
O comum é que artistas construam suas próprias carreiras, mas há casos em que, ao longo dela, também ajudem a consolidar o próprio campo em que atuam. Yara de Novaes é uma desses casos. Aos 60 anos, completados em 25 de agosto, a atriz, diretora e professora atravessa um dos momentos mais expressivos de uma trajetória iniciada nos palcos de Belo Horizonte e consolidada como uma das referências do teatro contemporâneo brasileiro.
A celebração das seis décadas de vida acontece quando a virginiana colhe os frutos de uma trajetória marcada pela pesquisa, pela inquietação e pela recusa em permanecer em um único lugar. O teatro continua sendo sua casa, mas o cinema amplia sua projeção.
Em Malu, dirigido por Pedro Freire, Yara encontra uma personagem que parece condensar experiências de uma geração de atrizes brasileiras: uma artista que enfrenta o desemprego, as frustrações, os afetos e os fantasmas de uma vida construída entre a criação e a sobrevivência. A atuação no longa de 2024 lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no festivais do Rio e Internacional de Cinema do Cairo, além de reconhecimento em outras premiações.
A personagem, embora inspirada em uma história real, não fica aprisionada a ela. Yara destaca justamente essa transformação. "Quando você lida com a arte, é muito importante que, de alguma maneira, entre aspas, você falsifique essa realidade para que aquilo vire uma obra independente", afirma. "Há uma essência na personagem da Malu que todas nós, atrizes brasileiras com mais de 50, que temos o teatro como nossa base e razão principal, conseguimos acessar. Portanto, há, sim, algo de nós todas em Malu", deduz Yara, com uma identificação que ajuda a explicar a visceralidade de sua atuação.
Depois de décadas dedicadas sobretudo ao teatro, a artista encontrou no cinema um espaço para deixar que a câmera registre aquilo que os palcos lhe ensinaram a elaborar: presença, escuta, silêncio e verdade. E o reconhecimento internacional de Malu chega em um momento em que Yara também expande sua presença no audiovisual. Ainda no campo da vida como ela é, a atriz se voltou para uma história que conhece desde a infância. Mineira como a personagem e como parte da memória coletiva em torno do caso, ela integra a série sobre Ângela Diniz, da HBO, interpretando a mãe da protagonista (Marjorie Estiano).
A experiência reforça uma preocupação que acompanha seu trabalho diante de histórias reais: como transformar tragédias em arte sem transformar a dor em espetáculo. Para Yara, a resposta passa pela complexidade. "É muito importante, primeiro, que você não revitimize as pessoas ou as famílias. Você também não fique glamorizando os crimes, os criminosos", defende. Uma obra pode abordar uma tragédia, acredita, desde que problematize os acontecimentos e seus personagens em vez de explorar a dor alheia como mercadoria.
Atualmente, Yara pode ser vista em Emergência 53, série médica do Globoplay, onde interpreta a protagonista Irene, coordenadora de uma unidade de resgate móvel. A personagem exige outro tipo de atuação: o corpo e a voz precisam transmitir a urgência de situações extremas sem transformar a médica em alguém dominada pelo pânico. Para construir essa precisão, o elenco passou por uma preparação supervisionada pelo médico Márcio Maranhão, criador da série, e por profissionais ligados ao Samu.
"Você tem que entender mais além de mimetizar essas ações médicas, você tem que entender por que que você fez", explica. O treinamento envolveu médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e profissionais que atuaram como socorristas. Para Yara, compreender o sentido de cada procedimento foi fundamental para que a ação não se reduzisse a uma coreografia. Irene também carrega uma dimensão política que a atriz considera especialmente importante: a defesa de um sistema público de saúde estruturado e capaz de garantir dignidade à população. "Eu tenho maior honra de ter uma personagem assim, com essa conduta política, moral, ética", comemora.
A arte dos encontros
A presença simultânea no streaming e no cinema não significa, contudo, um afastamento do teatro. Pelo contrário. É nos palcos que Yara constrói boa parte de sua identidade artística e onde sua trajetória como diretora ganha dimensão própria. Um dos encontros mais importantes dessa caminhada é com a atriz Débora Falabella e a premiada dramaturga Silvia Gomez. Ao lado das conterrâneas, desenvolve uma parceria baseada na pesquisa permanente e na disposição para experimentar o desconhecido.
