
*João Lanari e Pablo Gonçalo
Especial para o Correio
Causou estranheza a exclusão do filme "Honestino" no Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É raro ver uma produção de conteúdo político consistente e de qualidade em nossas telas, para além de registros oficiais e voltado ao resgate de uma voz que foi o símbolo máximo da resistência estudantil contra a ditadura militar no Centro-Oeste. "Honestino" fala da história de Brasília, não apenas de eventos como a invasão militar ao câmpus da UnB — motivada para cumprir um mandado de prisão contra Honestino e outros sete estudantes — como também do núcleo familiar e próximo que moldou a trajetória do líder estudantil.
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Vencedor de vários prêmios no 20º Festival Aruanda, incluindo o Troféu Vladimir Carvalho e a melhor montagem, "Honestino" insere-se na tradição do documentário performático ou híbrido, em que a fronteira entre a realidade e a encenação é dissolvida para criar uma experiência sensorial e poética.
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Não se trata de mera reconstituição ilustrativa: articulando material de arquivo (a atmosfera do medo), depoimentos (a memória viva) e cenas dramatizadas com Bruno Gagliasso (a presença do invisível), a montagem produz um efeito de fluidez no espectador condizente com a vertigem digital do mundo em que vivemos, saturada de informações, falsas e verdadeiras.
A presença física de Gagliasso serve para dar corpo ao homem clandestino. Ele habita os silêncios que os arquivos não registraram: o ato de escrever uma carta na penumbra, o caminhar pelo subsolo do Minhocão da UnB e a vida no apartamento no Rio. A encenação funciona como ato político de reparação visual: ela devolve a imagem e o movimento a quem o Estado tentou invisibilizar.
O material de arquivo funciona como o chão histórico da narrativa. Cartas reais, poemas e relatórios do Dops dão o tom de urgência política. Fotos antes e durante seus anos na Universidade de Brasília, cartas pessoais e poemas escritos, além de registros genéricos de passeatas, confrontos, prisões e a repressão policial dos anos 1968 a 1973 contextualizam a época.
E os depoimentos trazem a verdade emocional e factual, não apenas para contar a cronologia dos fatos, mas para guiar a imaginação do espectador e validar a tragédia que a história oficial tentou apagar.
O correto, e mesmo o óbvio ululante, como dizia Nélson Rodrigues, seria convidar o filme para sessão de encerramento do Festival. Ganhariam a cidade e, sobretudo, a Universidade de Brasília.
*João Lanari e Pablo Gonçalo são professores de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

Diversão e Arte
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