
Em 23 de novembro do ano passado, a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg comemorou, ao lado da companheira Rebecca, a conquista da medalha de bronze na etapa da Austrália do Circuito Mundial. No início do discurso, destacou como o momento era especial para além do esporte. A carioca de 38 anos referia-se à prisão do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro. "Colocamos na prisão o pior presidente da história do Brasil. Bolsonaro está na prisão e é muito importante que celebremos. Estou muito orgulhosa de ter esta bandeira agora. Jamais poderia acreditar que teríamos um presidente assim. É algo que temos que celebrar", manifestou em quadra. Oitenta e oito dias depois, chegou a conta: a filha da lenda Isabel Salgado foi punida pela Federação Internacional (Fivb), ontem, e está fora da primeira etapa do Circuito Mundial, de 11 a 15 de março, em João Pessoa.
Na decisão, a Fivb alegou conduta antidesportiva de Carol. E não foi a primeira vez que a atleta presente nos Jogos Olímpicos de Paris-2024. Em 2020, após obter o bronze do Circuito Brasileiro em Saquarema (RJ), disse: "Só para não esquecer, fora Bolsonaro", em entrevista ao SporTV. A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) adotou postura crítica à fala e repudiou manifestações políticas em eventos organizados por ela. Naquele ano, a carioca foi denunciada pela procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Na primeira instância, teve aplicada R$ 10 mil em multa, revertida para advertência posteriormente. No mês seguinte, o Pleno a absolveu.
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A punição imposta a Carol Solberg se insere em um contexto sensível do esporte de alto rendimento sobre manifestações políticas. O tema já motivou sanções e estremeceu relações entre personagens respeitados. Campeão olímpico do vôlei nos Jogos do Rio-2016, Wallace Souza pegou gancho de 90 dias de suspensão em 2023 após promover enquete que incitava tiro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso gerou reação imediata de entidades esportivas e órgãos públicos, com abertura de procedimentos disciplinares, e reforçou o debate sobre os limites da manifestação de atletas fora do ambiente de competição.
Outro caso de notoriedade foi o da jogadora de futebol dos Estados Unidos, Megan Rapinoe, em 2016. Campeã mundial e olímpica, foi alvo de advertências e críticas institucionais após se ajoelhar durante a execução do hino nacional. O gesto contra o racismo e injustiça social no país reacendeu o debate sobre liberdade de expressão de atletas em ambientes oficiais. Não houve punição formal à atleta, mas forte pressão. A US Soccer, entidade que rege a modalidade no âmbito nacional, vetou boleiros e boleiras de se ajoelharem durante o hino, mas a medida foi revogada em 2017.
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Nos Jogos de Inverno
Os Jogos de Inverno Milão-Cortina também renderam declarações que incomodaram o presidente americano, Donald Trump. Durante entrevista coletiva, o esquiador Hunter Hess foi questionado sobre o que significava representar os Estados Unidos em meio ao atual contexto político do país. Hess compartilhou ter "emoções mistas" ao vestir o uniforme, explicou a discordância de certas situações políticas, mas que representava a família, amigos e tudo de positivo que acredita existir na terra natal.
Ele afirmou não representar necessariamente tudo o que acontece nos EUA só por carregar a bandeira. Donald Trump rebateu e o chamou de "verdadeiro perdedor".
As restrições a manifestações políticas no esporte não são novas e fazem parte dos regulamentos das principais entidades internacionais. Ainda assim, a recorrência dos casos reacende a discussão sobre os limites dessas normas e sobre o impacto do silenciamento de protestos individuais em um ambiente cada vez mais atravessado por questões sociais e políticas.
Entre normas e manifestações, o esporte segue exposto a um debate que ultrapassa quadras, pistas e arenas. A forma como federações, comitês e atletas lidam com esses episódios tende a seguir em pauta à medida que competições globais se tornam também palcos de disputas simbólicas.

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