
Enquanto se prepara para uma sessão de eletrochoques prescritos para um tratamento de depressão, uma mulher escreve para a filha adolescente. Há risco de o tratamento eliminar a memória e a personagem de Apneia, livro que a brasiliense Esther Faingold lança nesta quarta-feira (4/11), às 19h, na Livraria Platô, quer deixar um registro de quem é, caso acabe esquecendo de si mesma.
Leia mais: Aos 8 anos, Kadu Spínola estreia na tevê como Samuca em "Por você"
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Ficção e autobiografia se fundem na narrativa fragmentada da autora, que é também artista plástica e companheira de vida do artista Tunga, um dos nomes mais importantes da arte contemporânea brasileira, morto em 2016 e com quem publicou Ethers. Apneia é um livro sobre dor, vida, morte e o desejo de escapar. Sobre uma partida iminente, mas incerta, e o temor de ver as memórias escoarem para um mundo onde nem mesmo existem.
Esther é narradora e autora, nomeada assim em homenagem à avó, mulher de uma família de judeus que fugiram da perseguição na Bessarábia, na Europa Oriental. “Venho de gente que atravessou o mar com a vida nos bolsos e chegou calada. Em casa, certos assuntos circulavam como corrente de ar. Arrepiavam a pele, batiam portas, e ninguém os nomeava. Cresci respirando esse ar. O livro sai desse ar rarefeito e põe na boca de uma mulher o que a casa calava: o desejo, a carne, a fé, a loucura”, conta a autora, em entrevista ao Correio. A memória, portanto, é vital nessa família.
Leia mais: Thardelly Lima celebra nova fase com personagem em "Lá na minha terra"
Há muitas referências também no romance. A narradora nasceu na Asa Sul, como Esther, o que leva Brasília para uma dimensão da narrativa. O Talmude, coletânea de livros sagrados fundamentais do judaísmo, também tem lugar, assim como uma epígrafe do filme Sans soleil, de Chris Marker e a história romana antiga. Mas tudo isso serve de suporte enquanto a narradora faz a contagem regressiva para o eletrochoque que pode mudar ou apagar completamente a sua vida.
Além da sessão de autógrafos no Platô nesta quarta (4/11), Esther Faingold também participa de um bate-papo com o público e uma conversa mediada por Regina Dalcastgnè, professora da Universidade de Brasília. Em entrevista ao Correio, a autora fala sobre o livro e os temas explorados na narrativa
Leia mais: Brasil, Letra & Música chega a Brasília com show gratuito imperdível
Apneia De Esther Faingold. Cosac, 144 páginas. R$ 81
Lançamento nesta quarta-feira (4/11), às 19h, na Platô Livraria (CLS 405 BLOCO A LOJA 12)
Entrevista//Esther Faingold
Pode contar um pouco como teve a ideia de escrever Apneia e o que te motivou a escrever?
Plínio, o Velho, conta no livro XXXV da História natural que a arte de modelar nasceu em Corinto, de uma moça e de uma lamparina. O rapaz que ela amava ia partir para o estrangeiro. Na véspera, ela riscou na parede o contorno da sombra do rosto dele. O pai, Butades, oleiro de Sícion, encheu o risco de barro e o levou ao forno com as outras peças. O primeiro retrato em barro de que Plínio tem notícia é a sombra de alguém de partida. Apneia nasceu de uma lamparina voltada para dentro. Uma mulher está para partir de si mesma, rumo a um tratamento que pode lhe apagar a memória, e risca o próprio contorno antes que a sombra se mova. Risca para a filha adolescente. A primeira página diz: "é para a mulher que você se tornará que confio o que sou: a minha memória". E pede: "Minha filha, no futuro, me leia em uma tarde de sol." O livro foi escrito para uma mulher que ainda não habita a menina. Nasci na Asa Sul, como a narradora, numa cidade que também começou com um risco. Lucio Costa conta, no relatório do Plano Piloto, que o desenho "nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz". É o gesto da moça de Corinto, a mão que marca a parede para não perder quem vai embora.
Como fica o limite entre a ficção e a realidade em Apneia? Por que uma narradora com o seu nome? Qual a intenção? O que a literatura permite alcançar que a memória não alcança?
O nome é a primeira pergunta do livro. A narradora abre assim: "ERA PARA EU TER SIDO CLARA. Na maternidade decidiram me chamar de Esther, nome da mãe do meu pai. O que diz o nome que nos é atribuído?". No tratado Chulin do Talmude, os rabinos perguntam onde Esther aparece na Torá. Respondem com um versículo do Deuteronômio em que Deus diz "esconderei o meu rosto", haster astir, palavras em que o nome dela ressoa. É um jogo de som, não uma etimologia. O Livro de Ester é um dos dois da Bíblia hebraica em que Deus não é nomeado. A rainha viveu no palácio sem dizer de que povo vinha. Dar meu nome à narradora é abrir mão do álibi. O leitor não pode me absolver com o "foi com outra", e nenhuma frase pode se escorar no "aconteceu de verdade". O limite entre ficção e vida passa por dentro de cada frase e muda de lugar a cada uma. A epígrafe é uma pergunta de Chris Marker, em Sans Soleil: "Como se lembrar da sede?". No mesmo filme, ele diz que não lembramos: reescrevemos a memória, como se reescreve a história. A literatura alcança a sede que nenhuma lembrança guarda
O livro trata de uma situação-limite que leva a uma reflexão sobre lembrança, identidade e escrita. Por que esse tema?
