Música

Em entrevista, Gaby Amarantos fala sobre o disco Rock doido

Gaby Amarantos celebra a força da cultura paraense e apresenta o rock doido ao Brasil

O disco representa as festas de aparelhagem do Pará
 -  (crédito: Cris Vidal/Divulgação)
O disco representa as festas de aparelhagem do Pará - (crédito: Cris Vidal/Divulgação)

A faixa que abre Rock doido, álbum mais recente da cantora paraense Gaby Amarantos, deixa um recado: "Te prepara, o que tu vai escutar agora não é apenas som. São frequências sonoras capazes de reorganizar teu sistema molecular". Apesar do nome, o disco não tem relação com o rock tradicional — a expressão que dá título ao trabalho representa o movimento das festas de aparelhagem do Pará, que misturam batidas eletrônicas aceleradas do tecno brega, tecno funk e tecmelody em remixes intensos. O projeto que transforma a energia frenética dos eventos do Norte em música foi responsável por alavancar a carreira da cantora a outro patamar, além de levar a cultura amazônica para o resto do país.

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Ao Correio, Gaby explicou a declaração que dá o pontapé inicial no álbum. "No disco, temos algumas mágicas da música, alquimias que fazem elevar a frequência das pessoas. Todo mundo que escuta essas faixas ou assiste ao show sai mais feliz, mais eufórico", garante a paraense. "O Rock doido é um projeto grandioso, porque ninguém imaginou que, do Norte do Brasil, sairia algo tão diferente", pondera a cantora.

A sensação de que ali surgia algo especial vem desde o momento em que as gravações do álbum foram finalizadas, conta Gaby. "Eu sentia no meu coração que aquilo seria revolucionário, porque, além de ser diferente, os brasileiros estavam sedentos por novidades. Eles esperavam isso tanto de mim quanto da cultura periférica amazônica", afirma a artista. "E é assim que a gente tem conseguido trazer a cultura da aparelhagem para o resto do Brasil, além de nomenclaturas, gestos e outras vnovidades que as pessoas não conheciam. Elas estão enlouquecidas com isso", ri.

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Gaby não usa a palavra "revolucionário" por acaso. Para ela, o rock doido apresenta ao país um novo ritmo. "Há muito tempo, vejo pessoas falando coisas como "nunca mais teremos novos movimentos musicais brasileiros", comparando com a tropicália e o manguebeat, por exemplo. Essas pessoas realmente não têm conhecimento do que a gente está fazendo", diz a paraense.

Artista independente, a cantora celebra que, mesmo com orçamento limitado, foi capaz de criar "algo extraordinário, em um mercado em que tudo é igual". "A gente só vê músicas que falam de pornografia e ritmos que já conhecemos, sem dar espaço para a periferia criar coisas novas. Por isso, eu sinto o rock doido como uma revolução da música brasileira. E eu acho que ele ainda vai crescer, porque tem muita gente que vai descobrir esse movimento", aposta a cantora.

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Gaby, porém, faz questão de dizer que não criou o rock doido. Ela se vê como uma plataforma que leva o movimento para além do Pará. "Ele queria muito nascer, só estava esperando uma mãe", brinca a paraense. "Era algo que já existia e estava acontecendo em Belém, que surgiu na periferia. Eu só tive a felicidade de conseguir enxergar e poder traduzir aquilo", resume a artista.

A tecnologia e modernidade por trás do Rock doido, segundo Gaby, são reflexo do que a periferia amazônica produz. "É a nossa entrega mais real. E eu quero que as pessoas olhem para esse movimento e entendam que ele é brasileiro. E que elas se enxerguem nele também", deseja a cantora. "É uma música brasileira, não regional. É uma tecnologia nacional inventada com muita criatividade", resume a paraense.

Orgulho

Reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Pará desde 2024, Gaby avalia que o sucesso de Rock doido se deu por ter surgido no momento certo. "No ano passado, nós do Pará estávamos sofrendo muita xenofobia. As pessoas diziam que a gente não ia conseguir entregar a Conferência das Partes (COP) e todos os dias víamos notícias de preços abusivos de hotéis. O Brasil não acreditava que seríamos capazes de fazer esse evento", lembra.

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Foi nesse momento que a cantora decidiu mostrar para o resto do Brasil "do que o Pará era capaz". "A gente precisava mostrar para o mundo o que a gente estava fazendo com essa potência que é o Norte", afirma Gaby. "Precisamos olhar para o que acontece em Parintins, por exemplo, mas também temos que ver o que há além. Não é só aquilo. Recentemente, tivemos o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, declarados como patrimônios culturais do mundo", pontua a cantora. "Temos uma cultura muito ímpar, que as pessoas têm que conhecer. Todo mundo precisa vir para cá para tomar um tacacá e ir em uma festa de aparelhagem", reforça.

Vencedora do Grammy Latino, Gaby também se vê "um pouco antropóloga". "Vou para os lugares e quero saber o que está acontecendo em cada cidade, o que eles comem, o que escutam..", narra. "Quero conhecer cada vez mais a cultura brasileira e também quero apresentar para as pessoas o meu Brasil. E o rock doido é o meu país", finaliza a cantora.

 


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postado em 11/08/2026 11:01 / atualizado em 11/08/2026 11:09
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