
Brasília já marchava muito antes de Caio Bonfim conquistar a prata nos Jogos Olímpicos de Paris-2024 e o primeiro ouro do Brasil na marcha atlética em Mundiais, em 2025. A modalidade nasceu praticamente do zero na capital federal, ocupando ruas e centros de treinamento em um processo construído passo a passo. Foi preciso paciência — e pés no chão, literalmente — até que a cidade se tornasse berço da marcha no país, a ponto de estender o tapete para o Mundial por equipes na Esplanada dos Ministérios, no domingo (12/4).
Recordista nacional, com oito títulos brasileiros, campeã ibero-americana e sul-americana e presença em quatro Copas do Mundo, Gianetti Bonfim é uma das pioneiras e responsáveis pela popularização da marcha atlética no Distrito Federal e no país. Forçada a se aposentar em 2007 devido a uma hérnia de disco, tornou-se treinadora e, hoje, é uma das principais vozes na preparação do filho.
"Quando comecei a marchar, não havia estrutura alguma, nem se falava na modalidade. Eu praticava corrida e, meio por acaso, iniciei na marcha, porque foi a única prova que sobrou para eu fazer no campeonato. O que veio depois foi construção lenta, sustentada pela persistência. Fomos vivendo um dia de cada vez, conquistando pequenas coisas até alcançarmos o que é hoje. Não foi nada planejado desde o começo" Gianetti Bonfim, ex-atleta e treinadora
Outro pioneiro é Valdemar Florêncio da Silva, destaque nas décadas de 1970 e 1980, período em que a prática ainda engatinhava no país. Com recordes nacionais e projeção internacional, ajudou a colocar Brasília no mapa e abriu caminho para gerações posteriores. Quem também está gravado na história da marcha do DF é Wellington Luiz, campeão sul-americano dos 10km. Ele é inspiração para a filha, Gabriela Beatriz, convocada para o Mundial.
O crescimento ganhou forma com a criação de projetos estruturados na capital. O principal deles é o Centro de Atletismo de Sobradinho (CASO), fundado em 1990 por João Sena. Professor na linha de frente do primeiro Centro de Iniciação Desportiva do DF, ele tinha como objetivo evitar que atletas interrompessem a carreira ao alcançar a maioridade.
"Completavam 18 anos e não tinham para onde ir. Criamos um caminho para que continuassem", recorda. Com o tempo, o trabalho deixou de ser pontual e passou a moldar a identidade esportiva da cidade. "Falou em atletismo de Brasília, pensa-se em marcha atlética. Hoje, somos conhecidos no Brasil como a capital da marcha", afirma.
O reconhecimento demorou a chegar e exigiu insistência de quem acreditava no trabalho. A modalidade enfrenta desafios estruturais, como a falta de árbitros e a longa duração das provas, fatores que historicamente dificultaram visibilidade e espaço, inclusive na televisão.
Hoje, a marcha é sustentada por um ambiente coletivo e altamente competitivo. Há treinamentos espalhados e talentos mapeados em regiões como Gama, Paranoá, Ceilândia e Sobradinho. Integrante da seleção brasileira e presente em quatro edições de Campeonatos Mundiais de Atletismo, Elianay Pereira destaca como o sucesso coletivo impulsiona o desempenho individual.
"Temos atletas que fazem todos os ritmos. Nunca treinamos sozinhos; isso é um diferencial enorme. Vemos um evoluindo e queremos evoluir também. Quem chega já entende que, se treinar com empenho, pode ter sucesso na marcha", afirma.
Além do ambiente de treino, fatores naturais também ajudam a explicar o desempenho. "Brasília tem uma altitude muito boa. Em lugares como Sobradinho, isso ajuda o corpo a produzir mais glóbulos vermelhos. É um ambiente favorável para provas de resistência. O Caio, por exemplo, é um leão de preparação física", destaca Sena.
O viés formador e vitorioso da marcha atlética do Distrito Federal mudou a forma como a modalidade é percebida. O que antes era motivo de chacota e buzinas em tom de deboche deu lugar ao reconhecimento. "Marchávamos ouvindo piadinhas. Hoje, ouvimos incentivos. Isso é muito importante, inclusive para a nova geração", ressalta Elianay.
O Gama não é só a casa do clube mais vitorioso do Campeonato Candango. A marcha também avança na região por meio da Associação de Corredores de Rua do Gama e do Centro de Iniciação Desportiva. Embora em ritmo diferente de Sobradinho, o trabalho começa a ganhar espaço. "O crescimento da modalidade fora de Sobradinho vem do exemplo criado lá", observa Ademir Francelino, professor no Gama, com 28 dos 55 anos dedicados ao atletismo.
Esse movimento, iniciado de forma quase artesanal, hoje se traduz em presença concreta nas principais competições. Dos 26 convocados para o Mundial na Esplanada dos Ministérios, nove são do Distrito Federal. Além de Caio Bonfim, o Quadradinho acompanhará Gabriela Beatriz, da Associação dos Corredores de Rua do Gama; e Gaby Muniz, Elianay Santana, Maraiana Dias, Diego Lima, Klaubert França, Max Santos e Lucas Mazzo, do Centro de Atletismo de Sobradinho. Três dos sete treinadores são de Brasília: Ademir Francelino Ferreira (CorGama-DF), Gianetti Bonfim e João Sena (Caso).

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