O tema toca o osso. A narradora diz: "Perder minha memória seria perder o que sou". E pergunta: "Como me chamarei quando não souber mais o meu nome?". A situação-limite arranca o reboco e deixa a viga à mostra. É a casa depois do incêndio, quando enfim se vê o que sustentava as paredes. Em 1938, em Roma, Ugo Cerletti e Lucio Bini aplicaram o primeiro eletrochoque num ser humano, inspirados pelo que Cerletti viu no grande matadouro do Testaccio. Ali os porcos levavam descargas elétricas nas têmporas e caíam em convulsão. Não morriam do choque; morriam depois, pela faca. A psiquiatria levou a lição do curral para a clínica. A narradora de Apneia escreve às vésperas desse procedimento. Numa das listas do livro, sob a rubrica "fizeram eletrochoque", estão "Zelda F. Sylvia Plath Leonora Carrington a mãe do Allen Ginsberg". São mulheres que criaram, escreveram, amaram, e que foram levadas à convulsão por ordem médica, pela eletricidade, pela insulina, pelo Cardiazol. Carregamos um reflexo antigo dos mamíferos. Quando o rosto toca a água fria e o fôlego se prende, o coração desacelera e os vasos dos braços e das pernas se fecham. O sangue, com o oxigênio que resta, fica reservado ao cérebro e ao coração. Chama-se reflexo de mergulho. O corpo abandona as extremidades para salvar o lugar onde moram as lembranças. A narradora diz que sua voz lembra "o vácuo e o aperto que o mergulhador em apneia sente no ouvido". E há o relógio. A contagem começa em vinte dias e encolhe. "TENHO QUATRO DIAS, por isso te escrevo às pressas, como quem precisa justificar um crime." Quatro dias impõem à prosa o ritmo de quem escreve com o fôlego preso. Cada palavra custa um pouco de ar, e pode não haver segunda respiração para corrigir.
Ausências e contradições atravessam a relação entre a mãe e a filha: o livro é também sobre a maternidade? Que maternidade?
É. E falar de maternidade, em Apneia, é falar de buraco, de falha, de vazio, do medo do que uma mãe pode ou não passar à filha. A narradora diz: "Uma orfandade coletiva não sai de mim". Ninguém lhe entregou um modelo pronto. Ela faz a maternidade com as mãos, com papel e tinta. Há no livro uma passagem em Galápagos, nas ilhas Española e Santa Fé, entre iguanas. São animais de sangue frio, que dependem do calor de fora. Como não produzem o próprio calor, ficam umas sobre as outras para guardá-lo. A maternidade de Apneia tem essa física: emprestar calor a um corpo que ainda não o sustenta e, um dia, vê-lo aquecer-se sozinho. Quando a filha nasce, "com ferocidade, você bebeu o colostro que era seu, meu". Na linha seguinte, o livro repete a pergunta da epígrafe: "Como se lembrar da sede?". É uma maternidade que entrega o corpo, a saliva e o erro, porque "em uma mãe também vive uma mulher".
Pode falar um pouco sobre a opção pela narrativa fragmentada? Por que essa escolha? O que esse tipo de narrativa permite?
A fragmentação é a respiração do livro e também o retrato da narradora, que se lembra aos pedaços e se recompõe aos pedaços. Cada bloco abre em caixa-alta, como quem enche o peito antes de descer. Na última parte, o texto avança por horas marcadas, 2:26 p.m., 2:34 p.m., 4 p.m., até que uma delas vira "não sei que horas são", e o leitor passa a ouvir o tique-taque do tempo. A narradora descreve o próprio método: "Movo o meu lixo como faço com as palavras. Vivo me desfazendo de fotos, cartas, bilhetes, passagens, do mesmo modo como corto as frases." Cortar, para mim, vem da escultura: a forma aparece no que se tira. Por volta do ano 1000, na corte de Heian, Sei Shnagon, dama de companhia da imperatriz, escrevia listas: coisas elegantes, coisas detestáveis, coisas que fazem o coração bater mais depressa. Chris Marker, de quem tirei a epígrafe, cita essas listas em Sans Soleil. Mil anos depois, às 2:34 da tarde de um dia de internação, a narradora de Apneia anota os "Filmes para assistir se perder a memória": Mouchette, Testamento de Orfeu, Vertigo, Limite, Fear Eats the Soul, Fanny and Alexander. Logo abaixo vêm os "Filmes para assistir se eu não perder a memória", e a lista é a mesma, título por título. Com ou sem lembrança, ela quer os mesmos filmes. É a linhagem de Shnagon: uma mulher que faz o inventário do mundo que a cerca para continuar dentro dele. A narradora quer ser "uma pintura coreana do movimento Dansaekhwa, sem divisões estéticas entre abstrato e figurativo". Ha Chong-hyun, que segue pintando em Seul, empurra a tinta pelo avesso da tela até ela atravessar a trama e aflorar na frente. E ela diz: "Posso ver muitas cores em uma cor". E há Brasília. Nasci numa cidade que ergue os prédios sobre pilotis e deixa o chão livre. Atravessa-se a superquadra por baixo dos blocos, sem muro, de uma quadra a outra. O branco entre os fragmentos é esse pavimento. O leitor passa por baixo, escolhe o caminho, liga uma lembrança à outra com o próprio passo. Clarice Lispector, que não se cansou de estranhar a cidade, escreveu na crônica Nos primeiros começos de Brasília, publicada no Jornal do Brasil em 1970: "Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério."
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte