
No Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UNB), a borda da piscina marca o limite entre o peso do cotidiano e a leveza da superação. É ali que o Projeto Nauru acolhe desde atletas com deficiência física até pessoas com síndrome de down, transformando cada braçada em uma prova de que a água, além de elemento, é um espaço de conquista e autonomia absoluta no centro da capital. Dentro da piscina, a natação deixa de ser apenas esporte para se tornar o palco da superação
O projeto Nauru começou em São Paulo, idealizado pela medalhista de prata e bronze nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016 no Rio de Janeiro, Verônica Hipólito, e pelo professor e técnico da Seleção Brasileira de natação, Antônio Luiz. A iniciativa se iniciou no atletismo e depois migrou para a natação. A ideia do Nauru é, no futuro, ter polos no Brasil inteiro e poder ajudar todos os atletas. Além de fomentar o esporte paralímpico nas capitais e nas cidades, e de trazer oportunidades para as pessoas com deficiência em esportes variados.
Em Brasília, o responsável por administrar e treinar a equipe é Marcus Lima, de 50 anos. Formado em educação física, ele atuava com outro projeto para acolher a comunidade e pessoas com deficiência desde 2018 na UNB. Em 2023, após um convite de Antonio Luiz, o Nauru desembarcou na capital e se uniu à ação social do brasiliense.
"O convite para entrar no projeto veio por meio do professor Antônio Luiz, um pedido para que a nossa equipe fizesse parte da Nauru. Eu aceitei de antemão, pois é uma uma ideia muito boa. E se a gente podia contribuir, eu tinha que aceitar. A ideia do Nauru é ir para outros estados, pois os atletas que estão em São Paulo podem vir para cá fazer uma semana de treino, um intercâmbio. Às vezes, a gente está aqui, a gente pode ir lá para São Paulo, pode ir lá para o Sul, pode ir lá para o Nordeste. Então, isso é legal, temos também uma interação com os outros técnicos", afirmou Marcus.
O trabalho conta com o apoio de voluntários, como uma professora de educação física e uma nutricionista (mãe de uma das atletas) e o fisioterapeuta e ex-nadador Paulo Porto. A UnB cede o espaço, mas os materiais e melhorias na infraestrutura são custeados pelo próprio projeto com investimento de rifas e campanhas. Eles foram responsáveis por comprar raias, bandeirinhas, cordas e instalar os blocos de partida. Além disso, em 2019, o grupo reabriu a piscina do Centro Olímpico, que estava fechada e vazia, e adquiriu bombas de aquecimento por meio de arrecadações.
"O que me move sempre, até agora, sempre foi o amor pelo esporte de poder fazer a diferença na vida desses atletas. Eu me vejo como instrumento que pode propiciar sonhos para eles. Então, é um instrumento que eu vou ajudar no sonho deles. Não é o meu sonho. Eu podia estar fazendo outras coisas, mais rentáveis. Mas, para mim, o que importa é fazer a diferença na vida deles e ver que eu estou fazendo a minha parte. Quando estou aqui meus problemas somem. Eu tenho alguns alunos aqui que foram rejeitados em academias, foram negados em clubes e às vezes deixados de lados em outros locais e estão aqui dando resultado”, disse o treinador Marcus.
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Apesar da realização pessoal, o treinador relata a dificuldade de conseguir patrocínios em Brasília, Mesmo sem um aporte financeiro estrutural para recursos humanos e materiais, o projeto obteve resultados expressivos.
“Eu vejo com muita importância termos mais políticas públicas dentro do esporte, principalmente para a gente quebrar esse paradigma. Porque o atleta aqui não é 100% valorizado. No futebol, o campeão brasileiro gera milhões, as pessoas valorizam isso. Porque quando a pessoa chega e fala que é campeã brasileira no esporte dela, na natação, isso não é valorizado. Eu sempre toco nessa tecla de quebrar esse paradigma. Temos campeões brasileiros na nossa piscina, treinando na Universidade de Brasília. Então assim, isso tem que ser valorizado. Temos a melhor atleta down do país (Priscila Pontual), a recordista, a melhor atleta desse Brasilzão está nadando aqui, na nossa frente. Então assim, vai ser valorizado só quando ela for campeã mundial?”, indagou-se o treinador.
Dentre os atletas do Nauru está Larissa Nakabayashi, de 28 anos. A atleta deficiente visual começou a nadar depois dos vinte anos de idade e se apaixonou. Campeã brasileira no 50 e 100m livre e bronze nos 400m livre, a atleta se colocou entre as cegas mais rápidas do Brasil. Contudo, a atleta faz um apelo à falta de visibilidade ao esporte paraolímpico.
“A gente como deficiente tem uma dificuldade maior porque nós não temos uma visibilidade tão grande. Para conseguir patrocínios, é muito difícil. Eu tenho apoiadores que eu agradeço imensamente porque a gente sabe que, realmente, se está com a gente, é porque acredita mesmo”, desabafou a nadadora.
Para atingir grandes resultados, a equipe Nauru treina de segunda à sexta todas as tarde e ao sábado pela manhã. O projeto recebe grande apoio da Universidade de Brasília, que além de ceder o espaço para o treino, disponibiliza os horários para o treino.
"Às vezes, as aulas do curso de educação física vão pegar a piscina de 25 metros ou então precisa utilizar a de 50m, a qual nós utilizamos, aí a gente divide a piscina. O espaço aqui é para todos", contou Marcus Lima.
O grande objetivo dos próximos anos é descentralizar o projeto, levando-o para todas as regiões administrativas de Brasília. A ideia é criar polos para evitar as filas de espera nos centros atuais e oferecer uma gama maior de esportes, como judô, atletismo, escalada, bocha e até mesmo tiro com arco.
"No futuro, quero estar em todas as regiões administrativas de Brasília propiciando não só a natação, mas o judô, o atletismo, a escalada. Quero conseguir juntamente com a Nauru estar em toda Brasília propiciando esporte pra comunidade. Não só a comunidade paralímpica, mas toda a comunidade do Distrito Federal que a gente puder ajudar e possa vender essa ideia do esporte: da inclusão, do trabalho social e mostrar que o esporte ele salva. O esporte faz diferença na vida das pessoas e por meio disso a gente consegue fazer parcerias para os meninos saírem daqui e irem para faculdade", afirmou Marcus.
Paulo Porto, fisioterapeuta do projeto, afirma ter entrado no Nauru em 2022. E ajuda o projeto de qualquer maneira que ele puder.
"Estou aqui desde 2022, se eu não me engano. Não era nem Nauru antes, eram outras situações, mas era a mesma ideia. Tem pessoas aqui que tem condição, tem pessoas que são pessoas carentes, tem pessoas que moram longe, então é um jeito de eu plantar um pouquinho essa semente do bem, vindo aqui, dando uma olhada, às vezes viajando com os meninos. Então assim, isso é uma coisa que a gente tenta fazer da melhor forma possível", afirmou Paulo Porto.
Estagiário sob a supervisão de Marcos Paulo Lima

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