
As ações do Grupo Casas Bahia desabaram, ontem, após a empresa protocolar, no domingo, o pedido de recuperação judicial no último domingo. Os ativos fecharam em quede de 33,33%, valendo R$ 0,44. No ano, as perdas chegam perto de 80%.
A decisão ocorre após a companhia registrar prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. No primeiro semestre, o prejuízo acumulado chegou a R$ 11,2 bilhões e, nos 12 meses encerrados em junho, alcançou R$ 13,2 bilhões.
A verejista, que anunciou o fechamento de 298 lojas e demissão de três mil funcionários, atribui parte da deterioração financeira ao cenário macroeconômico, marcado por juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de financiamento e redução do consumo de bens duráveis no país.
O pedido de recuperação judicial tem o objetivo de renegociar dívidas que somam R$ 17,3 bilhões e reorganizar sua estrutura financeiracerca.
Ontem, durante teleconferência, o CEO da companhia, Renato Franklin, afirmou que a empresa passou a enfrentar um cenário econômico diferente a partir de abril, com impactos provocados pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, pela alta do petróleo e pelo aumento das expectativas de inflação e da curva de juros.
Segundo Franklin, episódios de volatilidade relacionados ao período eleitoral também contribuíram para pressionar os juros e levaram à redução dos limites concedidos por algumas seguradoras, afetando a capacidade de compra da empresa junto aos fornecedores. "A evolução operacional não foi suficiente para bancar todos os passivos que temos no curso financeiro", afirmou o CEO.
Para Rodrigo Rosário, especialista em mercado financeiro e sócio da VLG Investimentos, os juros elevados aumentam o desembolso com o serviço da dívida e dificultam a obtenção de novos financiamentos. "O crédito caro compromete a capacidade de refinanciamento — a empresa não consegue rolar seus vencimentos, ou só consegue a um custo proibitivo", afirmou.
O especialista, porém, ressalta que a atual situação não surgiu apenas em razão do cenário econômico recente. Segundo Rosário, a empresa já enfrentava dificuldades financeiras antes do atual pedido de recuperação judicial.
Em 2024, o grupo havia recorrido a uma recuperação extrajudicial para reorganizar sua estrutura financeira. Na ocasião, aproximadamente R$ 4,07 bilhões em dívidas financeiras sem garantia estavam em negociação com os bancos. O acordo previa a postergação do pagamento do principal, com manutenção dos pagamentos de juros e períodos de carência. Com o fim desses prazos, parte da pressão voltou a atingir a estrutura financeira da companhia.
Segundo o CEO da empresa, o objetivo da recuperação judicial é permitir que a companhia reorganize seus compromissos financeiros sem abandonar o processo de recuperação operacional. "O destino continua o mesmo: ter uma operação saudável e rentável, que a gente vem evoluindo. Mas ela é um instrumento para a gente poder realmente resolver os passivos estruturais da companhia", disse.
O executivo também afirmou que o mecanismo poderá permitir a obtenção de linhas de crédito de curto prazo e a monetização de determinados ativos, enquanto a companhia negocia de maneira organizada com os credores.
Aumento de processos
Para Pedro Ludovico, especialista em reestruturação de empresas e sócio do escritório Bento Muniz Lobo Ludovico Advocacia, a recuperação judicial é um processo universal. Deferido o processamento, todos os créditos anteriores ao pedido passam a se submeter ao processo, salvo as exceções legais, sobretudo os credores com garantia fiduciária.
"Vem acompanhada da suspensão das execuções por 180 dias, prorrogáveis uma vez, de administrador judicial, de plano em 60 dias, de votação em assembleia por classes e, se o plano não vingar, de falência ao final. Saímos de R$ 4,1 bilhões para R$ 17,3 bilhões em obrigações declaradas," explica.
O movimento ocorre em um ambiente de aumento dos processos de recuperação extrajudicial no Brasil. Segundo dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (OBRE), foram registrados 82 casos em 2025, maior número da série histórica iniciada em 2005. Em 2026, até o momento, já são 44 casos.
O número de registros passou de 17 em 2021 para 20 em 2022, 43 em 2023, 66 em 2024 e 82 em 2025. Entre 2021 e 2025, o crescimento foi de aproximadamente 382%. Desde 2005, o levantamento contabiliza 329 casos de recuperação extrajudicial. Desse total, 272, ou 82,67%, ocorreram a partir de 2021, enquanto 57 foram registrados antes da reforma.
Para Rodrigo Rosário, a combinação entre juros elevados, crédito caro e dificuldades operacionais reduz significativamente a margem de recuperação de empresas que já apresentam uma estrutura financeira comprometida. "Sem dúvida, os juros foram determinantes para a deterioração da saúde financeira da empresa. Porém, cabe salientar que a Casas Bahia já vinha de um momento ruim há mais tempo", afirmou o especialista.
Segundo ele, a recuperação judicial representa agora uma tentativa de reorganizar os passivos diante de um cenário em que a melhora da operação ainda não foi suficiente para compensar o peso das dívidas acumuladas.

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