
O Brasil nunca foi tão feliz com os esportes na neve e comemora um triplete de resultados expressivos no intervalo de dois anos. Em 2024, celebrou a primeira medalha em Jogos Olímpicos de Inverno, com o bronze de Zion Bethonico no snowboard cross da edição da Juventude. Há menos de um mês, Lucas Pinheiro Braathen colocou a bandeira verde-amarela sobre o lugar mais alto do pódio com a conquista inédita na versão adulta em Milão-Cortina. Nesta terça-feira (10/3), foi a vez de Cristian Ribera entrar no Olimpo com a prata no esqui cross-country sitting (para atletas que competem sentados), a nossa primeira conquista na Paralimpíada gelada.
Para o presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) e chefe de Missão em Milão-Cortina, Anders Pettersson, a sequência simboliza o resultado de mais de uma década de planejamento. "É a consequência de um planejamento estratégico de longo prazo. É uma boa gestão da equipe da CBDN, uma parceria muito forte tanto com o COB, o CPB e, também, o Ministério do Esporte. Eu diria que é um alinhamento das estrelas que tem funcionado muito bem. Nada vem de graça. É um trabalho árduo, minucioso e que nem sempre garante resultados, mas, se você não fizer a lição de casa, nada vai acontecer", comentou direto da Itália, em entrevista ao Correio.
O dirigente destacou que os resultados recentes mostram um momento raro para os esportes de neve no país. "É interessante isso: uma medalha em cada frente — olímpica, paralímpica e da juventude. É uma combinação perfeita."
A conquista de Ribera, aos 23 anos, tem peso ainda maior pela trajetória do atleta. Cristian nasceu com artrogripose, doença congênita das articulações das extremidades, e, em busca de tratamento, a família mudou-se de Rondônia para São Paulo aos três meses de vida. Já passou por 21 cirurgias para a correção das pernas. Começou no esporte com 15 anos. À época, foi o atleta mais jovem a participar dos Jogos Paralímpicos de Inverno PyeongChang-2018, quando alcançou a melhor colocação do Brasil na história, com o sexto lugar na prova de 15km.
"É um vencedor, um batalhador que teve uma vida bem desafiadora. A história dele é muito bonita. É a terceira edição de Jogos Paralímpicos da qual participa. Até tínhamos um pouquinho de expectativa de uma medalha quatro anos atrás em Beijing, que não aconteceu, mas chegou a hora. É muito merecido. Ele é extremamente dedicado, focado e com um mental muito forte. Só tiro o chapéu. Tenho muito orgulho de vê-lo representando o Brasil", celebrou o presidente.
Pettersson acompanhou de perto a prova que consagrou Ribera e acredita que a sinergia dele com o público, principalmente com a família presente, foi importante. "Foi um dia mágico, estávamos esperando isso há muito tempo, a mãe, o pai, o irmão, que é treinador dele. Antes da largada, desejei-lhe boa sorte e abracei-o. Estava muito tranquilo, focado. Melhor, concentrado. Acho que essa é a palavra. Ele estava na bolha dele se preparando, porque são três provas. Era necessário dosar energia, foi um dia longo para ele", compartilhou.
O presidente da CBDN conta que Ribera é bastante brincalhão, um ídolo amigável e apaixonado por esporte, fã de Messi e LeBron James. "Ele é bastante humano, torcedor de Palmeiras e diz que é porco louco. Tem uma tatuagem no braço direito. Brinca com todo mundo, é muito acessível, mostrou medalha e tirou foto com todos. É fora de série, com uma personalidade do bem. É maravilhoso, tanto como esportista quanto como pessoa", elogia.
Para o dirigente, a medalha paralímpica inédita pode marcar o início de uma nova fase para os esportes de neve brasileiros. "A primeira sempre é a mais difícil, mas abre os caminhos. Espero que seja apenas o começo."
Ribera foi ultrapassado na última reta pelo chinês Liu Xizu. O cazaque Yerbol Khamitov ficou com o bronze. Há chance de mais medalhas com Ribera. Nesta quarta-feira (11/3), a partir de 5h45, disputa a prova dos 10km do cross-country. No sábado, entra em ação no revezamento misto. No domingo, encara os 20km.
A paranaense Aline Rocha também se destacou. Com a marca de 3min21s00, terminou em quinto lugar na prova do sprint do esqui cross-country da classe sitting. O resultado é o melhor de uma brasileira em Paralimpíadas de Inverno. O resultado anterior também pertencia a Aline, sétima no biatlo no primeiro dia de Milão-Cortina. A paulista Elena Sena foi 16ª, mas ficou fora da semi. Guilherme Rocha e Robelson Lula terminaram em 18º e 20º, respectivamente, no sprint do cross-country. Wellington Silva foi 19º na classe standing (para atletas que competem em pé).
A delegação brasileira é a maior em Paralimpíadas de Inverno, com oito atletas. Também participam os snowboarders André Barbieri e Vitória Machado. Eles entram em ação no sábado.

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