O varejo brasileiro registrou queda real de 3,6% em maio de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA). O resultado representa a maior retração para um mês de maio desde os impactos provocados pela pandemia de covid-19 e reflete um cenário de maior cautela por parte dos consumidores.
De acordo com a Cielo, o desempenho negativo foi influenciado por uma combinação de fatores econômicos, como juros elevados, inflação concentrada em itens essenciais e comprometimento da renda das famílias. O resultado também aprofunda a sequência de perdas observada desde o início do ano e configura a maior retração mensal desde março de 2025, quando o índice havia recuado 3,8%.
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Famílias adiam compras e priorizam despesas básicas
O levantamento indica que os consumidores estão adotando um comportamento mais seletivo diante das dificuldades econômicas. Com o orçamento pressionado, muitas famílias passaram a concentrar os gastos em itens considerados essenciais e a adiar compras de maior valor.
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Segundo Carlos Alves, vice-presidente de Tecnologia e Negócios da Cielo, o enfraquecimento do consumo ocorreu em todo o país. "O enfraquecimento do consumo foi disseminado pelo país. Nenhuma região apresentou crescimento real, mostrando que o ambiente econômico continua exigindo mais cautela das famílias", afirmou.
Ele acrescenta que o consumidor está mais atento aos preços e promoções antes de decidir uma compra. "Maio confirmou um consumidor mais racional e seletivo. Com o orçamento mais pressionado, as famílias estão priorizando despesas essenciais e buscando mais preço e promoção antes de decidir a compra."
Queda atinge todas as regiões do país
A retração foi registrada em todas as regiões brasileiras. O Centro-Oeste apresentou o pior resultado, com queda de 4,9%, seguido pelo Sudeste, que registrou a segunda maior retração e o pior desempenho para qualquer mês desde março de 2021, período ainda marcado pelos efeitos da pandemia.
No Nordeste, as vendas recuaram 3,1%. Já o Norte registrou queda de 2,4%, enquanto o Sul teve retração de 1,9%. Entre os estados, o Amapá liderou o desempenho nacional, com crescimento de 3,1%, seguido por Sergipe, com alta de 0,9%. Na outra ponta, Goiás apresentou a maior queda do país, de 6,7%. São Paulo (-5,4%), Pernambuco (-5,2%), Rio de Janeiro (-4,7%) e Roraima (-4,5%) também figuraram entre os piores resultados.
Calendário e Dia das Mães influenciaram resultado
Além do cenário econômico, fatores ligados ao calendário contribuíram para o desempenho mais fraco do varejo. Em maio de 2025, uma quinta-feira adicional coincidiu com o feriado do Dia do Trabalhador, favorecendo viagens, lazer e consumo. Neste ano, o feriado caiu em uma sexta-feira, reduzindo esse estímulo.
O Dia das Mães também teve impacto. Em 2025, a data impulsionou crescimento de 6,3%, enquanto em 2026 o avanço foi de 3,6%, criando uma base de comparação mais elevada para o setor.
Entre os grandes segmentos analisados pelo ICVA, o setor de serviços foi o mais afetado, com retração de 8,9%. O principal impacto veio das áreas de turismo e transporte. Segundo o levantamento, a alta acumulada das passagens aéreas e a maior seletividade dos consumidores reduziram a demanda. O IPCA-15 acumulou aumento de 43,8% nos preços das passagens aéreas nos últimos 12 meses.
Bares e restaurantes também contribuíram negativamente para o resultado. Nos segmentos de bens duráveis e semiduráveis, materiais de construção, vestuário e artigos esportivos registraram os maiores impactos negativos. Já entre os bens não duráveis, drogarias, farmácias, supermercados e hipermercados apresentaram retração real.
Inflação e juros continuam pressionando consumo
O cenário macroeconômico segue sendo um dos principais desafios para o consumo. Em maio, o IPCA-15 avançou 0,6% e acumulou alta de 4,6% em 12 meses. Entre os grupos com maior aumento de preços estão Alimentação e Bebidas (1,4%), Habitação (1,0%) e Saúde e Cuidados Pessoais (1,1%).
Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias permanece elevado. Em março, ele representava 49,8% no sistema financeiro, enquanto o comprometimento da renda chegou a 29,3%.
Para as empresas, o ambiente também continua desafiador. A taxa básica de juros está em 14,5% ao ano, enquanto a inadimplência empresarial atingiu cerca de 9 milhões de CNPJs em atraso. Segundo a Cielo, esse contexto ajuda a explicar a redução do consumo e a maior sensibilidade de setores ligados a serviços e gastos de maior valor.
