
A segunda metade do ano de 1987 foi especial no Rio de Janeiro. Um navio de bandeira panamenha, vindo da Austrália, despejou no mar centenas de latas lacradas contendo toneladas de maconha. Cada lata comportava 1,5Kg da droga, que seria distribuída, supostamente, nos Estados Unidos. Diante do alerta de uma fiscalização, a tripulação se livrou do produto, que foi transportado pelas correntes marítimas para as praias brasileiras. Tudo começou em setembro, mas se estendeu até os primeiros meses de 1988 no que ficou conhecido, no Rio, como “o verão da lata”. Banhistas, pescadores e aventureiros que acharam as latas fizeram delas algum uso ou proveito enquanto a polícia tentava acabar com a excitação geral apreendendo a mercadoria. O episódio, curiosamente, ainda não havia aparecido em filme até Santiago Dellape se dar conta de que renderia um excelente roteiro e daí saiu O verão da lata, que encerra hoje o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
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O projeto do longa começou a tomar forma em 2014. “Foi quando a gente falou, a primeira vez, vamos fazer”, lembra a produtora Larissa Rolim. “E quase 10 anos se passaram entre a ideia e a captação de recursos, até que, em 2018, a gente ganhou o FAC, que foi o start money para arranjos regionais.” Com R$ 2,2 milhões, a equipe começou a trabalhar no argumento e na viabilização do filme, que conseguiu parceria com a Warner e a HBO. “A gente sabia que o argumento era forte e a gente teve paciência para o melhor arranjo possível. O filme tinha um potencial por si só”, conta Larissa.
O episódio das latas de maconha é o pano de fundo da história contada no filme, cuja inspiração e referências estão ancoradas nos filmes policiais dos anos 1980. No roteiro, Brasa (Babu Santana) e Sandra (Samantha Schmütz) são dois policiais encarregados de investigar o paradeiro das latas de maconha, mas que desviam um pouco do caminho legal diante de enormes tentações. “É uma história completamente ficcional, construímos mesmo os personagens”, avisa Camila Ciolin, também produtora do filme. “Uma ou outra coisa foi como aconteceu na história real, mas a maior parte é ficcional. Como é inspirado nos filmes de ação dos anos 1980, tem essa questão dos protagonistas, do tira mau e do tira bom. A gente traz isso para o malandro e o mané, para o jeitinho brasileiro de ser. A ideia é olhar para a história pela visão dos dois policiais, o mané e a malandra.”
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O verão da lata começa com os fatos reais e segue pela ficção quando os policiais começam uma investigação toda enviesada. Dividem a cena com eles dois irmãos caiçaras que encontram uma grande quantidade de latas e começam a vender passeios que garantem a possibilidade de se deparar com a maconha, uma tentativa de comercializarem o produto e escaparem do enquadramento como traficantes. “O filme é uma comédia divertida sobre como o brasileiro lida com essas coisas incomuns e raras. O foco é nas situações cômicas mesmo. É pura comédia”, avisa Camila.
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Uma das intenções era criar uma história única na qual os personagens estivessem dispostos a quebrar tabus de uma forma leve e cômica. O verão da lata quer o público gargalhando e refletindo sobre o absurdo da situação. “A história em si poderia ter vários tons e pode até não ter sido tão leve. Mas a gente sempre teve liberdade e cuidado de não confundir com a história real”, explica Larissa, que aponta, também, uma certa inocência dos personagens. Ambos querem apenas ser reconhecidos. “Cada um do seu jeito, um sempre tentando se dar bem e o outro se dando bem em cima. É a vida como ela é, com pessoas que querem ser espertas demais e outras que acabam sempre sendo passadas para trás.”
A distância do tempo e a mudança na forma como a cannabis é encarada hoje, com diversos usos medicinais, também ajudam a alimentar o tom de comédia da situação. O equilíbrio entre preservar o absurdo do episódio e evitar a caricatura é outro ponto de sustentação do longa. “A gente sempre quis dar uma leveza para o filme da forma como a gente acha que o assunto deve ser. Hoje a cannabis medicinal está aí para provar que muitos tabus precisam ser reconsiderados e a gente utiliza esse evento para dar uma leveza para a coisa”, diz Larissa.
Diversão e Arte
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