidas na Cinememória que, imaginem só!, incluía a casa! (repetindo aqui: a casa onde morava!). Mas não deu certo. Com a morte de Vladimir, a viúva e uma comissão de pessoas ligadas ao documentarista passam a cuidar do assunto. Tratativas com o Iphan e a UnB deram certo. Foi oferecido um espaço na Casa da América Latina, instituição ligada à Universidade de Brasília, que é real e parece ser definitiva - se vivo estivesse, imaginamos o júbilo de Vladimir com essa resolução.

Agora, sim, vamos encaixotar a Cinememória e transportá-la para sua nova casa. (Finalmente a referência a Manguel) O autor argentino diz que toda biblioteca é autobiográfica e que cada vez que a encaixotamos e a desencaixotamos novos sentidos aparecem. Podemos dizer o mesmo da Cinememória. O que teria feito Vladimir fazer as associações que fez entre os diversos itens da sua fundação assim e não assado? Ele era o que se pode chamar de um colecionista. “Guardo até papel de bala”, dizia. No seu mini “Atlas Mnemosine” (fazendo aqui referência ao historiador Aby Warburg) de coisas, registros e documento, inúmeras considerações históricas e pessoais – discrepantes ou não - vão poder ser feitas em relação àquilo imaginado pelo seu criador. Por exemplo, enquanto Warburg pretendia fazer uma titânica relação entre imagens de diferentes épocas históricas, escolas pictóricas, distintos estilos individuais, e descobrir ali um padrão atemporal, a heteróclita coleção de Vladimir de alguma forma diz algo sobre sua trajetória pessoal, sobre a história do cinema de Brasília e, em parte, sobre o cinema brasileiro de um modo geral.

Escarafunchando a Cinememória, muitos caminhos vão poder ser abertos para a compreensão da história não-canônica dos cinemas desenvolvidos em Brasília e mesmo dos interesses e da compreensão da vida e do pensamento de Vladimir. Ao dedicar várias páginas de sua obra ao “colecionismo”, o filósofo alemão Walter Benjamin costumava dizer que o colecionista, ao mesmo tempo que traduz, subverte as ideias e conceitos institucionalizados (normatizadores), sobre as coisas e a cultura. Os colecionistas seriam “advinhos do destino”. Benjamin se perguntava qual seria a relação que se estabeleceria entre as memórias do colecionista, a memória coletiva e a memória dos livros e documentos academicamente legitimados (aqueles canônicos). Na última edição do CineOp, em julho, em Ouro Preto, foi realizado um Encontro de Arquivos; em uma das mesas se discutia um tema sob o seguinte título: “Gestos de Guardar, Práticas Individuais e Construção do Patrimônio”.

São justamente essas questões que se colocam quando se discute a Cinememória, o seu lugar no contexto histórico e no estabelecimento das crenças, verdades e visões do que ela desvela. As descobertas e os caminhos podem ser surpreendentes. Vejam o caso do Museu Histórico Municipal de Paracatu. Há anos pesquisadores trabalham para estabelecer quais seriam as famílias pioneiras do lugar. As famílias que ocuparam primeiro a região, o território, por fim, a cidade. Uma tarefa daquelas!, mas factível depois que foram reunidos papeis com os registros das marcas e ferraduras dos animais (cavalos e gado), cujas iniciais indicavam seus proprietários. Da mesma maneira, o colecionista segue o seu Norte. Ele é um receptor ativo, porém subjetivo. Agora nos cabe a tarefa de “desencaixotar” a Cinememória, instalando-a na sua nova casa. Quantas coisas podemos entressonhar (sempre pensando em Vladimir) ao colocar objetos e documentos seguindo as “pegadas” do que pensamos ser o seu devido lugar.


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postado em 05/08/2026 14:07
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