Rodrigo Lelis tem motivos de sobra para comemorar a estreia na comédia televisiva. Há pouco mais de um mês no ar em Por você, novela das sete, o ator baiano acompanha com entusiasmo a repercussão de Toy, um trabalhador que, tomado pela paixão, é capaz de fingir ser médico para impressionar Leandra, vivida por Giovanna Grigio. Entre memes, teorias e manifestações de carinho, o personagem conquista espaço no imaginário dos telespectadores e proporciona ao intérprete uma experiência que, embora nova na televisão, tem raízes antigas em sua trajetória artística.
"Sou um tuiteiro assumido e gosto muito de acompanhar os memes", conta Lelis. A relação com as redes sociais vai além da curiosidade profissional. É também por elas que o ator se informa e observa como a novela continua mobilizando diferentes públicos, mesmo em uma época marcada pela fragmentação do consumo audiovisual. "Tenho me divertido muito e percebido o poder que a novela tem no imaginário coletivo. A novela realmente ainda é uma forma de fazer que atrai e mobiliza muitas pessoas", avalia.
O entusiasmo de Rodrigo tem uma razão particular. Antes de encontrar no humor uma oportunidade de ampliar seu repertório diante das câmeras, ele constrói uma trajetória marcada por personagens de forte densidade dramática, tanto no teatro quanto no audiovisual. A possibilidade de explorar a comicidade representa, portanto, mais do que uma mudança de registro: é a chance de levar à televisão uma faceta que, até então, encontra poucas oportunidades de expressão.
"Eu tento ser engraçado com as pessoas que amo e convivo. É algo que estou sempre buscando, então, ter a oportunidade de levar isso para a câmera tem sido muito enriquecedor", afirma Lelis. A afinidade com o gênero, aliás, não é recente. Uma das poucas experiências essencialmente cômicas de sua carreira nos palcos lhe rende uma indicação ao Prêmio Braskem de Teatro, na categoria Ator Revelação, na Bahia. A lembrança ajuda a dimensionar o significado de Toy neste momento profissional. "É muito significativo estrear na televisão explorando esse lugar e perceber que o Toy tem chegado de uma forma tão bonita às pessoas", comemora o pisciano.
A comicidade do personagem, no entanto, não se resume às trapalhadas de um homem disposto a tudo para conquistar uma mulher. Rodrigo enxerga em Toy a figura de um apaixonado que se entrega sem reservas, mesmo quando a realidade parece não colaborar com seus planos. O ator de 32 anos o define como "um trabalhador brasileiro, um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco", referência que aproxima a ingenuidade romântica do personagem de uma experiência social bastante reconhecível.
Por trás da mentira que sustenta sua tentativa de impressionar a médica Leandra, há alguém que encontra no amor uma possibilidade de transformação. "Ele chega como uma espécie de alívio cômico, mas também com muita paixão e ingenuidade, e acaba fazendo com que a doutora Leandra ria justamente em um momento muito difícil da vida dela", explica.
Para construir essa dimensão, Rodrigo recorre a uma referência clássica das artes cênicas: a Commedia dell'Arte, tradição teatral italiana baseada em tipos e máscaras que atravessam os séculos. Entre os arquétipos que orientam sua composição está Pierrot, o apaixonado melancólico que persegue Colombina e vê seu amor atravessado por Arlequim. "Essa referência tem sido muito significativa para mim na construção do personagem", diz.
Representatividade nordestina
Essa atenção à composição também se manifesta na maneira como o ator percebe as diferentes linguagens por onde passou. Em Meu nome é Gal, filme sobre Gal Costa (1945-2022), Rodrigo teve a responsabilidade de interpretar o conterrâneo Caetano Veloso, uma das figuras mais reconhecidas da música brasileira. O trabalho exigiu preparação específica, incluindo canto e violão, e representou uma experiência decisiva em sua aproximação com o cinema.
"Interpretar o Caetano foi uma grande responsabilidade, principalmente pela dimensão que ele tem no imaginário das pessoas", recorda o artista. Para enfrentar o desafio, procurou estabelecer uma relação íntima com o artista e mergulhou no processo de preparação. A experiência não se limitou ao exercício de reproduzir gestos ou características reconhecíveis de uma personalidade pública. Ampliou sua percepção sobre as possibilidades expressivas do audiovisual e reforçou sua convicção de que o trabalho artístico pode estabelecer vínculos profundos com quem assiste.
O cinema, que o atraía como linguagem e possibilidade profissional, ganhou ainda mais importância depois do filme. "O processo de inserção no mercado audiovisual, através de Meu nome é Gal, transformou completamente minha relação com o cinema. (...) Eu amo o cinema", afirma. A experiência também lhe permitiu perceber como o estudo e o exercício cotidiano da profissão podem alcançar o público quando tratados como arte. "Sinto-me muito honrado de poder chegar ao público e fazer com que ele se identifique com questões que considero importantes."
Se o filme lhe apresentou o desafio de dar vida a uma figura real de enorme relevância cultural, Guerreiros do Sol trouxe outra espécie de conflito. Na novela do Globoplay, Rodrigo interpretou o padre Bida, um homem sensível dividido entre as exigências da batina e a força do amor. A produção, com 45 capítulos fechados e identidade própria, foi sua estreia no universo das novelas e representou uma etapa fundamental de aprendizado sobre a dinâmica dos sets de televisão.
A passagem pela trama o preparou para os desafios de Por você, especialmente no que diz respeito ao ritmo de gravação, ao posicionamento de câmera e ao trabalho simultâneo com diferentes eixos e equipamentos. O teatro também teve papel decisivo nessa formação, ao lhe ensinar sobre intensidade e precisão, ainda que por caminhos distintos daqueles percorridos no audiovisual.
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