
Quando estava na faculdade, Fernando Rovzar foi profundamente marcado pela fala de um de seus professores: "Filmes contam histórias, enquanto séries contam as histórias dos personagens". Por isso, quando entrou em contato com a trajetória das primeiras mulheres a se tornarem policiais no México, o diretor sabia que não poderia contá-la em apenas duas horas. Assim surgiu Mulheres de azul, série da Apple TV que chega à 2ª temporada e narra a jornada de quatro pioneiras da força policial mexicana em busca de crescimento pessoal e mudança social na realidade patriarcal dos anos 1970.
Baseada em acontecimentos reais, uma história que tem como pilar o empoderamento feminino ser criada por uma dupla de homens pode, à primeira vista, causar estranhamento. No entanto, Fernando conta que as protagonistas da produção mexicana — Bárbara Mori, Ximena Sariñana, Natalia Téllez e Amorita Rasgado — foram essenciais para a criação do enredo. "Quando elas foram selecionadas para o elenco, eu ainda não tinha terminado de escrever o roteiro, então pude conversar bastante com elas sobre as personagens. Ouvi os relatos pessoais de cada uma e incorporei elementos de suas vidas à ficção", explica.
Apesar de ter à disposição uma sala de roteiro repleta de homens e mulheres experientes, Fernando deu prioridade àquelas que dão voz às personagens. "Foi incrível ouvir o que elas tinham a dizer. Isso promoveu um ambiente muito mais colaborativo, nos afastando da dinâmica de 'eu mando e você faz' e nos aproximando de uma abordagem 'fazemos tudo juntos'", relata o showrunner de Mulheres de azul.
Entre os episódios da 2ª temporada, Fernando destaca o crescimento da protagonista María, agora tenente da polícia. "Acredito que a evolução dela consiste, principalmente, em se libertar das ideias que a sociedade lhe impôs sobre como ela deveria ser, falar, viver e se comportar. Ao final da 1ª temporada, ela decide deixar essas noções preconcebidas para trás e embarcar em uma jornada para descobrir quem realmente é", resume o diretor. A personagem é interpretada por Bárbara, a eterna Rubi, e também esposa do showrunner.
Para ele, a atriz passou por algo semelhante na vida pessoal, justamente após o fim da novela mexicana que fez um sucesso estrondoso em 2004. "Ela também viveu um momento de despertar, no qual decidiu que parte de si permaneceria ligada àquilo e que parte seguiria uma direção diferente. Ela iniciou, de certa forma, uma busca pela sua própria voz, o que acredito que realmente me ajudou a moldar a personagem María", revela Fernando. No Brasil, Rubi já foi exibida cinco vezes pelo SBT — a mais recente ocorreu no início deste ano.
"A María certamente passou por uma bela evolução", concorda a atriz. "Na primeira temporada, ela começou como uma mulher que vivia para os outros e para atender a expectativas, tentando ser a mãe e a esposa perfeitas e cumprindo todos os papéis que a sociedade esperava dela, com base na sua própria compreensão. Mas, ao entrar na polícia, ela descobre que também pode ser uma grande investigadora, que pode confiar nas suas decisões e que o seu valor não depende da aprovação dos outros", declara a protagonista.
Bárbara afirma que participar da série tem sido uma jornada "verdadeiramente linda", especialmente nesta 2ª temporada, que traz um desafio significativo para ela. "Até que ponto vivemos para fazer os outros felizes e em que momento começamos a ouvir verdadeiramente a nossa voz interior para que nós possamos ser felizes? Precisamos levar essa conversa a público, não apenas para a sociedade mexicana, mas para o mundo todo", incentiva a artista.
A atriz, que foi abusada pelo pai durante a infância, diz que cresceu à espera de uma validação externa. "Tentava encontrar um espaço seguro dentro dos moldes que a sociedade me permitia. Passei muito tempo tentando me encaixar", lamenta a mexicana. "É por isso que me identifico tanto com a María. Porque ela entra para a polícia e descobre que tem uma voz e que pode usá-la, pode desafiar a autoridade e pode acreditar em si mesma e em suas decisões. Algo parecido aconteceu comigo também, ao longo da minha jornada", compara.
Laços sul-americanos
Em Mulheres de azul, a produção não só se baseia em acontecimentos reais ao contar a história das protagonistas, como também ao ambientar o México da década de 1970. Na nova temporada, as protagonistas irão investigar o Massacre de Tlatelolco, no qual centenas de estudantes foram mortos a tiros pelo Exército durante um protesto pacífico, pouco antes do país sediar as Olimpíadas de 1968.
Para Fernando, o Brasil é exemplo quando se trata de criar produções que trazem o passado para o centro das atenções. "É um país que consegue promover a conscientização de modo que as pessoas possam seguir em frente e perdoar a si mesmas. Em contrapartida, sinto que o México tem desempenhado um papel de esconder o seu passado, especialmente em relação à repressão aos estudantes nas décadas de 1960 e 1970", opina o diretor.
Fã das produções nacionais, Fernando revela que foi às lágrimas ao assistir a O agente secreto, de Kléber Mendonça Filho. "Senti como se estivesse assistindo a um filme mexicano. Em outras palavras, quero dizer que compartilhamos muitas das mesmas feridas, com governos autoritários e perseguições a pessoas que simplesmente tentam dar o melhor de si e dizer a verdade. Por isso, acredito que ainda temos muito a aprender no México, e acho que nossos irmãos brasileiros nos dão um bom exemplo", elogia o showrunner.
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, Tropa de elite, de José Padilha, e a série O mecanismo, também de Padilha, são outras produções nacionais que marcaram o diretor mexicano. "Eu assisto a muito conteúdo do Brasil, porque me sinto mais conectado ao país ao ver produções como essas, e não produtos brasileiros genéricos", explica. "Da mesma forma, acredito que o México não pode produzir histórias vagas e abrangentes, elas precisam ser autenticamente mexicanas e exportadas com nossa identidade plena", analisa.
"Quanto mais histórias vierem à tona e quanto mais disposto o governo estiver de compreender que a vulnerabilidade conduz à reconciliação, mais bem preparados estaremos para o que está por vir", finaliza o mexicano.

Diversão e Arte
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