A parceria também está associada a um dos grandes sucessos recentes do teatro brasileiro. Como diretora de Prima Facie, espetáculo estrelado por Débora Falabella, Yara conduz uma montagem que conquista público e crítica e amplia sua coleção de reconhecimentos. A direção lhe rendeu prêmios importantes, entre eles o APTR e o Bibi Ferreira. Em outro extremo da experiência teatral, ela dirige Mudando de pele, solo protagonizado por Taís Araújo, pelo qual recebeu indicação ao Prêmio Shell de Melhor Direção em 2026.
A presença de Débora e Taís em sua trajetória ajuda a revelar uma característica fundamental de Yara: sua capacidade de construir teatro a partir do encontro. Não se trata apenas de colocar atores em cena, mas de criar condições para que eles descubram algo que ainda não conhecem. Como atriz, diretora ou produtora, ela se mantém interessada pelo processo tanto quanto pelo resultado: "A coisa que eu mais gosto é desligar esse botão de diretora quando eu estou atuando, mas eu gosto de conversar, perceber como os diretores e diretoras estão construindo sua linguagem, quais são os signos ou a poética deles. É uma troca entre artistas".
Essa inquietação também explica por que Yara demorou a ocupar o audiovisual com a intensidade que hoje apresenta. Embora tenha mais de quatro décadas de carreira artística, sua presença diante das câmeras se consolida apenas nos últimos anos. Durante cerca de 30 anos, ela conciliou a atuação com a docência, o que restringia a disponibilidade exigida por cinema, televisão e séries. A entrada aconteceu quando Yara havia passado dos 50 anos. O que poderia parecer um início tardio transforma-se, na prática, em uma nova etapa de reconhecimento. Vieram trabalhos no cinema e nas séries e, em 2021, a primeira e única novela, Um lugar ao sol, da TV Globo — "um gênero que exige muita disponibilidade".
"Lugar de devoção"
Diante deste momento histórico para o Brasil no exterior, com o reconhecimento internacional de produções como Ainda estou aqui e O agente secreto, Yara destaca que o cinema brasileiro, de modo geral, sempre falou muito da nossa história. "Canudos, do Sérgio Rezende, depois aquela retomada de Carlota Joaquina. Você pensa, o Bye Bye Brasil, do Cacá Diegues, é um aspecto brasileiro — se ele não é documental, é um retrato de um Brasil muito profundo. Os próprios filmes do Glauber Rocha. Eu acho que a gente tem produções incríveis, os filmes do Silvio Tendler, os documentários do Eduardo Coutinho. Se a gente quiser conhecer o Brasil, é possível conhecer o Brasil através do cinema brasileiro", argumenta.
Essa mesma compreensão é a base de sua defesa do teatro como espaço de pensamento. Em um país no qual a cultura ainda enfrenta dificuldades de financiamento e manutenção, ela considera lenta a retomada do setor depois dos anos de desmonte. Grupos perdem sedes, estruturas desaparecem e a produção permanece vulnerável. Para ela, o desafio é fazer com que a cultura deixe de ser tratada como "cereja do bolo" e seja reconhecida como um dos pilares do país. "Era para a gente estar sendo muito mais reenergizado, mas não", almenta.
É uma defesa que nasce de quem conhece o teatro por dentro. "Teatro é o primeiro lugar do ator. Realmente, ele é o lugar estrutural. É o lugar onde a gente nasce, e é o lugar da devoção", afirma. A força do palco, diz, está no encontro físico entre quem atua e quem assiste. Não há tela ou dispositivo entre os dois, mas respiração, presença e risco. Entre o palco e a câmera, Yara permanece fiel àquilo que talvez seja seu maior princípio artístico: a disposição para procurar o que ainda não conhece. Aos 60, a celebração não está apenas no que já realizou, mas no fato de que ainda existe muito por descobrir.

Diversão e Arte
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