
Ainteração entre homem e natureza é o tema de Selva elétrica, exposição que traz à Caixa Cultural uma instalação sonora criada por Vivian Caccuri e com curadoria de Bernardo José de Souza. A obra faz parte de uma pesquisa desenvolvida pela artista há mais de 10 anos que tem como centro a investigação o mosquito, espécie ancestral e que habita tanto o espaço urbano quanto as florestas.
A obra, segundo o curador, é um convite para o público exercer os sentidos e a percepção para além da mera visão. "A visão é o sentido primordial, mas além dele percebemos o mundo por meio da audição, do tato e do olfato. E a Vivian, a partir do som, vai exigir algo que está muito menos mediado pela razão. Ela constrói uma atmosfera, não somente uma obra visual. O público é tomado por um ambiente que, para além de cor e volume, envolve sonoramente a audiência com essa sinfonia de mosquitos que ela constrói como se fosse uma trilha sonora", explica Bernardo.
Dois aspectos levaram Vivian a se interessar pela pesquisa sobre o mosquito. Um deles foi o mosquiteiro, rede muito usada no Norte e no Nordeste para isolar ambientes da presença do inseto. "Comecei a pensar mais sobre esse material, como ele é usado na arquitetura, e acabei vendo alguns projetos do começo do século, como hotéis totalmente cobertos por uma malha parecida. Aí, comecei a pensar na presença do mosquito", explica a artista. Outro ponto de partida foi a sonoridade característica produzida pelas muriçocas. "Também pensei nesse som e quis investigar porque é tão incômodo, porque todo mundo odeia", conta.
A artista partiu, então, de uma pergunta muito simples — "por que o som do mosquito é odiado?"— para delinear outros lados e ângulos, criando um fractal de fatos que giram em volta do inseto. O resultado está nas instalações, desenhos, pinturas e objetos reunidos na exposição. Os mosquitos, Vivian acredita, representam muitas questões políticas e sociais do país. Algumas espécies chegaram ao continente trazidos em navios que transportavam escravizados durante a colonização. São, também, símbolo da imposição e da circulação humana pelo planeta. Além disso, são facilmente relacionados a doenças, sujeira e pobreza, outro aspecto social da simbologia que envolve o animal.
A artista aposta ainda na questão da sonoridade incômoda emitida durante os voos. "Eu acho que tem um nível muito instintivo de autopreservação, muito ligado a uma história de precariedade, de pobreza, da qual o mosquito é um significante", explica. Esse conjunto de reflexões foi traduzido nas obras. Há bordados em cima de um mosquiteiro, uma animação digital feita com base no desenho do inseto, uma instalação sonora realizada com o som de mosquitos captado na Fiocruz e na Universidade do Paraná, fruto de uma pesquisa científica. "Essas pessoas da Universidade do Paraná conseguiram captar mosquitos individualmente, que é algo extremamente difícil do ponto de vista técnico, porque eles não param quietos, são muito pequenos, o microfone não capta o som", avisa Vivian, que também utilizou o som de uma nuvem de mosquitos para gerar o zumbido de uma das instalações. "Fiz toda a parte dessa composição generativa dos efeitos, filtros e movimentos que geram uma sonoridade mais trabalhada. Essa nuvem é como se fosse um arco-íris de frequências."
Vivian compara as frequências sonoras geradas por uma nuvem de pernilongos ao espectro completo de cores e propõe ao público escutar o resultado. "Eu quis emular um pouco esse caos que é o movimento e o som, que você não sabe muito bem de onde vem, para onde vai, quando acontece e quando te arrepia. Isso me inspirou para criar uma movimentação de sons ao longo da galeria e também para a gente se sentir dentro de uma nuvem de mosquitos sem necessariamente estar ali exposto sendo picado", diz.
A ideia dessa instalação sonora é fazer com que o público se sinta do tamanho do inseto. Ao agigantar o barulho da nuvem, que geralmente é dezenas de vezes menor que o proposto na obra, a artista coloca o visitante no centro de uma revoada e muda a perspectiva sonora da experiência.
A sonoridade é importante na exposição porque Vivian acredita que o inseto representa uma espécie de outro. Em Palmo Sangue e Locust, ela explora um hiperzoom nas frequências sonoras unidas a uma visão gráfica do som criada a partir de ferramentas capazes de gerar imagens a partir da sonoridade. Também há desenhos nos quais Vivian cria espécies de híbridos de seres humanos com insetos que resultam em composições abstratas, mas também em figurações. E em um vídeo, ela faz um ensaio visual a partir do corpo imaginado e memorizado do mosquito. "Eu acho que já memorizei ele quase perfeitamente de tanto que já desenhei", revela.
Para o curador Bernardo José, as obras têm um aspecto onírico que exige do visitante um mergulho sensorial. "Tem algo de febril, aquele estado em que a gente perde um pouco a percepção da realidade. A Selva elétrica tem isso, de construir um ambiente que são emaranhados de cabos que lembram um pouco os cipós numa mata, aludindo metaforicamente a um confronto entre o ambiente selvático e o urbano, entre o humano e o não humano", diz.
Selva elétrica
Exposição de Vivian Caccuri.
Curadoria: Bernardo José de Souza.
Visitação até 22 de novembro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na CAIXA Cultural Brasília (Setor Bancário Sul Q. 4 - Asa Sul).
Classificação Indicativa livre.
Entrada gratuita

Diversão e Arte
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