CINEMA

Longa Honestino é tema de debate com Bruno Gagliasso nesta quarta

Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, chega aos cinemas com atuação de Bruno Gagliasso e depoimentos de amigos e familiares do líder estudantil

Durante a ditadura militar, a Universidade de Brasília foi alvo preferencial. Entre 1964 e 1985, estudantes da instituição utilizaram o espaço para se posicionar contra o regime de exceção e alguns nomes lideraram a frente estudantil. Honestino Guimarães foi um deles. O estudante de geologia ingressou no movimento por meio da Ação Popular (AP) e foi preso quatro vezes antes de ser eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub). A invasão da Universidade em 1968, nos anos de chumbo, foi impulsionada por um mandado de prisão contra Honestino e outros líderes. Quando virou presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Honestino já havia se formado e estava vivendo de forma clandestina em São Paulo. A trajetória de Honestino está condensada no longa-metragem de Aurélio Michiles, que estreia nesta quinta-feira (13/8), mas será debatido nesta quarta (12/8), em desdobramento de sessão das 19h30, no Cine Cultura do Liberty Mall. Além do diretor, estarão presentes Bruno Gagliasso (protagonista do filme), o produtor Nilson Rodrigues e a presidente da UNE Bianca Borges.

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O trauma está presente nos acontecimentos revisitados. Em 1973, Honestino Guimarães foi preso no Rio de Janeiro e morto. Toda história deste nome forte da UnB vem compactada no novo filme de Michaelis, que era amigo de Honestino, desde os corredores da UnB. Em uma mistura de ficção e documentário, o longa tem Gagliasso no papel-título e une depoimentos de familiares e parceiros de luta do líder estudantil.

Ver a UnB estampada nas telas foi uma emoção a mais para o diretor. "Eu quase morro. Foi uma experiência de trazer de dentro algo que estava engasgado por décadas. É um projeto familiar. Eu estudei na UnB, mas na época do Honestino era secundarista. Havia um movimento de massa estudantil. Acabei ficando amigo dele até o início de sua vida clandestina", revela. Aurélio conta que, como realizador, sentiu que deveria testemunhar contra as ameaças vividas e mostrar a história de um jovem que deu a vida pela liberdade e pela educação pública. "Honestino foi o primeiro lugar no vestibular e o melhor aluno de geologia; ele tinha potencial para ser presidente ou um grande cientista, mas dedicou tudo para revolucionar o mundo", afirma.

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Bruno Gagliasso tem escolhido seus projetos a dedo e achou necessário interpretar Honestino nos dias atuais. Em entrevista ao Correio, o ator fala sobre a importância do líder estudantil, como vivenciou as gravações e a marca de Brasília nas telas.

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Entrevista //Bruno Gagliasso, ator


A Universidade de Brasília é uma personagem em Honestino. Como foi gravar nesse espaço tão marcante para a história?

Foi muito emocionante porque a faculdade ainda está lá. O Aurélio viveu tudo aquilo ao lado do Honestino. Ver a emoção dele dirigindo aquelas cenas, a importância de contar essa história que ele também viveu, foi algo que me deixou arrepiado. Eu entrei no filme por um convite do Sérgio Machado, que me apresentou ao Aurélio após ele ter me visto em Marighella. Ele me contou a história toda e eu topei na hora, porque isso é muito importante para mim como ator e como ser humano: estar do lado certo da história, já que eu estive do lado mais sombrio da história interpretando o papel em Marighella. Foi emocionante, cara. Emocionante! Espero que a história do Honestino possa chegar a vários jovens.

Como vê o misto de documentário e ficção numa mesma obra?

Acho muito forte. É uma mistura que rompe fronteiras. Há a verdade do documentário, que ganha com mais emoção. E a ficção, acho que se fortalece e traz para o agora essa história real. Isso aproxima muito o público da história que foi vivida e que tentaram calar. Você não precisa escolher entre a verdade e a arte. Você embarca. É muito potente, principalmente pela forma com que o Aurélio Michiles (diretor) conduziu essa simbiose entre verdade e e ficção.

O que tem de você no Honestino das telas?

Eu acho que todo mundo que luta e quer mudar o mundo é um pouco Honestino. Vocês que estão aqui também são um pouco Honestinos, tenho certeza. O Honestino, na verdade, era um jovem comum. Foi isso que eu quis mostrar quando aceitei o papel: estudando, vi que ele era um jovem como qualquer outro, que foi às ruas, há pouco tempo, lutar por tudo isso. Então, todos nós somos Honestino. Basta pensar no outro, no coletivo, e querer mudar o mundo. Fui estudar a história, ler as cartas e ouvir as músicas. Eu não tentei criar nada, tentei viver o personagem. Eu também acredito na democracia, na liberdade, na educação e na saúde. Foi um processo de dentro para fora, e acho que isso transpareceu na tela. Por isso, as pessoas se emocionam, mesmo sendo um documentário.

Quem próximo a ele te abasteceu de dados e elementos para a interpretação?

O Aurélio (cineasta), sem sombra de dúvidas, companheiro de militância, um cara com os mesmos princípios éticos, com a mesma força serena e um grande diretor. Eu conheci a família e os amigos do Honestino depois, e durante as filmagens. É uma história muito forte. E que estava dentro de mim. É isso que eu busco, são histórias assim que gosto e quero contar. Fui (na construção do personagem) pelo afeto e pela dor. Acho que foi um afeto e uma dor que me ajudaram a entender o homem Honestino. O ser humano honesto que está por trás de tudo que ele representa: este símbolo de luta pela liberdade, por educação e por democracia.

O que você aprendeu sobre o Brasil com o Honestino que o Aurélio apresentou e com o que você criou?

Aprendi que eu não estava fazendo apenas um filme sobre a história, mas sobre um homem, um garoto que tinha mãe, amigos, que amava, escrevia poesia e tinha uma relação com o pai. Essas figuras históricas eram humanas, e eram tão humanas que lutavam por nós. Era sobre essa humanidade que eu queria falar. Meu papel é o de qualquer pessoa engajada com o seu país, com a democracia e com a verdade. Se posso trazer as pessoas para conhecerem a própria história, meu dever como artista é esse: trazer à tona o que, de fato, aconteceu. Tentaram apagar a história desses jovens, mataram o corpo, mas não o espírito. Muita gente não conhecia o Honestino Guimarães. Meu papel é dar luz a isso. Temos que nos apropriar da nossa história e valorizar essas pessoas que desapareceram durante a ditadura.

Colaborou Ricardo Daehn

 


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