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Robert Scheidt aponta hábito da leitura como diferencial para atletas

No Dia Mundial do Livro, velejador cinco vezes medalhista olímpico destaca o poder dos livros para a potencialização dos talentos

Os números de Robert Scheidt como atleta: 185 títulos, 91 internacionais e 94 nacionais, além de sete participações olímpicas, com cinco medalhas -  (crédito: PETER PARKS)
Os números de Robert Scheidt como atleta: 185 títulos, 91 internacionais e 94 nacionais, além de sete participações olímpicas, com cinco medalhas - (crédito: PETER PARKS)

Campinas (SP) — A construção de um atleta envolve uma série de fatores. Sob os olhos de quem acompanha o esporte, treinos, suor e competições aparecem como elementos mais visíveis. No entanto, em meio à rotina intensa, há um hábito silencioso capaz de contribuir na formação de campeões no esporte e na vida: a leitura. Cinco vezes medalhista olímpico, o velejador Robert Scheidt é um árduo defensor desse caminho. O paulista de 53 anos navega com destreza no tema na palestra "Se perder o leme, nunca perder o rumo", atração de ontem no CBC & Clubes Expo. A participação da lenda das águas brasileiras no evento, inclusive, não poderia ter ocorrido em uma data mais emblemática: o Dia Mundial do Livro.

A data, instituída pela Unesco para incentivar a leitura, homenagear autores e proteger a propriedade intelectual, carrega simbolismo global ao valorizar o poder transformador da leitura em diferentes áreas da sociedade. No esporte, o impacto aparece de forma menos visível, porém decisiva. Para Scheidt, a construção de um atleta completo passa pela capacidade de absorver conhecimento além do ambiente de treino, ampliando repertório e fortalecendo a tomada de decisão em cenários de alta pressão. O velejador usa o tema como um dos ganchos para inspirar e compartilhar vivências da vitoriosa carreira.

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A relação com os livros acompanha o velejador desde cedo, muito antes do reconhecimento nacional alçado pelas medalhas olímpicas em Atlanta-1996, Sidney-2000, Atenas-2004, Pequim-2008 e Londres-2012. Entre viagens, competições e períodos de treino, o hábito se manteve como parte da rotina. "Acredito que, quanto mais conhecimento você tiver de vários aspectos, mais completo você vai ser na sua profissão", explicou ao Correio. A leitura, nesse contexto, funciona como uma extensão do treinamento, atuando diretamente no desenvolvimento mental e estratégico do atleta, aspectos cada vez mais determinantes no alto rendimento.

Mesmo com a exigência natural dos ciclos olímpicos exigentes e dos Mundiais — nos quais Scheidt ostenta 17 condecorações, 13 delas de ouro —, o contato com os livros nunca deixou de fazer parte da rotina do velejador. "Eu sempre tive um livro de cabeceira. Sempre estava lendo sobre alguma aventura, alguma biografia esportiva. Lia sobre economia, negócios, administração de empresas. Sempre tentei levantar conhecimento", contou, evidenciando uma busca constante por evolução intelectual.

Mesmo durante o auge da trajetória enquanto esportista profissional, a leitura assumiu papel complementar ao treinamento físico. "Quando entrei na carreira olímpica, meu trabalho era a vela. Treinar, competir. Mas eu queria continuar treinando a minha mente, estimulando novas ideias e conceitos", explicou. A prática contribuiu para a construção de uma trajetória marcada não apenas por resultados expressivos, mas também por consistência e inteligência competitiva, e se estendeu para a versão palestrante de Scheidt.

O cenário atual, no entanto, acende um alerta. Em um mundo dominado pela velocidade da informação, o hábito da leitura enfrenta concorrência direta com conteúdos rápidos e fragmentados. Robert defende o resgate da prática como fator de influência na formação da futura geração olímpica do Brasil. "Hoje, eu me preocupo que as novas gerações não tenham mais esse hábito. Querem a informação rápida no telefone. A leitura é um hábito que temos que reviver e reinventar. Tem muito conhecimento ali. É algo que pode enriquecer a nossa jornada", pontuou.

A relação do velejador olímpico com os livros também ganhou forma concreta em 2024, com o lançamento da biografia de Robert Scheidt, O amigo do vento. A obra revisita momentos marcantes da carreira e traduz em palavras a conexão entre disciplina, estratégia e sensibilidade no esporte. Durante a palestra no evento em Campinas, o velejador também compartilhou obras importantes na trajetória pessoal e que ajudaram a moldar a mentalidade competitiva: O poder do agora, de Eckhart Tolle, e Winning ugly, de Brad Gilbert, Steve Jamison e John Wooden.

No Dia Mundial do Livro, a mensagem deixada por Robert Scheidt no CBC & Clubes Expo ultrapassa o universo da vela e ecoa para todo o esporte brasileiro. Formar atletas não passa apenas por estrutura, investimento e treinamento físico, mas também pela capacidade de desenvolver mentes preparadas para lidar com desafios, frustrações e oportunidades. Entre o barulho consagrador do esporte e o silêncio enriquecedor das páginas, muitas vezes é ali, longe dos holofotes, o início da construção de um verdadeiro campeão.

*O repórter viajou a convite do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC)

 


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DQ
postado em 24/04/2026 06:00
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